OPINIÃO
Editorial - Só Allah é perfeito
É injustificável todo extremismo contra escritores e intelectuais, pois trabalham para estimular avanços

O conflito dos pontos de vista, considerando necessário o cotejar dos olhares distintos, sem os quais não há a produção de conhecimento, é sem dúvida, uma estratégia central no processo civilizatório.
Não se pode consentir com ataques corpóreos para decidir se a alguém pertence uma suposta certeza sobre este ou aquele tema do dia, como na dor e no sofrimento do escritor Salman Rushdie, atingido por facadas verdadeiras.
É injustificável todo extremismo contra escritores e intelectuais, pois o “cabeça-pensante” trabalha para estimular avanços das formas amenas de convívio, buscando virtudes primordiais, muitas vezes com sacrifícios da vida pessoal.
No episódio do autor de “Versos Satânicos” emerge a discussão sobre hermenêutica, disciplina da interpretação, sobre grandes religiões, quando governantes ou lideranças oportunistas falam em nome das divindades.
O atentado evidencia a grotesca leitura de texto tido como sagrado, alcançando o poder de uma “fatwa”, como se chama a decisão formal de autoridade supostamente baseada no islamismo, embora sem justificativa razoável.
A vítima está ameaçada de perder um olho e enfrenta disfunção no fígado, servindo-se o agressor dos golpes de pequena faca, ao supostamente cumprir ordem do governo do Irã, por intolerância à publicação de 1988.
O fundamentalismo irracional, quando não derrama o sangue dos inocentes, chega ao ridículo de alterar regras de futebol, como fez a Arábia Saudita, atrasando-se na prática esportiva em relação a outros países.
Uma destas deformações legais de origem fanática proibiu a demarcação do campo e a escalação de 11 jogadores, podendo ser maior ou menor este número, além de impor um ou três tempos, em vez dos dois convencionais.
O delírio obsessivo de diferenciar-se dos “infiéis ocidentais” termina por arranhar imagem de religião cheia de lições de amor e união: como lê-se no próprio Al-corão, “só Allah é perfeito”, mas nem por isso, justifica aos imperfeitos seguidores ordenar o sangramento de um homem de letras.