OPINIÃO
Cambismo digital
Confira o Editorial desta quarta-feira


O absurdo do cambismo digital é uma prova eloquente da reprodução de comportamento criminoso consolidado no convívio presencial por décadas. Assim, tornou-se cada vez mais comum a formação de longas filas virtuais apenas para descobrir o óbvio: os ingressos esgotam-se em poucos minutos.
No passo seguinte, as entradas reaparecem em plataformas de revenda por preços superiores aos originais, como era praxe antes, na dimensão presencial. Essa prática cria concorrência desleal e transforma o acesso a shows, espetáculos e eventos culturais em privilégio de quem dispõe de mais recursos.
Resta provada, portanto, uma verdade: o avanço da tecnologia sem o proporcional desenvolvimento ético só agrava problemas de má conduta na sociedade brasileira. Por isso, a decisão do governo federal de criar novas regras para compra de ingressos representa avanço relevante na defesa dos consumidores e acesso à cultura.
As medidas anunciadas buscam aumentar a transparência das plataformas de venda e conferir mais equilíbrio na relação de empresas, organizadores e público. Ao exigir mecanismos de combate a robôs e compras automatizadas, as autoridades dão um passo importante visando ajustar potenciais desníveis entre os grupos sociais.
O ingresso deve chegar primeiro ao público interessado, e não a grupos de espertos lucrando com escassez artificial, obedecendo apenas a uma lei, a da economia. Ora, se a oferta cai a zero e a procura consiste em multidões, a disputa pelo bem – o bilhete – aumenta exponencialmente as cifras, configurando trapaça vil e covarde.
Outro aspecto positivo das novas regras é a divulgação antecipada de taxas e custos adicionais, fortalecendo o direito à informação para evitar surpresas no momento final do pagamento. A regulamentação exige informar sem sombra de dúvida quando o ingresso não é vendido pelo canal oficial: exibir o preço original dificulta as práticas abusivas. A tecnologia, por si, não faz o mundo melhor, depende necessariamente da boa vontade de quem a comanda.