MUNDO
Especialistas negam elo entre refugiados e aumento da violência


A partir de 15 de março, cidadãos de seis países de maioria muçulmana ficarão impedidos de entrar nos Estados Unidos, assim como refugiados. É o que diz o decreto assinado por Donald Trump esta semana, com a justificativa de que precisa proteger o país de ataques terroristas e aumento da violência. Para Reinaldo Dias, professor de Políticas Sociais do Mackenzie de Campinas, “não há relação entre refugiados políticos e aumento da criminalidade. Suécia, Dinamarca e Noruega confirmam que não houve aumento da criminalidade”.
A TARDE conversou com Felipe Estrada Dörner, professor de criminologia da Universidade de Estocolmo, na Suécia. “Os últimos casos de violência registrados na Suécia envolvem brigas entre gangues, e não há relação alguma com refugiados”, afirma Dörner. Mesmo não havendo relação, houve uma mudança na legislação do país no ano passado, que fez o número de refugiados recebidos diminuir de 160 em 2015 para 30 mil em 2016, de acordo com o Departamento de Imigração da Suécia.
Atualmente, há muitos conflitos no Oriente Médio, especialmente na região da Síria, em que muitos cidadãos estão saindo do país em busca de uma vida mais digna e segura. A situação fez com que muitos países abrissem suas fronteiras para receber refugiados. “A questão de refugiados é bastante peculiar, fogem de conflitos que afetam a sua família”, afirma Carolina Abreu Batista Claro, professora de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.
Casos isolados
A Alemanha foi o país europeu que mais recebeu refugiados e registrou casos isolados de violência que, segundo testemunhas, envolviam pessoas de aparência árabe. Foi o caso da virada de ano de 2015 para 2016 em Colônia, 4ª maior cidade do país, onde foram registrados inúmeros casos de ataques contra mulheres, incluindo assédio moral e físico.
Após esse episódio, as leis para deportar imigrantes e refugiados ficaram mais simples. E nos casos em que ficou comprovado que refugiados haviam cometido algum crime, eles foram deportados. A professora Carolina afirma que “se o cidadão comete algum crime grave antes de entrar no país, ele não é reconhecido como refugiado”. O mesmo vale para quem comete crimes no país. “Cabe ao país que recebe classificar cada cidadão como refugiado ou não”, diz a professora.
Para Flávio de Leão Bastos Pereira, professor de Direitos Humanos e Direito Constitucional do Mackenzie, não há relação entre a chegada de refugiados e aumento da violência, e é importante que o refugiado se sinta acolhido no país que o recebe. “O Canadá recebe refugiados e é mais seguro que os EUA. O mais importante não é permitir ou proibir a entrada, mas melhorar os mecanismos de inserção social para que o refugiado se sinta integrado”.
Nova contestação
Desde o início de seu governo, Donald Trump está lutando para fechar as fronteiras do país para cidadãos de países de maioria muçulmana. Esta semana, o presidente norte-americano assinou um novo decreto restringindo a entrada de portadores de passaporte do Irã, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen, e retirou o Iraque da lista. A proibição começa a valer a partir do dia 16 de março.
Assim como o decreto anterior, este encontra resistência, mesmo que agora tenha liberado a entrada de cidadãos do Iraque, e também de quem tem visto de residência e green card. O Havaí, que é um estado americano, já entrou com pedido para suspender esse decreto presidencial, já que boa parte da população do estado é composta por imigrantes. A justificativa usada pelo juiz Distrital Derrick Watson é de que esse decreto de proibição de viagem viola a Constituição americana.
Por ser considerada uma medida ilegal, muitos governadores de estados americanos estão instruindo seus agentes a não respeitarem o decreto e permitirem a entrada de pessoas que atendam os requisitos de imigração dos EUA. Um juiz de Seattle, capital do estado de Washington, emitiu decreto derrubando a decisão de Donald Trump em proibir a entrada de cidadãos muçulmanos.
Para Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), “Trump joga álcool no fogo, faz uma homogeneização, não diferencia os cidadãos. É ruim para os Estados Unidos e ruim para as relações internacionais”.
De acordo com especialistas no assunto, a contestação deste decreto na justiça será mais difícil agora que foi flexibilizado, permitindo a entrada de pessoas que antes estavam proibidas. Haverá uma audiência no dia 15 de março para debater a questão, um dia antes do novo decreto entrar em vigor.