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Alianças sem princípio ideológico desmoralizam o PT

Publicado segunda-feira, 02 de setembro de 2013 às 09:22 h | Atualizado em 02/09/2013, 09:39 | Autor: João Pedro Pitombo
Paul Singer: Alianças sem princípio ideológico desmoralizam o PT - Entrevista
Paul Singer: Alianças sem princípio ideológico desmoralizam o PT - Entrevista -
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Aos 81 anos, o economista Paul Singer tem a energia de um menino. Ocupando desde 2003 o posto de secretário nacional de Economia Solidária, do Ministério do Trabalho, ele percorre o Brasil na defesa das entidades pautadas no comércio justo e fazendo o que mais gosta: política. Professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e considerado um dos mais importantes intelectuais de esquerda do Brasil, Singer tem seu DNA no sindicalismo, tendo liderado a histórica greve dos 300 milde 1953.   Na última quinta-feira, ele esteve em Salvador para uma plenária da deputada estadual Neusa Cadore (PT), que discutiu a tributação de cooperativas. Na ocasião, abriu um espaço na agenda para uma conversa franca com A TARDE.

Estamos há pelo menos cinco anos numa crise econômica de alcance mundial. O senhor acha que é um momento propício para repensar o capitalismo?
Certamente. Tudo começa com o fato de que a desregulamentação do sistema financeiro no mundo inteiro na década de 1980 mudou o capitalismo, mudou as relações de força dentro do capitalismo. O setor financeiro ficou todo poderoso. Antes disso, havia uma regulamentação maior, que limitava, por boas razões. è preciso entender que o sistema financeiro é vital, ele é muito importante. è tão importante que eu acho que deveria ser serviço público, que nem tráfego, segurança pública. São serviços que não podem ser privatizados e transformados em negócios para ter lucro. No caso nosso, ele é pior do que isso. Com a deseregulamentação no mundo inteiro, se criaram pseudo-bancos, que são os bancos que não financiam nada, ele especulam. São bancos que administram fundos de investimento. Por isso eu acho que o sistema financeiro deve ser transformado num sistema público, sem fins de lucro. Não podemos aceitar uma jogatina que não produz nada.       

O senhor concorda com a forma que o Brasil vem enfrentando a crise? Esse incentivo ao consumo e ao crédito é o caminho correto?
Este é um caminho correto no sentido de que ele distribuiu renda e ajudou uma boa parte da população brasileira a viver melhor. O aumento do salário mínimo, o Bolsa Família, uma série de políticas sociais que foram criadas ou aprimoradas, têm papel fundamentam nisso. Em geral, o Lula aproveitou as políticas sociais do Fernando Henrique. O que Lula fez foi aumentá-las várias vezes, como aconteceu com o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), por exemplo. Enfim, houve uma transformação bastante nítida da pobreza regional no Brasil.    

O incentivo ao consumo por parte do governo  não seria um risco?
Eu acho que não. o governo não tem esta política de incentivar as pessoas a se endividar. Seria uma irresponsabilidade. Eu não conheço uma fala nem da Dilma, nem do Lula, nem dos ministros dizendo: vão às compras. O que houve foi uma política de abrir o crédito para pessoas que antes não tinham acesso. Então, essas pessoas são incluídas financeiramente. Mas há regras, as pessoas  precisam demonstrar que têm renda e que vão poder pagar de volta o empréstimo que tomarem.

O senhor comanda a secretaria nacional de Economia Solidária. na sua avaliação, o que ainda falta para que o tema ganhe um protagonismo maior na sociedade brasileira?
Minha resposta é simples: tempo. A economia solidária está crescendo em tamanho e em qualidade. De qualquer forma, ao meu ver, a economia solidária hoje é uma proposta mundial, que está acontecendo em vários países, e tem condições de ficar maior e mais forte. Mas é uma dinâmica, sobretudo, política. As pessoas têm que optar pela economia solidária não apenas pelo desespero do desemprego, mas sobretudo, porque ela é melhor para elas, porque elas não querem ter ninguém que mande nelas. esta escolha consciente  dá uma outra qualidade à economia solidária.

O Brasil vive atualmente um cenário de pleno emprego e uma situação econômica não tão adversa. Contudo, vivemos desde junho uma série de protestos por parte da sociedade. Como explicar este aparente paradoxo?
As manifestações continuam e vão ser uma coisa frequente. No mundo inteiro, as pessoas se organizam, sobretudo por meio dos canais sociais, que são espaços importante para conscientizar o jovem de que eles têm reivindicações e propostas para tornar mais real a democracia do País. Ao meu ver,  desafio  é inserir estes movimentos no campo político. eles estão, no momento, como se fossem externos. Eles falam dos políticos como se todo mundo fosse igual. E não é assim. O mundo político, no Brasil, reflete as diferenças de interesse da sociedade. Por isso, as generalizações são inadequadas. Em suma, é bom que os jovens participem ativamente da vida política, mas eles têm que se sofisticar um pouco. Eles têm que entender melhor quem é contra e quem é a favor daquilo que eles sentem que precisam.

O senhor acha que falta uma definição mais clara das bandeiras?
No momento, há uma grande indefinição. Se marcam encontros pelas redes sociais e vai quem quiser, o que é justo. Mas só que, de repente, vão pessoas com posições completamente antagônicas. E aí um levanta uma bandeira, os outros vão lá e batem no cara. Isso aconteceu em São Paulo, houve muita violência, o que é lamentável. Mas, em geral, é bom que jovens estejam nas  ruas. O que acho é que ainda falta uma politização dentre estes jovens. Eles precisam ser mais eficientes,  senão o protesto vira meramente um evento. 

