GASTRONOMIA ITALIANA
Treze restaurantes participam da 3ª Festa de San Gennaro
A festa, que acontece no no Rio Vermelho, aposta na ideia e comida de rua


O chef Alessandro Narduzzi, da A Casa Mia, conta que come todo tipo de comida baiana. Sabe fazer moqueca, vários tipos de frutos do mar, cozido, mas não é de colocar a mão na massa quando se trata da culinária baiana, sua especialidade mesmo é a gastronomia italiana. Nascido na província de Viterbo, a 70 km de Roma, chegou na Bahia pela primeira vez em 1994, como turista, e aqui encontrou um lugar para chamar de casa.
Depois de uma temporada na Ilha de Itaparica, onde chegou a abrir uma pizzaria no local com um amigo, se mudou para Salvador depois de muitos pedidos de clientes e inaugurou o restaurante La Lupa, primeiro no Pelourinho, depois na Ladeira da Barra, outro na Marquês de Caravelas e, por último, ,no Salvador Shopping, que funcionou até 2020.
Agora, é chef na A Casa Mia, pizzaria que funciona em sua própria casa, mas adianta para a reportagem que, no próximo mês, reabre o restaurante La Lupa, no Santo Antônio Além do Carmo, bairro em que reside.
“No começo, o La Lupa era o único restaurante italiano em que se podia comer bem em Salvador. Tinha os tradicionais, aquela comida antiga, dos avós, que nunca se especializaram em comida mais moderna, hoje já se encontram mais coisas italianas na cidade”, diz Narduzzi.
A história do chef com a cozinha é semelhante a de muitos chefs: por influência familiar. Ele atribui a avó, mãe e pai essa influência, já que desde pequeno os acompanhava na cozinha. O pai era açougueiro e vendia carnes para restaurantes de Roma. “Era uma carne mais caipira, como aqui, que muita carne vem do interior”, conta.
De acordo com Narduzzi, todo mundo na Itália vive dentro de casa por ser muito frio e, portanto, passa o dia todo na cozinha. Seja preparando a própria comida, vendo a mãe cozinhar, a avó cozinhar ou comendo doces e os bolos, as crianças já colocam a mão na massa desde cedo. “Se gosta ou não gosta, todo mundo sabe fazer um prato de macarrão lá”, afirma.
Ele se recorda que acompanhava o pai nas vendas e estava sempre dentro de grandes restaurantes. Ao entrar naquelas cozinhas, diz ele, era possível encontrar de 30 a 40 cozinheiros, todos de chapéus altos: “Hoje, no mesmo restaurante, deve ter uns três, quatro. Antigamente, como em tudo, que não tinha coisa eletrônica, era mais mão de obra, tinha muita gente na cozinha, e eu criança corria para lá e para cá, sempre na cozinha”.
A curiosidade foi tanta que quando acabou o segundo grau, perguntou ao pai se existia em Viterbo uma escola de chef. Agora, já são 37 anos como profissional, 28 destes na Bahia. No próximo sábado, dia 24, ele vai estar na 3ª edição da Festa de San Gennaro, evento que vai reunir 13 restaurantes de Salvador e diversas atrações culturais em 12h de programação.
“Todo mundo na Itália é ligado um pouco a San Gennaro, todo mundo acredita no milagre de San Gennaro. Sempre participo dessa festa porque é um santo que, apesar de não ser devoto, é a mesma coisa com o Senhor do Bonfim. Não dá para morar na Bahia e não gostar de Bonfim”, resume Narduzzi.
Nesta edição, ele vai preparar novamente o seu famoso sanduíche de porchetta; uma pizza frita, que segundo o chef é um clássico de Nápoles; e uma sobremesa, a Bignè di San Giuseppe, uma espécie de bomba de chocolate com creme de limão siciliano.
A festa, que acontece nas ruas Professora Almerinda Dultra e Borges dos Reis, no Rio Vermelho, aposta na ideia de comida de rua a preço acessível e é tradicional nas cidades de Nápoles, Nova Iorque e São Paulo. Em Salvador, já caiu no gosto do povo.
