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Mesmo ampliando sua presença nos espaços de poder, mulheres na Bahia ainda não conseguiram se eleger governadoras; foram 7 tentativas

A CONTA NÃO FECHA

O vácuo de representatividade feminina na Bahia que nunca elegeu uma governadora

Estado possui 52% de eleitoras e zero governadoras eleitas; nos últimos 40 anos, apenas cinco mulheres disputaram o Palácio de Ondina

Mesmo ampliando sua presença nos espaços de poder, mulheres na Bahia ainda não conseguiram se eleger governadoras; foram 7 tentativas - Foto Divulgação/Alba

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Yuri Abreu

Por Yuri Abreu

08/03/2026 - 13:11 h

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Maria Felipa, Joana Angélica e Maria Quitéria. Entre os vários heróis que contribuíram para a Independência da Bahia, em 1823, libertando o estado do domínio português, três dos nomes que são sempre lembrados nos livros de história estão relacionados a elas, especialmente pela bravura e coragem na luta contra as tropas estrangeiras.

No entanto, mesmo com essas inspirações, aliado ao fato de a Bahia ter mais eleitoras do que eleitores homens — de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), elas são 5.875.917 (52,78%) contra 5.256.705 (47,22%) — o estado nunca chegou perto de ter uma governadora mulher.

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Mas, por que será que isso acontece?

Tentativas frustradas

Antes de tentarmos explicar as razões pelas quais uma mulher nunca chegou ao topo do Poder Executivo na Bahia — diferente do que já ocorreu no Judiciário (Silvia Zarif e Cynthia Resende) e no Legislativo (Ivana Bastos) —, houve pelo menos sete tentativas em disputas eleitorais.

A primeira delas foi em 1986. À época, Delma Gama, pelo PMB, concorreu contra Josaphat Marinho (PFL) e Waldir Pires (PMDB). Ela recebeu apenas 55.985 votos, ficando na terceira colocação — aquela eleição foi vencida por Waldir, que obteve 2.675.108, uma diferença de mais de 2.100.000.

Quatro anos depois, em 1990, foi a vez de Lídice da Mata, então no PCdoB, tentar passar pelo crivo das urnas. Porém, no duelo contra os ex-governadores Antônio Carlos Magalhães e Roberto Santos, ela obteve 308.998 votos, ficando também em terceiro lugar.

Dois anos depois, em 1992, Lídice da Mata concorreu à Prefeitura de Salvador e sagrou-se vencedora.

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Repetição e novidade

Na disputa ao governo da Bahia, elas voltaram a ficar sob os holofotes em 1998, novamente com Delma Gama. No Prona, ela até melhorou o desempenho em relação a 1986 — foram 73.260 votos —, mas fizeram com que ela atingisse apenas o quarto lugar. Aquela eleição foi vencida por César Borges.

Oito anos depois (2006) a postulante foi Rosana Vedovato, então no PSL — partido que anos mais tarde abrigaria o ex-presidente Jair Bolsonaro na exitosa eleição de 2018 ao Palácio do Planalto. Porém, aqui na Bahia, Rosana amargou a 5ª colocação, com 9.479 votos.

Aquela eleição ficou marcada pela então surpreendente vitória de Jaques Wagner (PT) sobre Paulo Souto (PFL), abrindo a dinastia petista no estado que atingirá 20 anos em dezembro deste ano.

Lídice da Mata foi candidata ao governo da Bahia por duas vezes
Lídice da Mata foi candidata ao governo da Bahia por duas vezes | Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

Ineditismo e última vez

O ano de 2014 foi o primeiro e único em que duas mulheres disputaram a eleição ao governo da Bahia: Lídice da Mata, pelo PSB, e Renata Mallet, pelo PSTU. Naquele pleito, o primeiro dos dois vencidos por Rui Costa, a socialista recebeu 432.379 votos, ficando no terceiro lugar. Já Renata foi a sexta mais bem votada, com 16.788 votos.

A última tentativa de uma mulher chegar ao topo do Poder Executivo aconteceu em 2018. Pelo partido Rede, Célia Sacramento recebeu 31.198 votos e ficou em sexto lugar — a eleição foi vencida por Rui Costa.

Célia Sacramento foi a última mulher a concorrer ao governo da Bahia, em 2018
Célia Sacramento foi a última mulher a concorrer ao governo da Bahia, em 2018 | Foto: Reprodução/Instagram @celia.sacramento

Trajetórias

Para tentar entender as razões pelas quais a Bahia nunca teve uma governadora mulher, o Portal A TARDE buscou ouvir cientistas políticas e historiadoras, além de elencar futuros cenários para que um dia, de fato, o Estado possa ter, como comandante, uma pessoa do sexo feminino.

"A primeira coisa que a gente precisa entender é que a gente vem de uma sociedade patriarcal que, apesar disso, você tem várias experiências e trajetórias de mulheres muito ativas nessa sociedade", afirmou a historiadora Ana Rita Araújo Machado.

"[Essa sociedade] durante muito tempo, educou as mulheres de elite para o casamento e as mulheres populares para dar conta do cotidiano da sobrevivência. Do ponto de vista do próprio sistema político, onde você elege pessoas, eu percebo que um aspecto está ligado à concepção e à mentalidade mesmo, e que é uma herança desse patriarcado", completou.