Fala-se numa possível crise de representação, com os políticos distantes do dia a dia da sociedade. O senhor concorda com esta avaliação?
Há no Brasil uma espécie de cultura monárquica. as pessoas que reivindicam fazem questão de falar com o presidente. Ministro já não serve, secretário de ministro, então, nem pensar. Eles querem falar com a Dilma, queriam falar com o Lula. E esta forma monárquica de pensar a política despreza um poder importante, que é o legislativo. As pessoas não dão importância. Grande parte não vota em ninguém. É importante que as pessoas tomem consciência da importância do parlamento e de que os parlamentares, a maior parte deles, querem fazer o que realmente prometeram. Não é verdade que a maioria é corrupto e quer se aproveitar dos outros. É claro que existem esses, mas não é a totalidade.

Neste cenário, o senhor acha que é premente a reforma política?
Eu acho que a reforma política é premente porque, do jeito que está atualmente a política brasileira, o dinheiro é o que forma os partidos. Isso é injusto, não está certo. É preciso neutralizar as diferenças econômicas para deixar a política ser a política mesmo. E não uma questão econômica, de compra e venda. Países como Estados Unidos e México já possuem legislação que buscam  neutralizar estas diferenças nas eleições. Esta é um preocupação universal.  

Quanto ao modelo  de votação, o senhor concorda com a proposta do PT de voto para o legislativo no sistema de lista fechada?
Dentro do PT, a chamada lista fechada é considerada indispensável para conseguir o financiamento público. O que o  partido defende é que não haja mais disputa entre os membros da mesma legenda, porque isso acontece atualmente. Mas ainda acho que a questão central não está no sistema de votação, mas, sobretudo, esta situação em que de um legislativo relegado ao segundo plano. Isso tem que mudar. Entendo que as  pessoas tem que ser criteriosas ao votar tanto para o executivo, quanto para o legislativo.   

O senhor tem o sindicalismo na origem da sua atuação política, tendo participado ativamente em grandes greves nos anos 1950. De que forma o senhor vê o sindicalismo no Brasil, num momento em que ele não está na linha de frente dos protestos?
Eles fizeram um dia de lutas. Aparentemente não foi um fracasso, mas também não foi um grande sucesso. Os trabalhadores industriais estão muito menos motivados a se manifestar do que os estudantes. Essa é conclusão que eu tirei. Os sindicatos estão em uma situação forte, pois hoje têm condições muito melhores de defender melhores salários e condições de trabalho. Isso por conta do pleno emprego. 

Fazendo uma reflexão sobre o atual momento da esquerda brasileira, que está há dez anos no poder. Em que o senhor acha que ela pecou neste período?
O maior pecado que eu vejo, não tanto na esquerda, mas no PT, foram um grande número de alianças sem nenhum princípio político-ideológico. O PT chegou a se aliar com PP, que era o partido que  tem sua origem na ditadura militar. Este deveria ser o último partido que o PT deveria se aliar. Aliou-se e o Paulo Maluf faz parte da base aliada. isso, ao meu ver, desmoraliza o PT e o governo. É claro que desmoraliza também o Maluf e mostra que a direita é tão sem princípios quanto à esquerda. Os dois lados, nessas alianças esdrúxulas, são oportunistas. 

O senhor acha que estas alianças travam a possibilidade de um governo mais à esquerda?
Não tanto na época do Lula. Minha resposta é sim, quando a  gente se refere ao momento atual, principalmente da Dilma (Rousseff). A presidente está notoriamente sendo hostilizada pela própria base, principalmente pelo PMDB, mas também por outros partidos. Eles votam de acordo com   os interesses que eles representam e que são contrários ao que o governo gostaria.   

Diante deste cenário, qual a saída para a presidente?
Eu acho que o esforço deveria ser da esquerda eleger uma bancada maior. O PT se esforçou e elegeu uma bancada substancialmente maior para o Senado. E, efetivamente, no Senado o governo tem tido mais sorte do que na Câmara. Mas não sei se as dificuldades do governo Dilma são todas pelo fato de que ela é de esquerda e a Câmara de direita. Acho que a principal dificuldade de um governo de esquerda é o alto grau de despolitização da sociedade.

Como o senhor vê o cenário para as eleições do ano que vem. Acha que a presidente Dilma caminha para uma reeleição tranquila?
Tranquila, eu infelizmente não acredito. Acho que vai ser uma eleição renhida, muito disputada. Mas este cenário pode mudar. Aliás, eu nunca vi uma eleição ser tão antecipada quanto esta. A política visa só a eleição e eu não vou criticar a Dilma por isso. No lugar dela, eu faria a mesma coisa. Mas existe uma certa distorção, mas, paciência, é melhor isso do que não termos democracia ou termos uma falsa democracia.

O que o senhor espera para um Brasil pós-PT,  novas alternativas à esquerda ou  um governo mais conservador?
Acho que a hipótese de um governo mais à direita não é tão factível. O PSDB está muito mal e pode até rachar com uma candidatura de Serra. Acho improvável que eles vençam. O mais provável é a Dilma ser reeleita ou ser eleito algum outro candidato da base. Pode ser Eduardo (Campos) ou a Marina (Silva).

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