OPINIÃO
Salvador de ontem e de hoje

Com que prazer contemplamos Salvador com um novo visual, realçando-lhe melhor a beleza topográfica e urbanística, mercê das novas obras de melhoramento.
Nosso prazer com essa nova vestimenta da cidade se faz tão justo quão justa seria nossa alegria se a Salvador de hoje respirasse a mesma cultura de ontem, como a liberdade de ir e vir, em meio à tranquilidade de que nos falam algumas décadas passadas, livres de assaltos e de outros atos de violência, com os quais, lamentavelmente, estamos convivendo no nosso dia a dia.
Quem não se lembra da despreocupação com que os jovens, muitos dos quais adolescentes, deixavam, nas madrugadas frias, as festinhas em casas de família ou mesmo nos clubes sociais, em direção às suas casas, ali chegando em absoluta segurança?
As noites eram guardiãs dessa tranquilidade, como também a caixa de segredos dos notívagos – os famosos boêmios – frequentadores do Tabaris, do Anjo Azul e de outras casas noturnas, dentre as quais, como esquecer da Boate Clok, xodó dos namorados e de célebres dançarinos, casas noturnas que faziam em festa as noites soteropolitanas, embora não menos prazerosas fossem as horas do dia, a nos fazer reviver o cair das tardes na Rua Chile, onde e quando os amigos e a intelectualidade baiana, em reuniões de confraternização, se reencontravam.
A Rua Chile, por sinal, era o cartão-postal da cidade, com todo o seu glamour, funcionando como passarela para desfile de belas jovens e senhoras, com seu impecável vestir, quando não com chapéus e luvas, impregnando-lhe o ar com fragrâncias francesas, daí por que muitos que viveram tão inesquecíveis momentos não deixarão de tê-los presentes em suas boas reminiscências.
Era ali que, para lhe dar mais vida, enriquecendo-lhe a história, ficava a loja Duas Américas, orgulhosa de sua primeira escada rolante da cidade, como um dos acessos à badalada Casa de Chá, frequentada pela sociedade em suas diversas idades.
Outros endereços vamos encontrar na Rua Chile, como o atual Palace Hotel, com sua beleza arquitetônica e testemunha de quantas histórias interessantes –, a Livraria Civilização Brasileira, o Adamastor, a Casa da Música, a Sloper, em frente da qual se postava a Mulher de Roxo, guardando para si os misteriosos segredos de sua vida, a Farmácia Chile e adjacências, como o Café das Meninas, a Cubana, a Imprensa Oficial, a Biblioteca Pública, a Pastelaria Triunfo e a Padaria Elétrica, vizinha do fim de linha do Bonde da Liberdade.
Quão bom se pudéssemos, ao término desse resgate, contemplar, fundidas numa só, as duas Salvador: a de ontem e a de hoje.