A TARDE DESTAQUE
Raio-X: eleição de Lula supera incertezas e isola bolsonarismo
A TARDE Destaque detalha processo eleitoral e resultado das urnas



Detentor de 64.256.232 de votos no dia 25 de outubro, recorde absoluto de uma eleição no Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentou uma campanha atípica, marcada por incertezas e mudanças de rota desde o dia 16 de agosto até o último final de semana.
Derrotado no primeiro turno, Lula conseguiu uma virada inédita contra Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário no segundo turno, marcada por fatores como engajamento popular e pelo movimento de conversão das abstenções.
O A TARDE Destaque desta semana traça um raio-x da campanha eleitoral vitoriosa de Lula, a quarta do presidente petista.
Consolidação da candidatura de Lula
Hoje com 81 anos, Lula confirmou sua candidatura ao quarto mandato presidencial em agosto de 2025, quando ainda tinha 79 anos.
Na época, o presidente começou a afastar os boatos de uma possível desistência por conta de fatores como a idade ou problemas de saúde enfrentados por ele.
No anúncio, Lula disse prever uma eleição difícil, mesmo sem saber quem seria o seu adversário nas urnas.
“Vai ser uma eleição difícil e é uma eleição que nós não podemos perder”, afirmou Lula na ocasião, durante uma entrevista para uma rádio de Minas Gerais.
Condenação de Bolsonaro por golpe de Estado e prisão
A condenação de Jair Bolsonaro (PL), em setembro de 2025, por tentativa de golpe de Estado, é vista como episódio fundamental para os passos seguintes do grupo de oposição, liderado até então pelo ex-presidente.

O núcleo principal da trama golpista, que surgiu após o revés de Bolsonaro em 2022, foi condenado pelos seguintes crimes:
- Organização criminosa;
- Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito;
- Golpe de Estado;
- Dano qualificado pela violência;
- Grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.
Jair Bolsonaro, apontado como líder da organização, foi condenado a 27 anos e nove meses de prisão, sendo preso em 22 de novembro do mesmo ano.
Flávio Bolsonaro é escolhido candidato a presidente
Isolado politicamente por conta da prisão, Jair Bolsonaro acelerou o processo de escolha do seu candidato ao Palácio do Planalto. A decisão fugiu da expectativa criada em torno do nome de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo e seu ex-ministro, com uma solução ‘caseira’ para o vácuo deixado por ele.
Pesava a favor de Tarcísio o perfil moderado, além do bom trânsito com atores importantes do mercado financeiro e do chamado ‘centro democrático’, o ‘centrão’.
Despontou, no entanto, o nome do senador fluminense Flávio Bolsonaro (PL), como alternativa. A estratégia consistia na manutenção do poder da sua família no cenário político nacional.

Em 5 de dezembro de 2025, Flávio venceu a concorrência velada de Tarcísio e foi escolhido pelo pai para disputar a presidência. A confirmação do desenho político se deu apenas no dia 25 do mesmo mês, por meio de uma carta redigida por Bolsonaro.
Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho, para resgatar o nosso Brasil. Trata-se de uma decisão consciente, legítima e amparada no desejo de preservar a representação daqueles que confiaram em mim
A pré-candidatura de Flávio dividiu opiniões dentro do núcleo político do bolsonarismo, por conta do seu histórico envolvendo polêmicas e suspeitas de envolvimento em casos de corrupção, a exemplo das rachadinhas nos tempos de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
“A família Bolsonaro precisava de um representante, até por uma questão de sobrevivência do sobrenome, tinha toda uma estrutura de deputados e senadores dependentes desse clã”, explicou o cientista político João Vilas-Boas, que analisou a candidatura de Flávio como um “erro estratégico”.
“Acredito que o melhor nome para se enfrentar era o de Flávio. Primeiro pela ligação com o sobrenome direto, segundo por causa de questões mais extremas. Foi um erro estratégico”, destacou.
Lula aposta novamente em Alckmin como vice
A improvável aliança de 2022 se consolidou em 2026. Lula escolheu novamente Geraldo Alckmin como vice, reforçando a dobradinha formada por PT e PSB.
Antes do martelo ser batido, em estratégia que envolveu nomes como João Campos, presidente nacional do PSB, outras siglas chegaram a mostrar interesse pela composição com Lula, a exemplo do MDB, que ensaiou indicar quadros como Helder Barbalho, então governador do Pará.
Os ‘socialistas’, entretanto, foram priorizados na formação da chapa presidencial, repetindo a dobradinha vencedora de 2022.
Nos bastidores, Alckmin, antigo adversário de Lula, sempre foi visto como o perfil ideal para a composição, pesando a seu favor a imagem de moderado e a capacidade de atração de eleitores que se identificam com o campo da direita, rememorando seus tempos de ‘tucano’.

