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OSBA homenageia 80 anos de Belchior em concerto especial na Bahia

Espetáculo celebra os 80 anos do compositor cearense com clássicos da carreira

Manoela Santos*
Por Manoela Santos*
Maestro Carlos Prazeres durante o concerto Belchior Sinfônico
Maestro Carlos Prazeres durante o concerto Belchior Sinfônico - Foto: Caio Lírio

“Um encontro com um artista que continua absolutamente vivo no presente”. É assim que o maestro Carlos Prazeres descreve o concerto que homenageia os 80 anos de nascimento do cantor e compositor cearense Belchior. Intitulado Belchior Sinfônico, o espetáculo será apresentado em Salvador e Feira de Santana.

Inicialmente marcado apenas para sexta-feira, 23, às 20h, o concerto ganhou data extra nesta quinta-feira, 22, após esgotar a Sala Principal do Teatro Castro Alves (TCA). No sábado, 24, a apresentação será no Teatro da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

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O concerto propõe um mergulho no universo do compositor, reunindo canções a referências musicais, poéticas e literárias presentes em sua obra. No programa, clássicos como Mucuripe, Apenas um Rapaz Latino-Americano, A Palo Seco, Velha Roupa Colorida, Coração Selvagem e Paralelas, entre outras.

“Belchior é um artista nordestino que falou ao Brasil inteiro, sem jamais abrir mão de suas origens, de suas inquietações e de sua identidade. E existe algo muito bonito em uma orquestra sinfônica da Bahia celebrar essa voz tão singular do Ceará. É também uma maneira de afirmar a potência criativa do Nordeste e sua contribuição fundamental para a cultura brasileira”, afirma Prazeres.

Sensibilidade para transitar

Além da regência de Carlos Prazeres, o concerto contará com as participações do cantor e compositor João Cavalcanti e do músico, arranjador e sanfoneiro Marcelo Caldi. Segundo o maestro, os dois artistas compreendem profundamente a riqueza da música brasileira e possuem uma sensibilidade especial para transitar entre diferentes universos musicais.

Convidado por Prazeres, João Cavalcanti participa não apenas como intérprete, mas também é responsável pela concepção do roteiro e pelo desenvolvimento do repertório, construídos a partir de pesquisas sobre a obra de Belchior, entrevistas e referências do compositor. Os arranjos são do músico Tiago Pallone.

Para o maestro, João tem uma relação orgânica com a palavra, a interpretação e a tradição da canção. “E isso é fundamental quando falamos de Belchior, um compositor para quem a palavra tem uma força quase teatral. Não basta cantar suas melodias. É preciso compreender o que elas estão dizendo”, afirma.

Ao falar de Marcelo Caldi, Prazeres destaca sua imaginação musical e a capacidade de estabelecer pontes entre diferentes linguagens. “Sua musicalidade dialoga naturalmente com o universo sinfônico sem perder a espontaneidade e a pulsação da música popular”.

Prazeres também ressalta a interação entre Cavalcanti e Pallone durante a construção do concerto, destacando a combinação entre a criação musical e a interpretação da obra do compositor cearense. “Acreditem, este concerto é um concerto diferente de tudo! Tiago assina lindas composições enquanto João declama a urgente prosa de Belchior. É um dos encontros mais lindos que já vi”, afirma.

Desafios da homenagem

Um dos principais desafios de construir uma sonoridade sinfônica sem perder a identidade de Belchior está, segundo Prazeres, na maneira particular como o compositor cantava. Sua interpretação se aproximava de uma conversa ou de um discurso, lançando as palavras ao mundo e direcionando a atenção do ouvinte ao texto.

Apesar desse desafio, o maestro destaca a sensibilidade musical do artista e a riqueza de sua obra. “A linguagem sinfônica nos oferece uma paleta imensa de cores, texturas e intensidades. Podemos ampliar tensões, revelar delicadezas e criar novos ambientes sonoros. Mas tudo à serviço da canção”.

A proposta, explica, não é transformar Belchior em música clássica, mas encontrar sua obra em sua própria linguagem e estabelecer um diálogo com ela.

Obra que permanece atual

Nascido em Sobral, no Ceará, em 26 de outubro de 1946, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes completaria 80 anos em 2026. Autor de canções como Sujeito de Sorte e Como Nossos Pais, construiu uma obra marcada pela poesia e pelas inquietações de seu tempo, mas que continua dialogando com o presente. E é essa perspectiva que ajuda Prazeres a explicar a atualidade do compositor.

“O que mais me impressiona é a atualidade de sua inquietação. Ele fala de juventude, deslocamento, liberdade, conflitos geracionais, sonhos e frustrações. Mas, sobretudo, fala da coragem de aceitar o novo”.

O maestro relaciona essa permanência às incertezas e às transformações do presente. “Vivemos um tempo de muitas incertezas, de transformações aceleradas e de uma enorme necessidade de reencontrar nossa humanidade. Belchior continua sendo uma voz que nos provoca a pensar, a questionar e a sentir. Quisemos que o concerto preservasse justamente essa inquietação. Não se trata de uma homenagem nostálgica, mas de um encontro com um artista que continua absolutamente vivo”.

Diálogos musicais na Bahia

Para as apresentações na Bahia, o roteiro ganhou novos elementos, entre eles uma aproximação com a obra de Milton Nascimento, que também nasceu em 26 de outubro. Segundo João Cavalcanti, Belchior citou Milton em entrevistas, e a proposta é estabelecer um diálogo entre os dois compositores.

Levar o concerto a Feira de Santana, além de Salvador, também reafirma, segundo o maestro, o compromisso da Osba com a circulação da música sinfônica e a aproximação com novos públicos. “Uma orquestra sinfônica não pode ser entendida como uma instituição destinada a um único espaço ou um público específico. Ela é um patrimônio coletivo e precisa estar cada vez mais próxima das pessoas”, afirma.

Para o maestro, a força dessa obra está justamente na capacidade de continuar provocando reflexões, mesmo décadas depois de seu lançamento. “Talvez essa seja a maior beleza deste concerto: mostrar que, cinquenta anos depois de Alucinação, ainda somos atravessados pelas mesmas perguntas. E que a música continua sendo uma das maneiras mais poderosas de enfrentá-las”, conclui.

Concerto ‘Belchior Sinfônico – 80 anos’

Salvador

  • Quando: quinta (22) e sexta-feira (23, ESGOTADA)
  • Horário: 20h
  • Onde: Sala Principal do Teatro Castro Alves
  • Ingressos: entre R$ 30 e R$ 100
  • Vendas: Sympla

Feira de Santana

  • Quando: sábado (24)
  • Horário: 20h
  • Onde: Teatro da UEFS (Feira de Santana)
  • Preço de ingresso não divulgado

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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