OPINIÃO
Editorial - Charmosa e ambígua
Nesta cidade todo mundo tende a desenvolver a temperança no convívio, evoluindo para a fama de hospitaleira


Dizer-se brasileiro sem referir Salvador, senhora de 474 anos, é impossibilidade lógica, tal a participação da metrópole na identidade nacional, senão por ter sido a primeira capital, certamente por doar o maior sentido ao perfil de pátria livre.
Pode-se representar o celeiro cultural, político, artístico e esportivo como um manancial, tomando a ilustração de rio caudaloso, alternando as águas doces às salgadas do litoral atlântico.
Nesta cidade todo mundo tende a desenvolver a temperança no convívio, evoluindo para a fama de hospitaleira capaz de atrair visitantes apaixonados por suas curvas e ladeiras, durante todas as estações do ano.
A tal ponto dedicada mais à informalidade e ao trato dos bons relacionamentos, esta população obedece a suas origens misturadas ancestralmente de etnias indígenas, africanas, portuguesas, judias, ciganas, árabes e tantas outras.
Uma demonstração para fortalecer esta hipótese de um jeito de ser menos atrelado aos mandamentos e bitolas é o fato de até 1949 não fazer o soteropolitano a menor questão de determinar uma data de cantar parabéns.
Precisaram os cabeças-pensantes reunir-se no primeiro congresso de história para combinar o 29 de março como a “certa”, fixando-se, assim, a agenda por uma inventiva canonizada pelos produtores de conhecimento.
Mais afeito aos contatos de pele e famoso por promover a maior festa de rua do mundo – o Carnaval –, o povo conquista pelo afeto, nem sempre atento aos monumentos, como o de 7 metros de altura, na Praça da Sé, no qual se registra a efeméride dos 400 anos de fundação, marco zero para o bate-palmas.
Surpreendente e bela; muito diferente de todas quantas se possa visitar; ancestral e futurista; harmoniosa e bagunceira; eis aqui uma cidade especialíssima, por fazer de sua ambiguidade de Cidades Alta e Baixa, o charme irresistível.