EDITORIAL
A magia epidérmica
Como em feitiço encomendado a Hécate, deusa das sombras, o “branco” virou “pardo”


A coragem seria virtude, quando praticada para o bem, mas pode não se aplicar à iniciativa do candidato ao governo, ACM Neto, ao mostrar-se subitamente com a epiderme escurecida após processo inusitado de suposta metamorfose étnica capaz de alcançar a dimensão do fantástico.
Como em feitiço encomendado a Hécate, deusa das sombras, o “branco” virou “pardo”, tornando-se a um só tempo: tema de ridículo em alcance nacional; objeto de indignação de entidades pela justiça reparativa; e debandada de eleitores em veloz “vira-voto” para Jerônimo Rodrigues.
O tamanho desatino, em relação à fraude, é de perfeito flagrante, pois a mentira caracteriza-se por um autor do dolo e um enganado, mas no caso da surpreendente magia epidérmica, o tom de pele é suficiente materialidade do engodo, em óbvia confissão de culpa.
Admitindo tratar-se de “ex-branco”, ocorre o fenômeno de o enganador e o enganado serem a mesma pessoa, evidenciando a má-fé, com a ousada – e impossível – proposta de ilusão coletiva, uma vez nem mesmo o driblador poder ludibriar-se a si próprio.
Não seria a narrativa do caixeiro suficiente para persuadir o mundo, pois o aparelho percipiente da visão é dádiva da maioria, inviabilizando transferir a lorota para o venerável Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Combatente das cotas raciais, tática de mitigação da exclusão a direitos sociais básicos, o autodeclarado “neonegro” esqueceu-se de ter lutado contra demarcação de terras remanescentes dos quilombos, mas lembra hoje dos recursos do Fundo Eleitoral.
Mesmo se fosse autorizado pela melanina ou traços de rosto, o engano estaria impugnado devido ao sobrenome comandante da repressão aos movimentos de libertação dos baianos, com uso da força e da perseguição, embora nem o vovô tivesse adulterado a cor da pele.
Resta a opção de reduzir o efeito do Pecado e da Queda, ao admitir o sujeito o plano tortuoso, no entanto, seria preciso adquirir a Graça da humildade dos homens libertos da escravidão da torpeza de caráter.