Busca interna do iBahia
HOME > política > ELEIÇÕES 2024

ENTREVISTA

Otto Alencar aposta na verticalização para eleger Jerônimo

Senador candidato à reeleição acredita na força de Lula para dar continuidade ao projeto do PT na Bahia

Alan Rodrigues
Por Alan Rodrigues
| Atualizada em
Ortto Alencar se destacou durante a CPI da covid no Senado e acredita que a comissão acelerou a vacinação no Brasil
Ortto Alencar se destacou durante a CPI da covid no Senado e acredita que a comissão acelerou a vacinação no Brasil - Foto: Pedro França | Agência Senado

Com 75 anos recém-completados, Otto Alencar passeou por vários espectros da vida política baiana e brasileira. Médico de formação, estreou na política há 36 anos, se elegendo deputado estadual em 1986. Em 1990 já era o mais votado do estado. Ao todo, foram três mandatos consecutivos, com forte atuação, como líder de governo e presidente da Assembleia Legislativa da Bahia.

De 1991 a 1994 foi secretário de Saúde do governo Antonio Carlos Magalhães. Em 1998, após o terceiro mandato como deputado estadual, elegeu-se vice-governador na chapa com César Borges. Assumiu o governo por oito meses em 2002. Dois anos depois, depois de ocupar a secretaria de mineração, indústria e comércio foi indicado para o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM).

Tudo sobre Eleições 2024 em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Em 2010, surpreendeu o meio político ao se lançar novamente vice-governador, na reeleição de Jaques Wagner, abrindo mão da aposentadoria vitalícia como conselheiro e rompendo uma aliança de décadas com o carlismo. Como secretário de Infraestrutura, Transportes e Comunicações, foi o responsável pelo rompimento do contrato com a TWB, que fazia a travessia Mar Grande-Salvador, após várias denúncias de irregularidades no serviço.

Eleito senador em 2014, Otto Alencar presidiu várias comissões e, em 2021, se destacou na CPI da Covid, que investigou a omissão do governo Bolsonaro no enfrentamento à pandemia e denúncias de corrupção na aquisição de vacinas. Para o senador, a CPI foi decisiva para que a vacina chegasse nos braços dos brasileiros.

Senador, o senhor se destacou na CPI do Covid. Como o senhor vê a investigação parada na PGR agora?

O Ministério Público do Distrito Federal já tinha denunciado dez daqueles que foram investigados, dez daqueles da CPI, exatamente os que não tinham prerrogativa de foro privilegiado. Recentemente, a Procuradoria Geral da República denunciou a Precisa, responsável pela compra da Covaxin, mas a justiça não aceitou porque entre eles tem um deputado que tem foro privilegiado. Infelizmente as coisas só vão andar com quem não tem foro. Desde 2017 aprovamos a PEC do foro e lamentavelmente isso dorme na Câmara dos Deputados.

Sente um pouco de frustração diante desses desdobramentos?

Não tenho nenhum sentimento de frustração. Bolsonaro só veio comprar vacina porque a CPI foi instalada. Por que se instala uma CPI? Para investigar, fazer inquérito. Bolsonaro resolveu comprar a Coronavac, que ele não queria por causa do debate com João Dória (ex-Governador de São Paulo). A CPI prestou esse grande serviço ao Brasil. Medicação tem que seguir um protocolo. Pesquisa in vitro, pré-clínica e clínica. Bolsonaro receitou (a cloroquina) e ainda brincou, deu pra ema no Palácio do Planalto.

Qual foi a maior contribuição da CPI no combate à pandemia?

A CPI cumpriu sua função, mostrou ao Brasil que existia negacionismo e falta de compromisso do governo, falta de competência do ministro Pazuello (Eduardo Pazuello, ex-ministro da saúde), coisas da Idade Média no Amazonas, pessoas sendo entubadas sem sedação, Presidente da República receitando medicação ineficaz, outros propondo medidas inadequadas, como a imunidade de rebanho. Isso foi proposto pelo gabinete paralelo. Mostramos os crimes da Prevent Senior, uma empresa de saúde verticalizada – quando o plano é dono do hospital – e está correndo o processo.

Como avalia a postura do presidente Bolsonaro com relação à vacina?

Ao mesmo tempo que (Bolsonaro) desincentivou (a vacina), deixou a mãe se vacinar no interior de São Paulo e Michelle (Bolsonaro) nos Estados Unidos. O ministro Ramos (Luís Eduardo) tomou escondido.

Para o Senhor, quais foram as situações mais graves que vieram a tona durante a CPI?

A coisa mais grave que chamou a atenção do Brasil e do mundo foi a falta de oxigênio em Manaus, pessoas morrendo e sendo enterradas em valas comuns, atraso na vacina e demora do governo a tomar medidas necessárias. A confissão do Pazuello sobre as fases clínicas da doença, dizendo que não ia agredir a ciência, que não entende nada e depois dizendo ao lado do presidente que “um manda e o outro obedece”, uma figura anacrônica desse governo.

Como o Sr.avalia sua campanha até o momento, incluindo o período de pré-campanha: tem cumprido com suas expectativas?

Saímos de uma pré-campanha muito longa, quando termina uma campanha começa a outra. Sou crítico desse modelo, estamos todos em campanha há dois anos, menos Jerônimo, que começou em março. Devo dizer que o Brasil não vai suportar eleições de dois em dois anos com financiamento público. A campanha começa agora, propriamente dita, quando o eleitor vai tomar conhecimento dos candidatos, abrangendo 11,2 milhões.

