Por muitos anos, a metanfetamina foi tratada no Brasil quase como uma droga “estrangeira”. Diferente da maconha, da cocaína e do crack, historicamente mais presentes nas estatísticas policiais e nos debates sobre dependência química no país, a chamada “meth” ocupava um espaço distante do cotidiano brasileiro.
Mesmo entre drogas sintéticas consumidas em festas e ambientes de maior poder aquisitivo, substâncias como ecstasy, LSD e MDMA sempre tiveram muito mais presença do que a metanfetamina. A imagem da droga estava muito mais ligada ao colapso social visto nos Estados Unidos e à cultura pop americana do que às ruas brasileiras.
Boa parte dessa percepção foi construída pela série Breaking Bad, que transformou a metanfetamina cristalizada em um dos símbolos da produção audiovisual sobre o narcotráfico. A produção acompanha a trajetória de um professor de química que passa a fabricar a droga em laboratórios clandestinos, produzindo um cristal azul de alta pureza que movimenta um império criminoso. A série se tornou um fenômeno mundial, atualmente disponível na Netflix, e também chegou ao público brasileiro por meio de transmissões na TV aberta pela Record TV
Durante muito tempo, aquilo parecia apenas entretenimento para o público brasileiro. Mas o cenário começou a mudar.
A produção nacional mudou o mercado da droga
Nos últimos anos, investigadores passaram a identificar uma transformação silenciosa no tráfico brasileiro: a metanfetamina deixou de ser apenas importada e começou a ser produzida em território nacional.
O impacto foi imediato. Com laboratórios funcionando no país, o preço da droga despencou. O que antes circulava em pequenas quantidades e era vendido por valores muito altos passou a ficar mais acessível dentro de determinados grupos urbanos.
Segundo investigações policiais, organizações criminosas passaram a buscar especialistas capazes de reproduzir fórmulas químicas utilizadas no exterior. A intenção era simples: reduzir custos, acelerar a distribuição e ampliar o consumo.
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Esse processo de “nacionalização” da metanfetamina chamou atenção principalmente em São Paulo, onde se concentram as maiores apreensões e investigações relacionadas à droga.
O laboratório clandestino descoberto em São Paulo
A descoberta de um dos principais esquemas aconteceu durante uma investigação que inicialmente não tinha relação direta com drogas sintéticas.
Em 2024, a Polícia Civil começou a apurar denúncias envolvendo tráfico humano na capital paulista. A investigação levou agentes até um apartamento na região da Aclimação, onde funcionava um laboratório clandestino de metanfetamina.
No imóvel, policiais encontraram fórmulas escritas em chinês, instruções desenhadas à mão, produtos químicos e materiais usados na fabricação da droga. O apartamento teria recebido um fluxo intenso de pessoas em poucos meses, funcionando como ponto de produção e distribuição.

As investigações apontaram a participação de grupos formados por chineses, mexicanos, nigerianos, dominicanos e brasileiros. Segundo a polícia, apesar de atuarem em núcleos diferentes, os criminosos mantinham relações comerciais entre si e integravam uma mesma cadeia de tráfico.
O “Heisenberg” brasileiro
Entre os nomes investigados, um dos que mais chamou atenção das autoridades foi o do mexicano Guillermo Fabian Martinez Ortiz, apontado como responsável por ensinar técnicas de fabricação da droga.
Formado em engenharia química e com histórico profissional ligado ao setor petrolífero, ele teria usado conhecimentos técnicos para estruturar laboratórios clandestinos no Brasil. O apelido dado a ele por investigadores, “o Cozinheiro” acabou inevitavelmente remetendo ao personagem principal de Breaking Bad.
Segundo a polícia, Ortiz ajudou a reduzir drasticamente os custos de produção da metanfetamina no Brasil, permitindo que a droga chegasse ao mercado por preços muito menores do que os praticados anteriormente.
Com o barateamento, o receio das autoridades passou a ser o aumento acelerado do consumo.
Alta preocupante
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, as apreensões de metanfetamina pela polícia paulista cresceram ano após ano. Em 2022, foram apreendidos 101 gramas da droga. Em 2023, o número saltou para 816 gramas. Já em 2024, as apreensões chegaram a 2.370 gramas e, em 2025, alcançaram 3.880 gramas, um crescimento de 3.741% no período.

Números mais recentes já indicam uma expansão do problema
Apesar de ainda distante das quantidades de cocaína e maconha retiradas de circulação, investigadores alertam que a comparação direta pode ser enganosa.
Isso porque a metanfetamina possui um padrão de consumo diferente. Pequenas quantidades já são suficientes para provocar efeitos intensos e prolongados, o que torna a droga altamente lucrativa para organizações criminosas.
Além da Aclimação, outros pontos ligados à produção e armazenamento foram encontrados em regiões centrais da capital paulista, incluindo imóveis próximos à Avenida do Estado e à Avenida São João.
O que é a metanfetamina?
A metanfetamina é uma droga sintética estimulante que atua diretamente sobre o sistema nervoso central. Em versões farmacêuticas controladas, pode ser utilizada para tratar alguns casos específicos de obesidade severa e transtornos de atenção, mas o produto vendido ilegalmente é fabricado sem qualquer controle sanitário.

A substância costuma aparecer em forma de cristais, pó ou comprimidos e pode ser fumada, inalada, ingerida ou injetada. Nas ruas, também é conhecida por nomes como “Cristal”, “Vidro” e “Mina”.
Os efeitos iniciais incluem sensação intensa de energia, euforia, estado de alerta prolongado e redução do sono e do apetite. O problema é que esses efeitos vêm acompanhados de riscos severos ao organismo.
Entre os principais impactos estão aumento da pressão arterial, aceleração cardíaca, ansiedade extrema, paranoia, comportamento agressivo e episódios psicóticos. Em doses elevadas, a droga pode provocar convulsões, AVC, infarto e falência múltipla de órgãos.
Outro fator que preocupa especialistas é o potencial de dependência. A metanfetamina é considerada uma das drogas mais viciantes do mundo.
A crise americana e o alerta para o Brasil
Nos Estados Unidos, a metanfetamina se tornou um dos principais elementos da crise de drogas que afeta o país há décadas.
O aumento da pureza da substância e a expansão da produção clandestina contribuíram para elevar os índices de dependência química, internações psiquiátricas, overdoses e mortes relacionadas ao consumo de drogas estimulantes.
Em diversas cidades americanas, a droga passou a ser associada ao crescimento da população em situação de rua, surtos de violência e colapso de serviços públicos de saúde mental.
Especialistas brasileiros observam o avanço da produção nacional com preocupação justamente porque o país já enfrenta dificuldades históricas no combate ao tráfico e no tratamento da dependência química.
O temor é que a metanfetamina represente uma nova etapa da crise das drogas no Brasil — mais barata, mais acessível e potencialmente mais destrutiva.
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