POLÍTICA
Lula constrói relação de altos e baixos com Trump e os EUA
Presidentes interrompem aproximação iniciada nos últimos meses
A ofensiva do governo dos Estados Unidos ao Pix, sistema de transação financeira criado pelo Banco Central do Brasil, nos últimos dias, é mais um episódio da complexa relação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump.
A relação, que vinha sendo construída de maneira amistosa nos últimos meses, passou por uma nova ‘turbulência’ com a postura da Casa Branca com relação ao tema.
Ao comentar a possibilidade de um novo ‘tarifaço’, Lula admitiu divergências entre as equipes econômicas dos dois países em pontos específicos das relações comerciais.
"Na última reunião, quando eu estive lá [...] tivemos uma conversa com o Trump de três horas, e entregamos os assuntos que o Brasil quer discutir. Na hora da relação comercial, houve uma divergência entre o meu ministro e o ministro do comércio deles, eu propus ao Trump: 'Já que não tem acordo entre os dois ministros, vamos dar trinta dias para que eles se entendam'”, explicou Lula.
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O encontro entre Flávio Bolsonaro (PL), senador e pré-candidato a presidente, e Trump, na última semana, também ‘azedou’ a aproximação dos dois chefes de Estado.
Na ocasião, Flávio pediu que os EUA classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, o que será atendido nos próximos dias.
A decisão dos Estados Unidos gerou reação negativa por parte do Planalto, e afastou, ainda que momentaneamente, os dois presidentes.
Enredo favorável
Mesmo com a maioria dos brasileiros sendo favorável ao posicionamento dos Estados Unidos sobre as facções, como apontou o levantamento AtlasIntel, especialistas acreditam que Lula pode ter ganho político futuro com uma provável interferência americana.
Estrategista político e professor de comunicação na Universidade Federal da Bahia (Ufba), Yuri Almeida avaliou a situação de Lula no novo embate com os Estados Unidos, em entrevista ao portal A Tarde.
Como exemplo, o analista lembrou o primeiro ‘tarifaço’, que ocorreu em julho de 2025, e retirou o governo Lula da zona de má avaliação, fortalecendo a imagem de ‘estadista’ e ‘defensor’ do Brasil, o que pode ocorrer novamente.
“Naquele momento da taxação, esse embate, esse enredo Brasil x Estados Unidos foi muito mais favorável para Lula do que necessariamente para os candidatos da oposição materializados na família Bolsonaro [...] Nesse jogo, quem leva vantagem do ponto de vista eleitoral, esse embate tem fortalecido alguns atributos de Lula, sobretudo relacionado a essa questão de ser estadista, defender ao Brasil”, pontuou o estrategista.
Trump ajuda ou atrapalha?
Lula, que está no seu terceiro mandato, encontrou quatro diferentes presidentes americanos em suas passagens pelo Planalto. O primeiro deles foi George W. Bush, republicano, com quem conseguiu manter o diálogo.
Seu sucessor, Barack Obama, democrata, foi mais próximo a Lula, a quem chegou a se referir como “o cara”. O tom ameno também foi mantido com Joe Biden, presidente dos Estados Unidos entre 2021 e 2024, o que mudou a partir do retorno de Trump ao poder, em 2025.
Na avaliação de Yuri Almeida, Trump tem sido um ‘fator positivo’ para Lula, a nível eleitoral, até o momento.
“Trump, até então, se a gente pegar esses dois momentos, que são da taxação dos produtos brasileiros e do momento da última semana, Trump tem sido um fator muito mais positivo de alavancar a campanha de Lula do que atrapalhar”, destacou.
Herói x vilão
A atuação de Lula diante dos dois episódios deve lhe passar a condição de “herói”, enquanto Trump pode ficar com a imagem de ‘invasor’.
Para a ala bolsonarista, no entanto, a postura de Trump de interferir em assuntos ligados ao Brasil pode ter um efeito reverso, o que pode enfraquecer a campanha de Flávio Bolsonaro.
“Em toda narrativa você precisa ter herói e vilão. Lula é o herói em defesa do Brasil, Trump é o cara que vai invadir, interferir nas relações. Por outro lado, do ponto de vista do voto mais bolsonarista de direita, existe uma inversão desse papel [...] Se essa atitude do Trump enfraquece a campanha do Flávio e reconhece que a atuação dele prejudica o Brasil, a tendência é de que fortaleça a campanha de Lula”, destacou.