POLÍCIA
Crack, destruição e ameaças: prédios abandonados tiram a paz de moradores no Itaigara
Estruturas abandonadas se transformaram em ponto de consumo de drogas, furtos e depredação


O abandono de dois imóveis na Rua Almeida Garret, no Itaigara, um dos bairros mais valorizados de Salvador, tem transformado a rotina de moradores em um cenário marcado pelo medo, pela insegurança e pela degradação. O que antes eram edifícios completos hoje se resume a estruturas devastadas, alvo constante da ação de usuários de drogas que, segundo relatos da vizinhança, retiraram praticamente tudo o que poderia ser vendido para sustentar o consumo de crack.
Portas, janelas, esquadrias de alumínio, fiação elétrica, tubulações e até quadros de energia desapareceram ao longo dos últimos meses. O interior dos imóveis foi reduzido a um amontoado de entulho, paredes destruídas e instalações completamente comprometidas. Além da depredação, moradores afirmam conviver diariamente com ameaças, barulho durante o dia e a madrugada, consumo de drogas em via pública e condições precárias de higiene provocadas pela ocupação irregular dos prédios.
Quem passa pela rua encontra um cenário de destruição que contrasta com o padrão urbano do Itaigara. Os imóveis, completamente abertos após terem portas e janelas arrancadas, facilitam o acesso de invasores a qualquer hora do dia.

Noites sem tranquilidade e rotina de medo
Um trabalhador de um edifício vizinho, que preferiu não se identificar por receio de represálias, afirma que a situação se agravou nos últimos meses e já provoca prejuízos a imóveis próximos.
"Aqui está sendo um transtorno total, porque os moradores ficam com medo. Esses prédios estavam todos completos e esses indivíduos chegaram e arrancaram tudo: portas, janelas, fiação. Já causaram infiltração no edifício ao lado, porque eles detonaram a tubulação, causando um vazamento. Esse outro aqui do lado eles já adentraram e levaram tudo, essa semana mesmo. Até o quadro de luz eles arrancaram da parede."
Segundo ele, o medo alterou até mesmo hábitos simples da vizinhança.
"A moradora ficou com medo porque eles estavam aqui. Precisou atravessar com o cachorro, com medo de passar por aqui e ser assaltada. Sabemos que usuários de drogas, geralmente, quando estão no uso do crack, perdem totalmente a noção, e isso é o que está acontecendo."
O trabalhador afirma ainda que as forças de segurança são acionadas com frequência, mas o problema rapidamente retorna.
"A gente liga para a polícia, os agentes se deslocam para cá, mas, infelizmente, também não podem fazer muita coisa. Quando os policiais acabam saindo, os usuários voltam para o local para fazer essas ações."
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A movimentação dentro dos imóveis abandonados acontece praticamente sem interrupção, segundo os relatos.
"É o tempo todo aqui, eles batendo coisas, quebrando algo, arrancando algo, fazendo zoada o tempo todo."
"Nas madrugadas, aqui a rua é deserta. Eles entram no prédio, começam a arrancar coisas, a quebrar coisas, tudo em prol do crack."
Ameaças e preocupação com a saúde
Morador de um edifício localizado em frente aos imóveis abandonados, Sergio Luis conta que a sensação é de que os moradores perderam o controle sobre a própria rua.
"Aqui está insuportável. Eu sou morador há 10 anos daqui. Devido a essas duas casas abandonadas, ficamos reféns desses drogados, saqueadores, fazendo baderna noite e dia, fumando maconha a qualquer hora do dia e deixando o local a desejar."
Ele afirma que o receio aumenta durante a noite e nos fins de semana, quando o movimento na região diminui.
"A gente fica com medo de ser assaltado, principalmente quando precisa chegar mais tarde à noite."
"O que acontece também é que, no final de semana, a rua é deserta e a gente fica à mercê desses usuários de drogas."
Além da insegurança, Sergio relata episódios de intimidação contra trabalhadores e moradores que tentaram impedir as invasões.
"Por isso, a gente pede às autoridades para que vejam essa situação. A gente mora aqui, paga nossos impostos e está tendo que sofrer ameaças de saqueadores. Qualquer coisa que a gente fale, eles querem atacar a gente. Por sinal, uma vez o porteiro foi falar com um deles e eles disseram que voltariam para matar o trabalhador."
"Quer dizer, é um absurdo uma coisa dessa. É inadmissível essa situação que passamos na Rua Almeida Garret."
Outro problema apontado pelo morador é o risco à saúde pública provocado pelo abandono dos imóveis.
"E tem mais, nós estamos sofrendo com o mosquito da dengue. Da altura do andar em que eu moro, consigo ver que a água fica empoçada e parada. Existe um tanque aberto, cheio de água. Já temos um bom tempo passando por essa situação."
Problema já se repetiu em outro bairro nobre
A situação registrada no Itaigara lembra o que ocorreu recentemente com a antiga sede dos Correios, na Avenida Paulo VI, na Pituba. Após anos de abandono, o prédio passou a ser invadido constantemente por criminosos interessados em retirar alumínio, cobre e outros materiais com valor comercial.
Moradores e comerciantes da região relataram, à época, aumento das invasões, da sensação de insegurança e dos prejuízos provocados pela degradação do imóvel. Desativado desde 2018, o complexo permaneceu sem utilização por anos e passou por mais de 20 tentativas frustradas de venda.

O cenário começou a mudar apenas neste ano, quando o imóvel foi arrematado por R$ 97,7 milhões pela construtora Moura Dubeux, que anunciou a implantação de um empreendimento imobiliário no terreno de aproximadamente 35 mil metros quadrados.
Enquanto a antiga estrutura dos Correios caminha para ganhar um novo destino, moradores da Rua Almeida Garret esperam que uma solução semelhante seja adotada para os imóveis abandonados do Itaigara. A expectativa é de que o poder público e os responsáveis pelas edificações adotem medidas capazes de impedir novas invasões e devolver a tranquilidade a uma rua que, hoje, vive cercada pelo medo e pela destruição.


