QUESTÃO URGENTE
Criar meninos sem machismo: por que especialistas defendem mudar a educação desde a infância
Violência de gênero expõe urgência de repensar a educação dos meninos

Com uma formação atravessada por estereótipos de virilidade, poder e dominação, é urgente discutir a educação dos meninos sob uma perspectiva de gênero e respeito às mulheres. O recente caso do estupro coletivo de uma jovem de 17 anos no Rio de Janeiro evidenciou o quando a agressividade e a violência contra a mulher tem sido naturalizada e ensinada. Pensar a educação dos meninos vai além da pedagogia, pois é preciso romper com padrões históricos e culturais para criar uma geração capaz de construir vínculos baseados em respeito, equidade e responsabilidade social.
"A construção tradicional da masculinidade muitas vezes associa o ser homem a força, controle, domínio e invulnerabilidade emocional. Meninos aprendem que demonstrar tristeza, medo ou fragilidade pode ser sinal de fraqueza, favorecendo a repressão emocional. Assim, quando emoções como frustração, rejeição ou insegurança não encontram formas saudáveis de expressão, eles podem se manifestar com raiva, agressividade ou necessidade de reafirmação de poder, especialmente em relações afetivas", explica a psicóloga e docente do Centro Universitário UniRuy, Barbara Guimarães.
E tais comportamentos violentos e machistas muitas vezes são ensinados ainda na primeira infância, com comentários que parecem inocentes e sem pretensão. "Houve uma situação inesquecível para mim: na escola de meu filho, as crianças com 4 e 5 anos, um garoto disse que a 'barriguinha' estava doendo e o pai deu uma baixa no menino no meio do pátio, dizendo que era para ele 'falar como homem', porque o que ele tinha era uma 'barriga'. Era uma criança, mas essa forma de criação é naturalizada e está presente até no mínimo detalhe", reflete a relações públicas Helena Freire de Carvalho, mãe do Gabriel (13).
Helena explica que o discurso na criação de seu filho é de empatia e respeito, mas as pressões sociais para criar meninos de forma "mais dura" ou "menos sensível" tornam isso ainda mais difícil. "Redobra o nosso trabalho na criação. Na educação doméstica buscamos desconstruir a cultura machista, mas nos ciclos sociais o papo é outro. Precisamos conversar sobre a fala de um colega ou do pai de um colega, por exemplo, o tempo todo fazendo esse exercício de gerar reflexão sobre o que se escuta, porque muito do que ele ouve não é correto, admissível ou mesmo dentro da lei", explica a mãe.
A escola, argumenta Helena, também tem sido muito importante nesse processo, realizando trabalhos onde os estudantes precisam pesquisar sobre atletas brasileira e a poesia de mulheres negras brasileiras, além de discutirem sobre os direitos humanos, "o que amplia o espaço para discutir igualdade de gênero, respeito e convivência", aponta. Dentro do ambiente escolar, a prática de debates e rodas de conversa sobre igualdade de gênero, respeito e violência contra a mulher é uma das ações mais necessárias, afirma a especialista em docência e comunicação, Ana Naiara Vicente de Góes, docente da Wyden.
No entanto, é inegável que ainda há muita resistência por parte dos pais e da comunidade escolar quando o assunto é igualdade de gênero ou educação sexual, por exemplo. "Muitas vezes devido a crenças culturais e/ou religiosas. Por isso é essencial que a escola tenha um diálogo aberto sobre a necessidade de orientar os mais jovens sobre esses assuntos, sempre trazendo evidências da importância desses temas para o desenvolvimento saudável", explica Ana Naiara.
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Políticas públicas e ações nas escolas da Bahia
O combate a discursos e comportamentos violentos contra a mulher se tornou um imenso desafio da educação - em casa e nas escolas. "É essencial entender que esse não é um debate só das mulheres. Os homens fazem parte desse debate e precisam se responsabilizar, fazer parte da luta. Em 2026, o combate à violência de gênero é o centro da nossa agenda na Secretaria da Educação (Sec) e dos debates nas escolas. Hoje, a Bahia tem um Documento Curricular Referencial da Bahia (DCRB) que orienta a rede para assegurar a educação em direitos humanos, que entre os temas integradores, está a relação de gênero e sexualidade", explica a titular da Sec, Rowenna Brito.
Criada numa parceria entre as Secretarias de Políticas para as Mulheres (SPM), da Educação (Sec), da Cultura (Secult) e a Coordenação de Juventude, a ação "Oxe, me respeite! Nas escolas" tem ampliado o pensamento crítico da comunidade escolar através de dinâmicas pedagógicas que questionam as normas sociais geradoras da desigualdade de gênero, com o objetivo de diminuir as violências contra meninas e mulheres. "Alcançamos mais de 600 escolas de nossa rede com esse projeto, fazendo oficinas e rodas de conversas, além da formação de professores e professoras", explica a secretária.
