OPINIÃO
O Enem e os outros caminhos

Seria preciso má vontade em demasia para negar o potencial de inclusão social pela educação do trinômio Enem-Prouni-Cotas. Os números atestam: já temos mais de um milhão de estudantes pobres (e em maioria estupenda afrodescendentes) cursando o ensino superior nesses últimos dez anos. Importante: gente que, outrora, jamais poderia sonhar em passar na porta de uma universidade! Mas ainda é pouco. E se levarmos em conta a qualidade de vários cursos das instituições privadas, a dívida cresce exponencialmente.
No recentíssimo Sisu, ao olharmos os dez cursos mais disputados entre as 101 universidades públicas que adotam o Enem, notamos que a nota de corte beirou os 750 pontos. Sinal de que só alunos preparadíssimos no ensino médio da rede particular - com cursinhos de reforço - têm cacife para disputar.
Os da rede pública ainda terão que "comer muita farinha" para entrar nesse páreo, repetindo, no plano nacional, o que já ocorria nos vestibulares dos seus estados. Resumo da ópera: com tamanha democratização das oportunidades, ainda é grande o abismo construído por séculos de exclusão.
Aí me lembro do que vi em Santo Amaro há dois meses: estudantes do turno noturno - antes desmotivados e à beira da evasão - com olhos fixos na aula, participando com vigor, empenhados seriamente em aprender. Era uma aula do Pronatec, programa que os habilita para uma profissão, ainda no ensino médio, e que pode ser uma boa porta de saída da pobreza e para voos mais altos.
Capitaneados pelo Senai, em ação direta ou em parceria com a SEC, os cursos do Pronatec vêm-se tornando uma "febre abençoada" entre estudantes da rede pública. Lembro ainda que, além desse programa, temos os "Centros de Estudos Profissionalizantes" implantados pela própria SEC e os IFs (antiga Escola Técnica), hoje espalhados por todo o território nacional.
Acho que precisamos agora de um forte processo de comunicação até que se forme uma "cultura do desejo", como foi feito com os vestibulares clássicos até aqui. E o Brasil precisa desesperadamente desse novo "estudante do século 21".
Jorge Portugal escreve no jornal A TARDE quinzenalmente, às terças.