O anúncio foi feito no dia 31 de março deste ano, com a saída de Alckmin do Ministério de Indústria e Comércio, como prevê a lei eleitoral.
Direita e aventureiros dominam a disputa
Nos meses seguintes, partidos de diferentes campos começaram as articulações para suas candidaturas. Lula conseguiu formar uma ampla coligação progressista com siglas de esquerda ainda no primeiro turno.
A coligação ‘Brasil Pronto Pra Mais’ foi formada pelo seguintes partidos:
- PT;
- PCdoB;
- PV;
- PSB;
- PDT;
- Psol.
O campo da direita, liderado pela candidatura de Flávio Bolsonaro, apostou em outras candidaturas competitivas. Governadores de Goiás e Minas Gerais, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) rejeitaram qualquer movimento de recuo, lançando seus nomes para a disputa presidencial.
O escritor Augusto Cury, conhecido pelos livros de psicologia, resolveu se aventurar em uma tentativa de alcançar o Palácio do Planalto, achando no Avante a oportunidade de se candidatar.
Com o mesmo perfil de ‘outsider’ que Cury, mas com uma partido para chamar de seu, Missão, Renan Santos também se lançou candidato em uma tentativa de ‘fisgar’ eleitores de direita que estavam insatisfeitos com os rumos do bolsonarismo.
Lula foca em soberania e Flávio Bolsonaro em poder de compra
Enquanto Lula optou pelo discurso de soberania e defesa das riquezas nacionais, a exemplo das terras raras cobiçadas pelos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro preferiu focar no poder de compra.
Lula usou o mote da queda de braços recente com Donald Trump, presidente americano com quem tem uma complexa relação, para promover seu discurso de campanha, atrelado aos programas criados e turbinados no seu terceiro mandato.
Já Flávio Bolsonaro fez gravações em supermercados e tentou vender para o eleitor a ideia de alta de preços, prometendo o incentivo ao empreendedorismo como porta de saída da vulnerabilidade social.
A segurança pública também foi explorada pelos dois principais candidatos. Lula reforçou a necessidade de aprovação da PEC da Segurança Pública, com uma mudança estrutural na forma de combater o crime no Brasil.
Flávio seguiu os moldes do bolsonarismo, tendo a promessa de redução da maioridade penal, com margem para até 14 anos, como ponto principal da sua plataforma de governo.
Caso Master embola corrida eleitoral
A ‘explosão’ do Caso Master, entre o primeiro e segundo semestre deste ano, colocou a corrida eleitoral em segundo plano. A crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro atingiu diversos setores da estrutura de poder, incluindo a campanha de Flávio Bolsonaro.
Os áudios de Flávio para Vorcaro, em que pedia a doação de uma quantia milionária para o filme Dark Horse, causaram impacto imediato na campanha do senador.
A campanha de Lula chegou a usar a relação entre Flávio e o banqueiro para atacar o adversário, que teve no episódio um de seus maiores desafios durante o processo eleitoral.
A alta cúpula do Supremo Tribunal Federal (STF), porém, foi a maior atingida com o caso. Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Kassio Nunes, Luiz Fux e André Mendonça foram citados.
Visto desde sempre como algoz do bolsonarismo, Alexandre de Moraes se tornou o principal foco dos escândalos, fruto da ligação do escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master.
Moraes também fez uma ofensiva a André Mendonça, responsável pela quebra de sigilo das conversas entre ele e Vorcaro, dando início a uma guerra velada dentro da Corte.
A crise do Master foi citada como destaque do primeiro turno da campanha presidencial na análise de João Vilas-Boas.
“Primeiro turno a gente teve uma pauta extensa relacionada ao STF, a discussão com relação ao campo jurídico. No segundo turno, quando você vira essa chave, que afunila a candidatura em torno de dois nomes, a gente tem uma disputa muito mais acirrada e ligada a outras pautas que as pessoas também estavam preocupadas”, explicou.
Flávio Bolsonaro surpreende e lidera primeiro turno
Quando as urnas fecharam, no dia 4 de outubro, as duas principais campanhas tinham diferentes expectativas. O entorno de Lula acreditava na vitória no primeiro turno, contrariando os números das pesquisas às vésperas da eleição.
O grupo de Flávio entendia que chegar ao segundo turno era o primeiro passo para sobreviver nas urnas e tentar convencer o eleitor.
Nas urnas, o resultado surpreendeu os dois lados: Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno, com 56.104.503 (47.03%) votos, contra 53.879.538 (45.16%) de Lula.
Mobilização histórica conduz Lula no segundo turno
O baque das urnas no primeiro turno, que teve em seu ‘pacote’ um avanço significativo das bancadas do PL na Câmara dos Deputados e Senado, fez com que a campanha de Lula adotasse uma outra postura.
Saiu de cena a soberania, dando espaço para uma estratégia de ligar a imagem de Flávio ao pai. Outros pontos foram explorados por Lula e aliados, além da mobilização popular nas ruas.
Lula passou a explorar os seguintes temas:
- Caso Ana Clara;
- Caso Master;
- Ilha de Richarlison;
- Possível ligação com a milícia.
A mudança de rota envolveu também um grande movimento envolvendo atores políticos de diferentes regiões. O PT Nordeste, encabeçado pelos baianos Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, pelo cearense Camilo Santana, nome forte para 2030, e pelo piauiense Rafael Fonteles, foi fundamental nesse processo.
A necessidade de aumentar os 21.494.584 votos conquistados por Lula no primeiro turno na região, maior reduto petista do país, fez com que as lideranças dos estados saíssem às ruas em atos maiores que os vistos nas semanas anteriores.
Nessa estratégia de mobilização, cresceram os seguintes nomes:
- Camilo Santana - PT - (senador do Ceará);
- Rui Costa - PT - (senador eleito da Bahia);
- Rafael Fonteles - PT - (governador reeleito do Piauí);
- Jerônimo Rodrigues - PT - (governador reeleito da Bahia);
- Lucas Ribeiro - PP - (governador reeleito da Paraíba)
- Renan Filho - MDB - (senador de Alagoas).
- Elmano de Freitas - PT - (governador reeleito do Ceará)
- João Campos - PSB - (ex-prefeito de Recife)
No segundo turno, a campanha de Lula Nordeste garantiu um aumento de 2,95 milhões de votos, passando para 24.450.432 votos para o candidato petista.
“As mobilizações populares foram muito importantes. Primeiro pelo impacto, eventos muito cheios. Segundo, porque os eventos de Flávio eram internos, as mesmas caras, mas nos eventos ligados a Lula, as pessoas incorporaram aquilo como uma missão. Os eventos de Lula sempre tiveram esse peso de responsabilidade”, pontuou o cientista político João Vilas-Boas, em entrevista ao A TARDE Destaque.
Janones cria Exército do Lula e lidera campanha digital
Deputado federal reeleito pela Rede Sustentabilidade, o mineiro André Janones assumiu a dianteira da campanha digital de Lula, um dos principais pontos de críticas de aliados no primeiro turno.
A também mineira Ana Elisa (PT), jovem de 21 anos que venceu sua primeira eleição para a Câmara dos Deputados com um trabalho fortalecido pelas redes sociais, também foi peça importante para essa transição.

