OPINIÃO
Prestação de contas
Confira o Editorial desta terça-feira


A COP17 da Biodiversidade, na Arménia, é o momento de prestação de contas no qual a espécie humana terá de assumir sua dívida consigo mesma. Mais de 200 países assinaram em 2022 o Marco Global de Kunming-Montreal com 23 metas para salvar a natureza.
Prometeram os chefes de Estado proteger campos e mares; parques e rios; montes e vales; mas o que consta no contrato revelou-se balela. No ritmo atual, chegaremos a 2030 com 26% dos ecossistemas terrestres e 12% dos marinhos protegidos. Vamos falhar: o egoísmo vencerá.
Movidas a vontade de viver, paradoxalmente as pessoas se perdem em conflitos mortais por poder e glória; nações ambicionam riquezas rumo ao nada. Perde-se a noção de causa e efeito: a essência competitiva disputa a origem dos males com o modelo económico exterminador da biodiversidade, gerando a fome.
Como agravante, à parte o debate se há dialética da natureza, vai-se banalizando a injustiça climática, verificada em catástrofes registradas em regiões não-poluentes. O aditivo irracional eleva a taxa de leniência, ao custo atualizado de 25 trilhões de dólares anuais para assistência e obras emergenciais em situações evitáveis.
Quem paga a conta são os países megadiversos, como é o caso do Brasil, ao beneficiar o mundo inteiro, mesmo sem financiamento, tecnologia e cooperação. O país chega à Arménia com uma proposta estratégica: a conectividade ecológica. Criar ilhas de conservação isoladas é pouco; temos de saber articular.
É preciso ligar essas áreas com corredores verdes e azuis, terrestres, fluviais e marinhos. Tecer esta rede é a chance de garantir a sobrevivência das espécies. O canto da sereia repete-se, enfeitiçando os sujeitos da COP17, esquecidos de tapar os ouvidos com a cera da consciência, no simpósio de promessas encantadoras.
Deste descompasso entre intenção e ato vem o invencível pessimismo a anunciar os últimos suspiros, exceto se o sofrimento crescente provocar a mudança necessária.