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Voluntários da ONG Teto constroem casas em Salvador

Tatiana Mendonça
Por Tatiana Mendonça
| Atualizada em

Quem passa desavisado pela avenida Afrânio Peixoto, em Periperi, nem desconfia, mas ali ao lado, espremidas entre a linha do trem e o mar, vivem mais de trezentas famílias. Nascida em 2007, a ocupação ganhou de batismo o nome de Comunidade Guerreira Zeferina, mas acabou conhecida mesmo pelo apelido: Cidade de Plástico.

As alcunhas que pegam dizem muito de nossos defeitos e estranhezas. As primeiras casas eram feitas de lona, madeirite e papelão. Até hoje, muitas delas equilibram-se de forma precária. No último final de semana de setembro, um grupo de 50 jovens, meio classe média, meio universitários, começou a mudar esse cenário, movendo-se para além da indiferença.

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Vindos de vários bairros da cidade, deixaram seus doces lares para ajudar desconhecidos num lugar distante sem rede de água, luz elétrica e esgoto sanitário. O que os motiva é sair do discurso para a ação: em vez de falar sobre cidadania ou doar cestas básicas, construiriam, com as próprias mãos, quatro novas casas.

A ação foi promovida pela ONG Teto. Criada no Chile, em 1997, já ergueu cerca de 90 mil casas emergenciais em 19 países da América Latina. A organização chegou ao Brasil em 2006 e, depois de ganhar corpo em São Paulo e no Rio de Janeiro, resolveu expandir-se para o Nordeste, a partir de Salvador.

Em julho, dois paulistanos de olhos puxados - o economista Henrique Chan, 26, e a bacharel em relaçãoes internacionais Gabriela Tiemy, 25 - mudaram-se para a cidade para coordenar o escritório local do Teto. Depois de escolher onde iriam atuar, visitaram escolas e universidades para angariar voluntários. Aos finais de semana, era a vez de ir até a Cidade de Plástico para explicar o trabalho aos moradores e cadastrar as famílias interessadas. As que estavam em maior risco foram selecionadas.

O expediente dos voluntários começou na sexta-feira à noite. Abrigaram-se numa escola estadual do bairro. Às 5h30 da manhã, já estavam de pé. A maioria nunca tinha dado um prego numa barra de sabão, no que se refere à literalidade do dito. Por sorte, conhecimentos de construção civil não são pré-requisitos. As casas, de 18 metros quadrados, são pré-fabricadas. Por isso, bastavam disposição e boa vontade. "Aqui é pau viola", alguém gritou.

Aos moradores cabe a tarefa de derrubar o barraco e limpar o terreno. Quando os voluntários chegaram, dividiram-se em quatro equipes e começaram a demarcar a área. Até o final do dia, deveriam fincar 15 pontaletes de eucalipto, que fazem às vezes de fundação da casa, e colocar o piso.

A família e os vizinhos também são convidados a participar da construção, para dirimir eventuais pechas assistencialistas. A diarista Tânia Bezerra de Lima, 48, que sofria com as chuvas e o medo contínuo de que seu barraco desabasse, confessa que a princípio ficou meio ressabiada com a novidade. Chamou o marido e os quatro filhos para uma reunião. Com todos os votos favoráveis, decidiu apostar, apesar do descrédito dos vizinhos. "A vida é um jogo. Se você não sonhar, não acontece".

Começou, não para

Ao fim do dia, voltaram à escola. Apesar do cansaço generalizado, ainda conversaram sobre questões sociais e depois tomaram um banhozinho improvisado com lenços umedecidos, enquanto seus amigos divertiam-se em reggaes e bares distantes. Álcool, sexo e drogas estavam proibidos.

Elizete vê sua casa nova tomando forma enquanto cata piolhos na filha caçula, mas ainda tem lá suas dúvidas. "Esse barraquinho aguenta vento?". Chan diz que sim. "E dura quanto tempo mesmo?". "De cinco a sete anos", ele informa, para surpresa da mulher, desconfiada de berço.

As casas são feitas de madeira certificada - têm três janelas, manta térmica para aliviar o calor e telhado de zinco. Custam, em média, R$ 5.500. Apesar da qualidade superior, a habitação ainda é precária - não há instalações para banheiro, por exemplo. Chan tem uma resposta automática para defender a moradia. "É uma solução emergencial, mesmo. O barraco estava caindo, chovendo dentro, correndo esgoto, entrando rato... É dar um pouco de conforto, estabilidade, segurança". As casas vão ficando prontas à medida que a luz cai sob a Baía de Todos-os-Santos. Bexigas, flores e uma fita azul são providenciadas para a inauguração. No discurso de entrega, os voluntários choram, emocionados, os moradores agradecem. Uns de mudança, outros mudados.

Salve salvador

Em outubro passado, o prefeito ACM Neto visitou a Cidade de Plástico e prometeu uma série de intervenções para o local, como rede de iluminação e construção de uma praça com quadra. Elegeu a comunidade como "a grande bandeira" na luta contra a pobreza em Salvador. Um ano depois, pouco foi feito, além de melhorias na coleta de lixo e varrição das ruas.

As mudanças estruturais podem vir, de fato, por meio de um projeto de urbanização que está sendo elaborado pela Fundação Mário Leal Ferreira, vinculada à prefeitura. A arquiteta Tânia Scofield, que dirige a fundação, diz que a comunidade está participando de todas as etapas do processo e que as obras devem começar só em 2015. Elas estão condicionadas à cessão da área ao município, já que as terras pertencem à União. A prefeitura também planeja implantar na comunidade um projeto-piloto, o Salve Salvador, que é destinado a pessoas em situação de miséria e extrema pobreza. A Cidade de Plástico pode, aos poucos, deixar de ser uma cidade invisível.

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