A Bahia caminha para 44 anos de eleições diretas, entre estaduais, nacionais e municipais, após o processo de 'abertura política' da ditadura militar. Nesse período, ficou constado, com maior força nas últimas décadas, a preferência dos políticos, homens, em sua maioria, de mulheres no posto de vice.
O movimento tem aumentado nos últimos pleitos, em meio às discussões sobre participação da mulher na política. O movimento, entretanto, aponta que os partidos e estruturas de poder ainda usam a presença feminina como uma ferramenta, não de ascensão, mas de atração de votos.
Por que cobiçadas?
Professora de Ciência Política na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Maria Inês Ferreira pontuou, em entrevista ao Portal A TARDE, que é ainda é raro uma mulher como 'cabeça' de uma majoritária, principalmente quando se trata de uma chapa com chances reais de vencer uma eleição.
"Observamos que muitas vezes as mulheres têm sido indicadas como vice em chapas majoritárias em todo o país. Raramente elas são indicadas como cabeça de chapa, pelo menos nas candidaturas com mais intenção de voto, com chance de vencer a eleição", analisou a professora.
A estratégia, ainda de acordo com a cientista política, não resolve o cenário de domínio masculino consolidado no processo de organização e condução dos partidos.
"Então, a indicação como vice é positiva, porém, é apenas um começo, que não necessariamente irá transformar o quadro de predomínio masculino nas máquinas partidárias que controlam a organização das nominatas", pontuou.
Houve aumento?
No recorte estadual, não houve um aumento no número de mulheres como vice nas chapas majoritárias, se comparados os pleitos entre 2002 e 2022. Nos dois pleitos, apenas duas mulheres foram escolhidas para o posto.
No primeiro ano citado, Nilza Lima (PT), que compôs a chapa encabeçada por Jaques Wagner (PT), e Ednailda dos Santos (PCO), da majoritária de Antônio Eduardo (PCO), foram as únicas mulheres indicadas para a vice.
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Em 2022, apenas Ana Coelho (Republicanos), na chapa de ACM Neto (União Brasil), e Leonídia Umbelina (PMB), na chapa de João Roma (PL), foram candidatas ao cargo de vice.
Em 2014, nenhum dos candidatos ao executivo estadual contou com uma vice na chapa. Na eleição seguinte, em 2018, o cenário foi oposto, com quatro mulheres de vice em cinco chapas majoritárias.
Apenas o governador Rui Costa (PT) teve um homem, João Leão (PP), como vice.
Dentro do cenário municipal, tendo Salvador, maior colégio eleitoral do estado, o número de mulheres indicadas como vice tem sido maior nos últimos pleitos. Em 2024, por exemplo, dos cinco candidatos à prefeitura da capital, apenas Victor Marinho, do PSTU, teve um homem como companheiro de chapa.
Candidatas à vice-prefeitura de Salvador em 2024
- Ana Paula Matos (PDT) / Bruno Reis (União Brasil) - Eleita;
- Fabya Reis (PT) / Geraldo Júnior (MDB);
- Cheyenne Ayalla (PCB) / Giovani Damico (PCB);
- Dona Mira (Psol) / Kleber Rosa (Psol);
- Giovana Ferreira (UP) / Eslane Paixão (UP);
Na história da capital, que atualmente tem Ana Paula Matos como vice, apenas três mulheres estiveram no cargo. Antes da pedetista, passaram pelo posto Beth Wagner (PPS), na única vitória de uma chapa 100% feminina na cidade, entre 1993 e 1996, e Célia Sacramento (PV), entre 2013 e 2016.
Nível nacional
Se o recorte for a nível de eleição presidencial, o Brasil ainda caminha distante de um equilíbrio de gênero nas chapas. Em 2022, apenas quatro candidaturas tiveram mulheres como vice.
Candidatas a vice-presidente em 2022
- Ana Paula Matos (PDT) / Ciro Gomes (PDT)
- Samara Martins (UP) / Leonardo Péricles (UP)
- Mara Gabrilli (PSDB) / Simone Tebet (MDB)
- Raquel Tremembé (PSTU) / Vera Lúcia (PSTU)
Estratégia
Colunista no Portal A TARDE e cientista político, Cláudio André de Souza apontou a preferência por mulheres na vice por questões de estratégia para atração de votos, trazendo também a discussão sobre representatividade.
"Entendo que se trata de uma estratégia de representatividade de alcançar o eleitorado feminino como um elemento fundamental para se alcançar vitórias eleitorais, já que a fé de parte das cidades brasileiras tem um eleitorado feminino acima dos 40% e em vários casos até mesmo sendo a maioria do eleitorado", afirmou.
Diagnósticos
A preferência por mulheres para vice nas chapas encabeçadas, em sua maioria, por homens, é visto pela cientista política Maria Inês Ferreira, como um ganho na luta pela representatividade feminina, além de significar uma possível preocupação por parte das legendas com as demandas do eleitorado feminino.
"O recurso de indicar mulheres como vice, apenas, não deixa de representar ganhos na luta pela representação feminina, na medida em que os partidos constatam que uma vice pode manifestar a preocupação do candidato e da legenda com as necessidades das mulheres, maioria dos eleitores", iniciou a professora e cientista política, que continuou.
"Essa preocupação, por sua vez, manifesta que a luta das mulheres por ampliar sua participação na política vem influenciando o eleitorado feminina na crença de que as mulheres no poder podem implementar mais ações para mulheres do que políticos homens", completou.
Mulheres em pauta
Com o objetivo de debater temas fundamentais para o público feminino, o Grupo A TARDE promove o evento "Mulheres em Pauta: Empoderamento e Segurança". O encontro será realizado no dia 17 de março, das 15h às 18h, no Auditório do SEBRAE (Rua Arthur de Azevêdo Machado, 1225, Edf. Civil Towers, Costa Azul, Salvador - BA). A iniciativa integra as celebrações em torno do Dia da Mulher, reunindo discussões sobre protagonismo e proteção no cenário atual.
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