OPINIÃO
Verdade e memória
Confira o editorial do jornal A TARDE desta quinta-feira


O Brasil tem uma nova oportunidade, neste 2 de Julho, de ensinar a quem aprender queira, a intimidade dos conceitos de “verdade” e de “memória”. A ação honesta do lembrar é também um gesto verdadeiro: a independência deu-se aqui, em Cabrito e Pirajá, unindo-se tropas civis em fervor patriótico.
Por mais altissonantes, como insistem narrativas oficiais, teriam sido os decibéis do grito de D. Pedro I insuficientes para pôr em fuga os portugueses. O desejo de seguir sugando as riquezas do território invadido em 1500 manteve as garras de Lisboa bem fincadas, exigindo a força do povo baiano.
Se o Riacho do Ypiranga foi berço, não teria resistido o país recém-nascido ao verdugo lisboeta, de onde advém o DNA daqueles que pegaram em armas. Cachoeira, Santo Amaro da Purificação, ilhas de Itaparica e Bom Jesus dos Passos, Maragogipe, entre outras, deram vidas pelo país há 203 anos.
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Tão admirável quanto difícil de convencer quem se recusa a confiar na verdade e na memória via trabalho de pesquisa é o arsenal improvisado na terra e no mar. A vontade – esta mobilizadora dos afetos – era de tal sorte gigantesca a ponto de se utilizar como “armas” atributos assimilados ao perfil imortal da Bahia.
A criatividade e a coragem viabilizaram facas, plantas urticantes, saveiros armados de canhoneiras simples e bem-sucedidas emboscadas femininas. Não bastasse a alta improbabilidade de êxito, a guerra oferecida por baianas e baianos teve a sorte e a fé a seu favor, bem ilustrada no epílogo de Lopes.
Foi este corneteiro a ecoar o último acorde quando em vez de tocar “recuar”, emitiu a ordem sonora de “avançar e degolar”, sacramentando o triunfo. Por tudo isso, juntando-se a heroica campanha pela liberdade às circunstâncias peculiares de sua realização, resta atualizar nossa ementa.
Em nome da verdade e da memória, é preciso ensinar a história como de fato foi: sem a criatividade e a coragem da Bahia, não haveria a gigante Nação. O que se espera do Brasil é gratidão, “muito obrigado, Bahia, e desculpe a demora em reconhecer seu inegável protagonismo”.