Janones usou o WhatsApp para criar o Exército do Lula, canal de WhatsApp que ajudou difundir ‘missões’ dos eleitores do petista, assim como tarefas para o convencimento do eleitor indeciso com o voto no segundo turno.
Vamos ganhar essa eleição. Lula será reeleito presidente André Janones ao criar Exército do Lula
O parlamentar mineiro também ficou à frente das lives no Youtube, sempre contando com participações de outros políticos e de artistas.
O empenho dos atos de rua e a campanha resultaram na primeira virada da história de uma eleição presidencial entre o primeiro e o segundo turno. Os 53.879.538 votos viraram 64.256.232 votos, um aumento de 10.376.694 de eleitores para o presidente.
Lula também obteve a maior votação de um candidato a presidente na história do país.
Explicando a virada de Lula
A virada de Lula, inédita em uma disputa presidencial no Brasil, é explicada por diversos fatores. A abstenção, por exemplo, saiu de 33.469.244 para 30.509.005 eleitores do primeiro para o segundo turno.
Lula também teve um aumento significativo nos principais colégios eleitorais do país no segundo turno.
Em São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil, Lula saltou de 9.505.413 votos para 12.119.274 votos.
Em Minas Gerais, o presidente conseguiu um feito ainda maior: saiu de 5.188.936 votos para 6.351.099 votos, diferença menor do que em São Paulo, mas suficiente para vencer no segundo turno no estado, diferente do primeiro turno, quando Flávio foi o candidato mais votado entre os mineiros.
Terceiro maior colégio eleitoral do país, Lula conseguiu ampliar os 3.693.021 de votos do primeiro turno, alcançado 4.565.393 votos no dia 25 de outubro.
Na Bahia, Lula saiu de 5.664.771 votos para 6.485.258 votos, o que garantiu 71.31% para o candidato do PT no estado. A votação foi maior do que o especulado pelos petistas baianos, que tinham como meta algo em torno de 70%.
“Foi a junção de duas coisas: a mobilização digital, o exército de Janones, que finalizou a eleição com mais de 10 milhões de pessoas, engajando com missões diárias. A mobilização digital teve um peso muito grande, até porque muita gente falava que o PT tinha uma comunicação analógica, uma comunicação antiga, que não conseguia dialogar no digital”, explicou João Vilas-Boas.
Números da vitória de Lula:
1º turno: 53.879.538 votos • 45,16%
2º turno:64.256.232 votos • 51,79%