Historiadora Ana Rita Machado Araújo
Historiadora Ana Rita Machado Araújo | Foto: Reprodução/Instagram @dra.anaritamachado

Presença nos espaços de poder

"Quando observamos a baixa participação das mulheres na política baiana, mesmo diante de um eleitorado majoritariamente feminino – também precisamos questionar a quem interessa que as mulheres ocupem menos espaços de decisão e poder? A política na Bahia, assim como no Brasil de modo geral, ainda carrega marcas profundas de um conservadorismo historicamente estruturado", analisa a também historiadora Jamile Palafoz.

"A partir dessa lógica, os espaços de poder e decisão não foram pensados como espaços destinados ás mulheres. Assim, elas enfrentam barreiras sólidas, que dificultam uma participação mais ampla e efetiva na política. Uma dessas barreiras, está relacionada ao modo como se compreende o eleitorado feminino enquanto sujeito político", acrescenta.

Reflexo nacional

O cenário na Bahia nada mais é do que acontece em nível nacional. Desde a Constituição Federal de 1988, somente nove mulheres foram eleitas como governadoras no Brasil:

  • Roseana Sarney (Maranhão - 1994, 1998 e 2010)
  • Ana Júlia Carepa (Pará - 2006)
  • Raquel Lyra (Pernambuco - 2022)
  • Rosinha Garotinho (Rio de Janeiro - 2002)
  • Wilma de Faria (Rio Grande do Norte - 2002 e 2006)
  • Rosalba Ciarlini (Rio Grande do Norte - 2010)
  • Fátima Bezerra (Rio Grande do Norte - 2018 e 2022)
  • Yeda Crusius (Rio Grande do Sul - 2006)
  • Suely Campos (Roraima - 2014)

"A indicação de candidatura para governo de Estado exige que o candidato seja ator confiável na estrutura partidária, tenha participação ativa no partido. Sabemos que as estruturas partidárias são ocupadas principalmente por homens. Além disso, por se tratar de eleição majoritária é necessário agradar a maioria dos eleitores e a opinião pública ainda acredita que o jogo político exige características atribuídas a homens, como determinação, autoridade e racionalidade", avalia Maria Inês Caetano Ferreira, cientista política e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

"Quando os homens são frios, eles são bem avaliados. Quando as mulheres demonstram essas mesmas características, elas são apontadas como desumanas, carentes, com problemas na vida sexual [...] Então é muito difícil para a mulher alcançar uma posição executiva porque atribui-se ao cargo características que a sociedade compreende como sendo exclusivas dos homens", completa.

Cientista política Maria Inês Caetano Ferreira, professora da UFRB
Cientista política Maria Inês Caetano Ferreira, professora da UFRB | Foto: Divulgação

Mudança de cenário

As especialistas ouvidas pelo Portal A TARDE apontam que para haver uma mudança neste cenário, não apenas na Bahia, mas em boa parte do país, seria preciso alterar a opinião pública e isso teria que contar com a ajuda dos homens. Porém, este processo seria longo.

"Hoje constatamos o aumento de mulheres esposas e filhas de políticos sendo eleitas, até mesmo como governadoras. Isso é muito importante para alterar a imagem da fragilidade da mulher no poder, porque o desempenho positivo delas faz com que a sociedade acredite que é possível votar em mulheres porque elas são boas políticas", diz Maria Inês.

"Vejo que esse é um dos caminhos possíveis e mais rápidos, na medida em que essas mulheres conseguem ser aceitas pelas estruturas partidárias em virtude do capital familiar e político que elas possuem", finaliza.

Referências

Outro caminho seria a apresentação de referências históricas que contribuíram, por exemplo, para a ampliação de direitos e para a construção do presente.

"Entre esses nomes está Laurentina Pugas Tavares, primeira vereadora eleita na cidade de Salvador em 1935 – figura ainda pouco mencionada. Com isso, é importante formar mulheres que se reconheçam como protagonistas, para que a longo prazo possamos contemplar uma presença mais ampla de mulheres nos espaços de decisão política", afirma Jamile Palafoz.

"Acho que é uma maior participação de nós mulheres dentro dos partidos, acho que esse é um elemento importante. Ainda campanhas de conscientização mais amplas. Acho que a gente teria que também estar nas escolas, nas universidades discutindo isto [...] A educação é um elemento importante para a gente estar discutindo essas questões, mas a mídia, as redes sociais estão trazendo esse debate, porque a gente precisa aprender a refletir o porquê disso, pensar mais sobre isso", pontua Ana Rita Araújo Machado.

Com o objetivo de debater temas fundamentais para o público feminino, o Grupo A TARDE promove o evento "Mulheres em Pauta: Empoderamento e Segurança". O encontro será realizado no dia 17 de março, das 15h às 18h, no Auditório do SEBRAE (Rua Arthur de Azevêdo Machado, 1225, Edf. Civil Towers, Costa Azul, Salvador - BA). A iniciativa integra as celebrações em torno do Dia da Mulher, reunindo discussões sobre protagonismo e proteção no cenário atual.

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