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Bahia se prepara para aplicar nova lei da tornozeleira eletrônica
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Bahia se prepara para aplicar nova lei da tornozeleira eletrônica - Foto José Simões /Ag A TARDE

TECNOLOGIA

Tornozeleira obrigatória: Bahia busca frear feminicídios com nova lei

Com 27 feminicídios registrados em 2026, nova legislação federal torna obrigatório o uso de monitoramento eletrônico para agressores

Madson Souza
Por Madson Souza

A nova lei que determina o uso de tornozeleira eletrônica para agressores que colocarem em risco a vida de mulheres e crianças em casos de violência doméstica é celebrada, mas especialistas da área jurídica e pesquisadoras de gênero destacam desafios na aplicação.

Número de tornozeleiras disponíveis, custos e capacidade de monitoramento são pontos questionados, enquanto maior segurança para vítimas e aumento da confiança para denunciar são avanços da medida.

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Estatísticas de feminicídio na Bahia

Já foram registrados 27 casos de feminicídio na Bahia neste ano — até 12 de abril, de acordo com a Polícia Civil. Em todo ano de 2025 foram 102 ocorrências do tipo no estado.

As tornozeleiras já estão dentro deste cenário do combate à violência contra a mulher, porém o monitoramento eletrônico era visto como opcional na Lei Maria da Penha. O que traz a nova legislação (Lei 15.383, de 2026), sancionada na última sexta, pelo presidente Lula, é a obrigatoriedade dos equipamentos nos casos considerados de risco.

Capacidade de monitoramento e vagas

Ao todo, hoje são 454 agressores com tornozeleira por conta de violência doméstica no Estado, enquanto 219 mulheres utilizam a Unidade Portátil de Rastreamento (UPR), mais conhecida como botão do pânico.

Ainda existem 300 vagas de equipamentos disponíveis para esses crimes, conforme informações da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap). Até o fechamento desta reportagem, a pasta não respondeu sobre a capacidade técnica do Estado de aplicar a nova norma.

O principal desafio será o custo. A tornozeleira exige um sistema de monitoração eficaz.
Thaís Bandeira, advogada criminalista e professora de direito penal da Universidade Federal da Bahia (Ufba)

Geolocalização e segurança da vítima

Para a advogada criminalista e professora de direito penal da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Thaís Bandeira, a medida traz uma segurança maior às mulheres. Na prática, o sistema de geolocalização identifica o quão próximo o agressor está da vítima e emite um alerta para ela e para as autoridades com intuito de que sejam tomadas as medidas cabíveis quando há necessidade.

“O principal desafio será o custo. A tornozeleira exige um sistema de monitoração eficaz. Não será em qualquer caso de protetiva que ela será utilizada. Somente em casos extremos, de risco à integridade física ou à vida da mulher”, comenta.

Recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública

O impeditivo para uma larga aplicação da lei é o número de tornozeleiras disponíveis, de acordo com a desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) e presidente da Coordenadoria da Mulher no órgão, Nágila Brito.

A própria Lei determina um aumento de 5% para 6% na cota do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) com objetivo de serem direcionados ao combate à violência contra mulher. A compra de tornozeleiras eletrônicas é favorecida.

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“Temos que ver como vai se preparar as mulheres para utilizar o ‘botão do pânico’ e como vai ser feito o monitoramento eletrônico no interior”, indica Nágila. Ela destaca ainda que a medida traz maior segurança e conforto para mulheres porque elas mesmas vão poder monitorar sua segurança.

“Ela vai saber quando ele estiver se aproximando e poder fugir, procurar ajuda. Não ficar insegura o tempo todo sem saber onde ele está. Inclusive tem mulheres que dizem que voltaram a viver depois do uso. Esperamos que a medida traga tranquilidade para as mulheres”, afirma a desembargadora.

Aumento nas denúncias ao Ministério Público

Entre março de 2025 e março de 2026, o Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA) realizou 247 denúncias criminais de feminicídios. Neste mesmo recorte, foram denunciados mais de 10 mil casos de violência doméstica à Justiça — quase duas mil denúncias a mais em comparação com o período de março de 2024 para o mesmo mês de 2025.

A maior parte das vítimas é mulher. Com relação a medidas protetivas, o MPBA se manifestou em 27.916 pedidos de março de 2025 a 2026.

Confiança institucional e impactos sociais

Diante deste cenário, um dos impactos mais diretos da nova Lei pode ser o aumento da confiança das mulheres nos sistemas de proteção, ressalta a doutora em estudos sobre gênero, mulheres e feminismo da UFBA, Amanda Alves.

“Ainda há muita desconfiança em relação às instituições quando pensamos em fazer denúncia sobre violência. Muitas mulheres não conseguem acessar as leis e equipamentos por causa dessa desconfiança. O uso da tornozeleira vem para casos mais específicos, mas acho que é sim um reforço para mulheres tentarem confiar um pouco mais”.

Ainda há muita desconfiança em relação às instituições quando pensamos em fazer denúncia sobre violência.
Amanda Alves, doutora em estudos sobre gênero, mulheres e feminismo da UFBA

A pesquisadora destaca ainda que é preciso uma maior divulgação oficial sobre essas leis e os equipamentos disponíveis para proteção de mulheres. Já a coordenadora da Casa Marielle Franco, Sandra Munoz, avalia que a obrigatoriedade do uso de tornozeleiras representa um avanço tardio, mas ainda insuficiente para garantir a segurança das vítimas.

Ela também destaca que a falta de confiança nas instituições ainda é um entrave para denúncias, uma vez que muitas vítimas já possuíam medidas protetivas e, ainda assim, foram alvo de agressões.

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Tags:

feminicídio segurança pública violência

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