CASO THAILA
Sinal de celular de adolescente ajuda polícia a localizar suspeito no Rio de Janeiro
Homem estava escondido na casa do pai desde dezembro do ano passado


“A prisão dele nos trouxe um misto de sentimentos: felizes pela prisão, mas tristes pelo momento mais temido que nossa família vai ter que passar nos próximos dias. Porque uma coisa é saber que ela está desaparecida; outra é confirmar que ele a matou”.
Foi assim que uma familiar de Thaila Cruz Lima, de 17 anos, descreveu o sentimento ao ficar sabendo da prisão de Uilson Junior Batista Souza, 25, o China.
O homem, apontado pela Polícia Civil da Bahia como o responsável pela morte da adolescente, em novembro de 2025, foi preso na manhã desta quinta-feira, 21, no bairro Bosque Azul, na cidade de Macaé, no Rio de Janeiro.

Em conversa exclusiva com o portal A TARDE, o delegado Marcos Laranjeira, titular da 20ª Delegacia Territorial de Candeias, revelou que China foi localizado após os sinais dos celulares dele e de Thaila serem rastreados por meio de Estações Rádio-Base (ERBs) - antena que conecta o celular à rede da operadora.
“Chegamos ao suspeito após trabalho de inteligência. O Departamento de Inteligência conseguiu rastrear sinais telefônicos da vítima e do investigado, identificando que ele estava em Macaé, no Rio de Janeiro. A Polícia Civil fluminense realizou um trabalho de campana e conseguiu localizá-lo na residência do pai”, afirmou o delegado.

Ainda conforme Laranjeira, China estava escondido desde dezembro de 2025. "Após prestar depoimento, inicialmente como namorado da vítima, ele fugiu para o Rio de Janeiro, quando percebeu o avanço das investigações e o surgimento de suspeitas contra ele", revelou o titular. Na época, ainda não havia mandado de prisão em aberto contra ele.
A reportagem também conversou com exclusividade com o delegado Itallo Bruno Melo, titular da Delegacia de São Francisco do Conde e responsável por iniciar as investigações e solicitar a prisão preventiva do suspeito.
"Um dos pontos considerados cruciais para o avanço do caso foi a descoberta de que o aparelho celular da vítima continuou sendo utilizado após o desaparecimento. Durante a investigação, os policiais identificaram que uma linha telefônica vinculada ao núcleo familiar do investigado teria sido inserida no dispositivo da adolescente", explicou Melo.
Relação afetiva, facções e motivação do crime
De acordo com o delegado Marcos Laranjeira, China, que é integrante da facção Comando Vermelho (CV) e mantinha um relacionamento afetivo com Thaila, teria descoberto que a adolescente também estaria se envolvendo com um homem ligado ao Bonde do Maluco (BDM), um grupo criminoso rival.
Ainda conforme o delegado, uma publicação nas redes sociais mostrando Thaila fazendo um gesto associado ao BDM teria aumentado a revolta do suspeito.
“Ele interpretou isso como uma dupla traição: afetiva e ligada à rivalidade entre facções. Movido por esse ódio, China procurou integrantes do Comando Vermelho com liderança superior à dele. Há indicativos de que recebeu autorização da facção para executar Thaila”, revelou Laranjeira.
"Nossa expectativa é localizar informações que indiquem onde o corpo foi ocultado. Até o momento, ele não revelou o paradeiro do corpo durante os interrogatórios realizados no Rio. Estamos trabalhando com a possibilidade de encontrar elementos nos aparelhos celulares que levem ao local onde o cadáver foi enterrado", completou o titular.
"Espero que a justiça seja cumprida com todo rigor e que ele seja condenado à pena máxima. Por mais que ela tenha feito escolhas erradas, não é justificável tamanha crueldade,digo isso porque imaginamos o sofrimento ao qual ela foi submetida e isso é muito doloroso", lamentou a familiar de Thaila, sob anonimato.
Investigações
"Hoje realizamos duas incursões em áreas distintas de Candeias, inclusive, em um imóvel ligado a parentes do suspeito, mas ainda não conseguimos localizar o corpo. Havia marcas antigas de sangue em paredes do imóvel, mas sem elementos suficientes para coleta pericial conclusiva", disse o delegado ao explicar o andamento das investigações.
Laranjeira revelou ainda que China permanece preso no Rio de Janeiro e deve ser transferido para Salvador nos próximos dias.
"Agora, aguardamos os trâmites judiciais no Rio de Janeiro para a transferência do preso à Bahia. Ele ainda passará por audiência de custódia amanhã [nesta sexta-feira, 22] e, quando chegar aqui, será novamente interrogado", contou o titular.
"Queremos esclarecer se houve participação de outras pessoas no crime. Até o momento, os elementos do inquérito apontam apenas para ele, mas continuaremos investigando. Todo o conjunto probatório reunido - depoimentos, extração de dados telefônicos e testemunhos - aponta, sem dúvidas, para a autoria do crime”, declarou Laranjeira.
Por fim, o delegado afirmou que o inquérito já foi concluído, a denúncia foi apresentada pelo Ministério Público e recebida pela Justiça. "Ele deve responder por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver em concurso material", concluiu o delegado.
A prisão foi realizada em ação conjunta entre equipes da 20ª Delegacia Territorial de Candeias, do Departamento de Polícia Metropolitana (Depom) e da 123ª Delegacia de Polícia de Macaé.
Desaparecimento e homicídio
O caso começou a ser investigado no fim de novembro do ano passado, quando Thaila desapareceu, no dia 28 de novembro, após sair do distrito de Caípe, em São Francisco do Conde, para encontrar China, em Candeias. As duas cidades ficam na Região Metropolitana de Salvador (RMS).
Antes de desaparecer, a adolescente enviou uma mensagem para uma amiga dizendo: “deu red! kkk, tô em um lugar que nem sei onde é, estou perdida”. Na linguagem usada por jovens nas redes sociais, “deu red” significa que algo deu errado.
Foi a mãe dela, Iris da Silva Lima, que na época do desaparecimento da filha, revelou o teor da mensagem durante entrevista exclusiva ao A TARDE. A senhora também contou que a filha havia saído de casa, por volta das 19h daquele dia, e embarcado em um carro por aplicativo com destino a Candeias.
As investigações iniciais conduzidas pelo delegado Ítalo Bruno apontaram que Thaila desembarcou no bairro Dom Avelar, em Candeias, onde China já a aguardava.
“O encontro ocorreu no bairro Dom Avelar, uma área dominada pelo Comando Vermelho. Assim que saiu do presídio, China entrou em contato com Thaila e a atraiu até o local para executá-la. Ela não imaginava que seria assassinada”, declarou o delegado Marcos Laranjeira.
Segundo o delegado, China estava preso cumprindo pena por tráfico de drogas.
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“Ela era apenas uma menina de 17 anos”
Ao portal A TARDE a parente de Thaila falou sobre a esperança de poder dar um enterro digno à adolescente:
"O meu sentimento, assim como o de toda família, é de alívio por saber que poderemos dar um enterro digno para Thaila, pois, desde o início, mesmo tendo fé, já sabíamos que as chances de encontrá-la com vida era mínima. Nos despedir dela será uma forma de amenizar o sofrimento e a angústia que estamos vivendo", desabafou a mulher, sob anonimato.
"Ela era apenas uma menina de 17 anos, que fez escolhas erradas, mas ainda assim era uma jovem cheia de sonhos e, como a maioria dos jovens, não teve medo ou noção das consequências", finalizou a parente.