Como vê as chances de Jerônimo diante dos números divulgados até agora?

Acho que essa campanha tem o mesmo perfil da campanha de Rui Costa em 2014, um ex-secretário pouco conhecido. Jerônimo começou com 4,5% e já passou de 30%.

O que o Sr. mais tem ouvido de demandas nas ruas e de que forma pretende representar os baianos, quais suas prioridades e principais problemas do estado que pretende pautar, caso seja eleito?

A crise social no Brasil vem desde 2017, desemprego em alta, quantidade enorme de trabalhadores na informalidade, inflação muito alta, os produtos de primeira necessidade não podem ser comprados com salário-mínimo nem com o auxílio.

A inflação dos alimentos atinge de forma ainda mais direta a classe trabalhadora.

O governo deixou de incentivar a agricultura familiar, destruiu quase completamente o Pronaf, na Bahia quem sustentou foi o governo do estado. Conseguimos na comissão de assuntos econômicos desonerar a cadeia produtiva do milho, equiparando à da soja. O governo deixou os armazéns da Conab vazios, não teve capacidade de exercer o controle da oferta na entressafra.

Como avalia a política econômica deste governo?

O governo destruiu o PAA (programa de aquisição de alimentos) que mandava para as escolas as refeições da merenda escolar. Na economia proposta pelo ministro Paulo Guedes, mundo globalizado se resume a quem aplica dinheiro. A Petrobrás teve o maior lucro líquido em um ano. Quem está ganhando com isso? O grande investidor estrangeiro. A Petrobrás dolarizou tudo, vende óleo bruto e compra diesel e gasolina. É um absurdo isso. A política neo-liberal do Guedes não deu resultado.

Qual o principal desafio do próximo governo?

Os indicadores da economia estão todos descompensados, juros altos, inflação de 12%, dólar alto e, além disso, você tem a questão do desemprego e do baixo crescimento econômico. Em 2019, sem pandemia, o PIB cresceu 1,4%, na pandemia houve recuo do PIB. Tudo isso leva dificuldade às famílias para comprar comida, pagar energia, água. Na minha opinião, falta ação do governo para conter o avanço dos preços, um dos principais preços é o frete. Embora a guerra (na Ucrânia) interfira nos preços dos grãos, nós somos um dos maiores produtores, o Brasil não poderia ter fome.

Com a alta dos preços de maneira geral e a redução no valor de compra, o teto de gastos pode ser revisto?

O teto de gastos foi aprovado quando tinha se cassado a presidente Dilma, tínhamos 3,8% de recuo do PIB, o projeto foi encaminhado e votei a favor. Se o próximo governo não for manter, precisa manter a estabilidade econômica, o equilíbrio financeiro e o controle de gastos, inflação na meta, juros módicos para emprestar com coerência e taxas aceitáveis, aplicar em plantas industriais, para o Brasil voltar a crescer. E um crescimento compatível com a formação das escolas técnicas.

Auxílio Brasil tem o prazo de validade até o final do ano. Se dependesse de você, esse prazo seria prorrogado?

Defendo a manutenção do auxílio de R$ 600. Na pandemia Bolsonaro propôs R$ 200, o Congresso aumentou para R$ 600, depois ele reduziu para R$ 300, elevou para R$ 400 e depois de dois meses voltou a R$ 600. O Brasil pode pagar isso. Ele resolveu fazer uma PEC para atender a necessidade daquela família que não consegue pagar contas, se alimentar, acaba vendendo um bem e com o auxílio não tem como recuperar.

O Sr. concorda que estas eleições, de maneira geral, estão polarizadas?

A campanha nacional está muito polarizada, Lula tem o voto cristalizado em torno de 45%, tem o Bolsonaro na faixa de 30% e os outros que buscam crescer no horário eleitoral. Espero a vitória de Lula e o eleitor que vota 13 deve se reproduzir aqui na Bahia.

E como acredita que se dará a governabilidade diante da relação existente hoje do governo Bolsonaro com o Congresso?

Não vejo dificuldade em fazer maioria no Senado e na Câmara. O governo chegando com força popular vai ter essa possibilidade. A Câmara tem um bloco muito forte chamado centrão que tem um domínio muito grande.

Aqui na Bahia, tanto nas chapas ao Governo do Estado como nas chapas ao Senado, os pré-candidatos têm se posicionado sobre a disputa presidencial, seja para elogiar ou criticar Lula e Bolsonaro. ACM Neto até o momento tem preferido não mencionar os dois líderes da pesquisa. Como você se enxerga dentro dessa polarização? Você enxerga que há riscos em não mostrar o posicionamento de maneira mais explícita?

Eleição estadual é muito contextualizada com a federal. Lula e Jerônimo têm muita sintonia. Nas quatro últimas eleições foi assim e creio que vai dar a lógica outra vez. Se o outro candidato, A, B ou C, não se identifica com nenhum candidato à presidência é um problema muito dele.

E como o Sr. vê a adesão dos prefeitos do seu partido à campanha de Jerônimo?

Temos 111 prefeitos. Uma pequena parte tomou posição contrária à orientação do partido. Eu não esperava, lamento muito isso, mas 90% ficaram com Jerônimo e vamos trabalhar para construir esse novo governo. O governo Rui foi muito bom, deixou uma estrutura fiscal sadia.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Relacionadas

Mais lidas