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CRÔNICA

O axé que nos perdoe: show do Guns N' Roses é um grito de socorro contra o monopólio em Salvador

A Bahia quer consumir o mundo: show épico do Guns deixa lição valiosa para mercado do entretenimento

Bianca Carneiro
Por

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Guns N' Roses tira as guitarras do underground e expõe a exaustão da agenda baiana
Guns N' Roses tira as guitarras do underground e expõe a exaustão da agenda baiana -

40 mil pessoas se reuniram para ver o show do Guns N’ Roses na quarta-feira, 15, na Arena Fonte Nova, em Salvador. Sim, a cidade que é capital do carnaval, mais uma vez, deixou claro o óbvio: é do carnaval, mas NÃO SÓ da folia momesca. A terra de Raul, Pitty, Camisa de Vênus, Cascadura, Maglore, Vivendo do Ócio, entre tantos outros talentos, mostrou que a guitarra elétrica nunca foi uma intrusa na Bahia, mas sim uma velha moradora que só precisava de um mega palco para gritar.

Não é nada fácil chegar a um consenso na bolha rockeira de Salvador - eu mesma, como jornalista cultural, já fui cobrada e até cancelada pelo uso de um termo aqui, uma lista acolá, em uma rebeldia que faz total jus ao gênero. Mas se tem uma coisa que parece ser de justo acordo entre esse grupo é a necessidade de mais espaço para os eventos de rock na cidade.

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É preciso que se diga, com toda a franqueza que o jornalismo exige: ver um mar de gente sedenta por guitarras em Salvador é um grito de socorro cultural. A capital baiana sofre, há anos, de um looping mercadológico que beira a exaustão. A agenda da cidade gira quase exclusivamente em torno do arrocha, do axé, do pagode e do samba. Gêneros que são, sem dúvida, a espinha dorsal de nossa identidade, mas que não podem (nem devem) ser os únicos inquilinos dos nossos palcos. O rock em Salvador vive confinado. É empurrado para o underground, para os pubs apertados, sobrevivendo da teimosia de produtores locais. De palco, palco mesmo, com estrutura e qualidade, só os sazonais, e olhe lá.

Quando olhamos para as rotas das turnês internacionais, somos sistematicamente ignorados, relegados à sombra do eixo Sul-Sudeste. A Fonte Nova lotada ontem foi o público baiano dizendo, a plenos pulmões: nós também consumimos o mundo. Nós também temos carência do que vem de fora.

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A Sunset Strip soteropolitana

Salvador esperou por Guns N’ Roses. E aproveitou demais quando chegou o dia. Ali, naquelas filas quilométricas, a sensação era de máquina do tempo. O público era majoritariamente dominado pela turma dos 50 e poucos (ou muitos) anos. Aqueles que, na juventude, reprisaram o clipe épico de ‘November Rain’ gravado da MTV no videocassete, caçavam revistas nas bancas e traduziam as letras usando um dicionário de inglês. Mas eles não vieram sozinhos. O que se viu foi um belíssimo e massivo encontro de gerações. Pais de cabelos grisalhos caminhavam lado a lado com filhos adolescentes e crianças pequenas, todos uniformizados, passando o "bastão do rock" como quem entrega a maior de todas as heranças.

Mas quando as luzes se apagaram, o sucesso foi absoluto. O Guns N' Roses não subiu ao palco para cumprir tabela, eles abriram um verdadeiro baú com um dos repertórios mais ricos da história da música, em um show que durou três horas. Axl Rose, contrariando qualquer ceticismo sobre o peso dos anos, mostrou-se um frontman inquieto, enérgico, correndo de uma ponta à outra do palco como se ainda estivesse nas calçadas da Sunset Strip. E então, há Slash. A figura cartunesca e mitológica por trás da cartola e dos óculos escuros. Slash é marrento na medida exata que um ídolo do hard rock precisa ser. Ele não apenas toca guitarra: ele faz você desejar largar seu emprego, comprar uma Gibson Les Paul e tentar ser exatamente como ele.

Mas a locomotiva do Guns não segue apenas com os dois. Duff McKagan, esguio e com sua atitude punk, segurou o grave e o suingue do show com uma elegância ímpar no baixo. E é impossível não reverenciar Richard Fortus, o "outro" guitarrista que, longe de ser apenas um apoio, entregou bases e solos monstruosos, dialogando de igual para igual com a lenda de cartola. Talvez a corridinha no Farol da Barra, antes do show, tenha o deixado ainda mais inspirado.

Em meio a clássicos que moldaram a juventude de milhares de presentes, como 'Welcome to the Jungle', 'Sweet Child O' Mine', 'Paradise City', 'Don't Cry', 'Patience', ‘November Rain’, 'You Could Be Mine' e 'Nightrain', a banda ainda encontrou espaço para reverenciar Ozzy Osbourne, num respeito mútuo pela história da música.

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Uma das coisas mais legais de ser jornalista é conhecer histórias. E ali eu conheci muitas. Mas todas desembocaram em uma conclusão comum: “espero que tenham outros shows assim”, “acho que o Guns vai abrir portas”. E afinal, Salvador não via um peso de guitarras internacionais desse porte desde Roger Waters em 2018, ou se lembrarmos do pop, do A-ha em 2022. O soteropolitano tem memória e sede de megashows, o Guns N' Roses veio para quebrar um jejum que já incomodava.

De qualquer maneira, a semente foi plantada. Segundo Alexandre Gonzaga, presidente da Arena Fonte Nova, no próximo mês será anunciado um novo show internacional no espaço. “O mercado de eventos é um segmento importante para a economia local, pois movimenta a rede hoteleira, restaurantes e o setor de serviços. Esse impacto vale tanto para atrações de fora quanto para shows nacionais”.

Mas é preciso colocar o dedo na ferida e admitir que essa conta não pode ser cobrada apenas do mercado e das produtoras independentes. A responsabilidade por reinserir Salvador na rota das superproduções globais passa, inegavelmente, pelo poder público. Se o Estado e a Prefeitura dominam com maestria a complexa engenharia de realizar o maior Carnaval do planeta, é urgente que essa mesma expertise, aliada a incentivos fiscais, apoios logísticos e políticas de captação, seja usada para viabilizar megaeventos de rock, pop e outros gêneros ao longo do ano inteiro.

A cultura baiana é gigante, mas não precisa ser uma ilha isolada. Democratizar o acesso a grandes espetáculos é entender que o soteropolitano também quer consumir o mundo. Abrir espaço e oferecer estrutura para que o rock e outros ritmos ecoem além do circuito underground não é ferir as nossas tradições, mas sim abraçar a diversidade de um público que ontem, com 40 mil vozes na Fonte Nova, provou que está sedento e pronto para lotar estádios.

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