Este mês a Sec deu início ao "Dia M - Educação", que está mobilizando escolas de toda a rede estadual com atividades voltadas à promoção dos direitos femininos e prevenção da violência de gênero. Outra importante ação é a "Elas à frente", da SPM - que foi apresentada, na última quinta (12) na 70ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW70), da ONU, em Nova Iorque -, que atua tanto na prevenção à violência e na inclusão socioprodutiva, onde acompanha e incentiva instituições a implantar planos políticos de inclusão e autonomia para as mulheres.
Mãe de Felipe Gabriel (14) e pedagoga, Fernanda Melo dos Santos aponta que respeito envolve responsabilidade afetiva, obediência e aprender a ser. "Converso com meu filho sobre o assunto desde os 5, 6 anos, pois não podemos esperar a adolescência para falar sobre respeito e cuidado. Isso precisa ser falado desde a infância e hoje seguimos com diálogos abertos. Desde pequeno eu o incentivava a ajudar, proteger e cuidar, pois quero entregar um homem íntegro, respeitoso, corajoso e cuidadoso à sociedade. Hoje eu já colho os frutos: ele não me deixa carregar nada, protege as colegas e tem esse cuidado natural com as meninas", conta.
E nos dias de hoje, ainda há o agravante da internet, onde os meninos estão sujeitos a conceitos de comunidades como as do movimento red pill - grupos online que disseminam ódio contra mulheres, as tratando como inimigas ou inferiores -, o que exige uma atenção redobrada dos pais, "pois mexe diretamente na educação deles e pode fugir do nosso controle”, afirma o pai de Fernando (7) e mecânico de refrigeração, Antônio Fernando Santos Brandão. O pai explica que é muito importante saber como orientar os filhos em cada fase.
"Tem coisas que evito falar para não despertar curiosidade, mas tem outras que explico, sempre reforçando sobre o respeito que ele deve ter com as meninas, sobre não poder ficar tocando e etc. Ele próprio pergunta várias coisas e às vezes tenho que pensar bastante para encontrar a melhor forma de responder, o que acaba virando um aprendizado para mim também", explica o pai, recordando de quando, à poucos dias, o filho ouviu no jornal a expressão "parte íntima" e perguntou o que aquilo queria dizer.
A psicóloga Bárbara Guimarães aponta que a ideia de que os homens devem ter autoridade sobre as mulheres é algo muito difundido na cultura machista, e quando as mulheres exercem autonomia, por exemplo, recusando uma relação ou impondo limites, alguns homens podem ver isso como ameaça à própria identidade, prejudicando a saúde mental dos meninos. "A prevenção da violência de gênero acaba exigindo mudanças na socialização tanto dos meninos, que precisam de regulação emocional, respeito e responsabilidade nas relações, quanto das meninas, que precisam ter autonomia, autoestima e capacidade de estabelecer limites", orienta.
"É muito importante que as meninas saibam reconhecer o que é problemático", afirma a estudante de direito Leila Barbara Azevedo, madrasta da Júlia (13) e esposa de Daíse Abreu. "Educação é a base de tudo. Nós mostramos a realidade dentro de casa, sem esconder, para que ela saiba o que não deve aceitar e como merece ser tratada. Sempre deixamos claro que qualquer sinal de desrespeito ou agressão, ela deve cair fora e conversar com a gente. O diálogo é essencial. Nunca vamos recriminá-la pelas escolhas que tomar, mas jamais aceitaremos que ela permaneça em uma relação abusiva ou tóxica", afirma.
Evento do A TARDE discute protagonismo feminino
Sob o tema “Mulheres, Empoderamento e Segurança”, o Grupo A TARDE irá realizar, no dia 17 de março, a Conferência Mês da Mulher - Mulheres em Pauta. Reunindo mulheres que se destacam na liderança de diversos setores da sociedade baiana, o encontro será no auditório do Sebrae, no bairro do Costa Azul e exclusivo para convidados. Com a mediação da jornalista Patrícia Abreu, a conferência vai discutir o protagonismo feminino e os caminhos trilhados por mulheres que estão moldando o futuro da Bahia.
Entre as mulheres que irão subir no palco da conferência, estão as secretárias estaduais Rowenna Brito (Educação) e Neusa Cadore (SPM), as presidentes Suely Temporal da ABI, e Marise Chastinet da Juceb, assim como a delegada Juliana Fontes Barbosa, diretora do Departamento de Proteção à Mulher da Polícia Civil; a diretora comercial e de marketing da Ademi-BA e diretora da JVF Empreendimentos, Viviane Fonseca.
Também já confirmaram a presença a gerente de Educação Empreendedora do Sebrae, Janaina Neves; a gerente de relações institucionais da Braskem, Magnólia Borges; a coordenadora da Câmara da Mulher Empresária da Fecomércio-BA, Ana Alonso e a coordenadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM/UFBA), a professora Márcia Tavares.
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