Pensando nesse tema de festa de rua, Narduzzi afirma que na Itália é muito comum encontrar o sanduíche de porchetta como um prato disponível em cada esquina como aqui encontramos acarajé. Acarajé que ele afirma comer todos os dias. “Minhas comidas baianas preferidas são maniçoba, sarapatel e um bom mocotó. E não descarto uma boa feijoada baiana”, declara.
Um dos organizadores da Festa de San Gennaro, o chef Celso Vieira, do Pasta em Casa, conta que a ideia para a festa surgiu em 2018, quando fez uma viagem para a Itália. Em Napóles, conheceu a festa dedicada ao santo, que é padroeiro da cidade. Voltou para Salvador decidido a homenageá-lo. “Todos os lugares que têm uma colônia italiana significativa fazem essa festa, sempre é uma festa que está vinculada à gastronomia, então, é uma festa de comida, basicamente”, explica o chef.
Vieira, ele mesmo neto de italianos, diz que atualmente Salvador tem uma gama de profissionais trabalhando com gastronomia italiana a qual descreve como “coisa de alto nível” – e se orgulha de conseguir juntar esses 13 restaurantes na programação do evento. “Tem umas novidades, a Crema, a gelateria, e o Pepo, que em 2018 não existia”.
O chef Celso Vieira lembra que, em 2018, na primeira edição da Festa de San Gennaro, escreveu uma carta que dizia: “Nós somos concorrentes 364 dias do ano, mas tem um dia que vamos nos congraçar e nos unir para fazer uma festa legal para a população”. Muitos colegas aceitaram o convite, o que ele atribui ao fato de que o povo soteropolitano gosta muito de uma festa de largo.
Para a curadoria da programação cultural deste ano, ele convidou novamente Rose Lima, gestora da Casa Rosa, localizada também no Rio Vermelho, e diretora artística do Teatro Castro Alves. Junto a ela, estão o diretor musical Luciano Salvador Bahia e a produtora executiva Rebeca Castro.
Ela explica que estudou muito a história de San Gennaro antes de aceitar o convite, e ao descobrir que o bispo de Nápoles, que foi perseguido e decapitado pelo Império Romano, teria tido o sangue coletado e a partir dessa coleta surgiu o milagre de liquefação do santo, ficou surpresa pelas conexões que poderiam ser feitas.
“Acaba sendo uma sinergia grande entre o sangue vermelho que corre nas nossas veias e, ao mesmo tempo, o nosso bairro do Rio Vermelho, o bairro onde fica o Pasta em Casa, onde é feita a comemoração, e ainda o sangue que é vital para nossa vida. Achei que tinha tudo a ver fazer a comemoração”.
Junto aos colegas da curadoria, eles montaram uma programação que começa cedinho, já às 10h, com uma apresentação especial para as crianças, com o espetáculo PUMM - Por Um Mundo Melhor. Depois, uma sucessão de shows com Luciano Salvador Bahia, Mazzo Guimarães, Ivan Sacerdote, Dão, Cortejo Afro, Microtrio e, finalizando, com o Bailinho de Quinta.
Para completar, ainda haverá apresentação do DJ El Cabong costurando a programação artística. Para além das apresentações musicais, o ator Marcelo Praddo vai estar presente interpretando o próprio San Gennaro, interagindo e contando a história do santo.
Menu
Para o menu deste ano, Celso Vieira revela que os preços sugeridos estão entre R$ 10 e R$ 40, entre sobremesa, pratos e bebidas. “A gente deixa todos livres para o menu. Cada um vende o que quer, então, pode rolar repetição, mas os temperos são diferentes, a comida de cada um é diferente”, conta. Sobre os preços, ele frisa que o evento não é de alta gastronomia, por isso são preços módicos, de uma festa de rua mesmo. Estima que cerca de 10 a 12 mil pessoas passem por lá durante o dia.
