EDITORIAL
Descuido ou ganância
Oferta de valiosos presentes a autoridades consiste em prática viciosa disseminada desde gestão por Lisboa


A oferta de valiosos presentes a autoridades consiste em prática viciosa disseminada desde a administração por Lisboa, gerando recente efeito nos rumores da retenção de joias por parte do casal Jair Bolsonaro e Michelle.
Não seguiu o par em vias de ser investigado, o bom conselho de refutar doações, quando ferem a impessoalidade, evitando nódoa na folha corrida; e mesmo na hipótese de uso pessoal, não se deve ignorar o trâmite.
A moderação tem como premissa a de embutir-se, na meiga atitude de presentear, interesses de agradar a quem se pede ação imune à normalidade ou devolver gratidão por missão cumprida.
Além do descuido, por má-fé ou deboche com a coisa pública (do latim “res publica”, origem da República), excederam-se os limites, na visita aos árabes em 2021.
O primeiro lote de bens (colar, anel, relógio e brincos), totalizando R$ 16,5 milhões, foi agrado da família Saud, no poder desde a criação da Arábia, em 1932, a ponto de transmitir o adjetivo derivado do seu sobrenome – Saudita.
A suspeição da conduta se constrói sobre fortes indícios, pois mensageiros buscaram tarde demais a suposta incorporação ao patrimônio, expirando oito tentativas, nos estertores do mandato, em 29 de dezembro.
Agiram com serenidade de príncipe etíope os auditores fiscais, acrescendo zelo de instruírem assessoria de baixo coturno enviada para desatar o nó górdio, afinal, prevalecente.
Amparados em perfil inamovível, rechaçaram ordens superiores, tomando como prumo, ao qual devem retidão, a norma vigente, ecoando da cidadania os mais calorosos aplausos.
A segunda leva de dengos (caneta, abotoaduras, anel e rosário diamantinos) jaz agora na mão do arrojado receptor, driblada a alfândega, em malocagem da comitiva do então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.
O advogado do ex-mandatário, em fidelidade canina, sugere inocência, porém a materialidade das provas e as pistas reproduzem a cena do crime, ao arrepio da lei – e a ninguém é dado desconhecê-la, muito menos um chefe de Estado.