Outro chef italiano que vai estar presente na festa é Massimo Cremonini. Nascido na periferia de Roma, ele se mudou para o Brasil pela primeira vez em 1998, retornando logo em seguida para fazer um curso de chef no Gambero Rosso, que, de acordo com ele, é como se fosse o Le Cordon Bleu italiano. O chef retornou para o Brasil em 2007, dessa vez para ficar.
No período que morou no Brasil pela primeira vez, colocou em prática tudo o que aprendeu na infância assistindo a mãe cozinhar, algo semelhante ao que o chef Alessandro Narduzzi experienciou. Para Cremonini, “quando você fica olhando, você está assimilando”, e foi assim que entendeu, ao perceber que tinha talento para isso, que esse era seu ofício.
Nhoque
Em 2018, inaugurou o Cremonini Ristorante, na Pituba. Na Festa de San Gennaro, ele vai preparar o nhoque com ragu de costela, rigatoni com molho de queijo brie e parma crocante, e como sobremesa um tiramisu. Essa é a segunda vez que o chef participa do evento: “A primeira edição que participei foi muito boa, gostei muito. Me chamaram novamente e vou participar porque adorei, apesar de não ter grande relação com o santo”.
O chef analisa a crescente de chefs italianos residentes em Salvador. Para ele, o número tem crescido, mas ainda são poucos: “Tem muitos em São Paulo, sim. Essa festa de San Gennaro serve também para isso, para as pessoas conhecerem um pouquinho da culinária italiana. Muita gente não vai comer em um restaurante italiano, talvez por algo cultural, mas tendo a oportunidade na rua, acho que todo mundo vai querer experimentar, vai conhecer”.
Origem 100% italiana
Um outro chef presente na festa em celebração a San Gennaro é Gian Kamal que, assim como Celso Vieira, é descendente de italianos. Os avós e pais dele imigraram para o Brasil na década de 1960 e há 60 anos mantêm o restaurante Bella Napoli na capital baiana.
“É uma cozinha afetiva, de família, receitas da minha vó e mãe que eu aprendo desde pequeno. A essência da comida é essa, de origem 100% italiana”, resume o chef.
Apesar de não ter nascido na Itália, Kamal é associado da Federação Italiana de Cozinheiros (FIC), onde frequentemente realiza especialização.
“Tenho 52 anos e o restaurante 60. Nasci, me criei e vivi dentro do restaurante, dentro da cozinha, vendo minha mãe trabalhar. Pela admiração, pela beleza que é a culinária, isso a gente se apaixona. Eu nasci dentro do restaurante, não tem como não me apaixonar pela gastronomia, pela alquimia da transformação”, conta o chef.
Na Bella Napoli, a parmigiana de carne, que caiu no gosto da população, se tornou carro-chefe do restaurante há 60 anos. Ele revela que a receita original era de berinjela, mas como aqui não tinha tanta essa cultura, foi se adaptando. Na festa de San Gennaro, eles levam outra versão do prato: o sanduíche de filé parmigiana.
“A gente tem que levar o filé parmigiana, que é nosso carro-chefe, proporcionando uma forma mais prática e simples de os clientes apreciarem. Como é uma comida de rua, para comer com a mão, a gente adaptou para uma versão sanduíche, com todos os ingredientes servido na casa, com acompanhamento de batata frita, tomate, manjericão, tudo isso adaptado para versão sanduíche e, assim, as pessoas podem provar mais uma forma diferente desse prato”, detalha.
Kamal também não é um devoto do santo italiano, e confessa que não lembra de celebrá-lo em casa quando pequeno, mas destaca que essa é uma festa cultural que deve ser alimentada.
“Temos que festejar e comemorar para não deixar cair no esquecimento. Hoje em dia, a gente está mudando tanto e deixando as coisas antigas se perderem, e a gente não pode fazer isso. Temos que celebrar para que outras pessoas possam conhecer San Gennaro e também festejar essa data”.