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DECLÍNIO

Amargosa encerra São João sob cobranças e debate sobre esvaziamento

Foco das discussões gira em torno da percepção de baixo público na Praça do Bosque

Rodrigo Tardio
Por
Cenário de insatisfação começou a se desenhar meses antes do acendimento das fogueiras
Cenário de insatisfação começou a se desenhar meses antes do acendimento das fogueiras - Foto: Edson Andrade/Divulgação

Conhecida historicamente como um dos principais e mais disputados destinos do São João no interior da Bahia, a cidade de Amargosa, no Vale do Jiquiriçá, encerra os festejos de 2026 sob uma onda de debates e intensas cobranças de moradores, comerciantes e turistas.

O foco central das discussões gira em torno da percepção de esvaziamento da festa na Praça do Bosque nesta edição, contrastando diretamente com o crescimento expressivo de eventos em municípios vizinhos.

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O cenário de insatisfação começou a se desenhar meses antes do acendimento das fogueiras. O principal estopim para a perda de tração do turismo local foi o acentuado atraso na divulgação oficial da grade de atrações, por parte da gestão do prefeito Getúlio Sampaio (PT), que só ocorreu de forma robusta no início de maio — semanas após concorrentes diretas na preferência dos forrozeiros, como Santo Antônio de Jesus, terem anunciado shows com grande apelo de público.

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Impacto no comércio e turismo

Para ambulantes, comerciantes locais e proprietários de imóveis de aluguel por temporada, a demora na definição da programação gerou insegurança financeira e travou negociações estratégicas.

Sem saber o porte e o apelo das atrações, muitos turistas optaram por garantir estada em outras praças juninas. O erro de timing gerou um efeito dominó que culminou em uma visível redução no fluxo de visitantes nos primeiros dias de festa.

"Ficamos sem saber quanto investir em mercadoria. Quando a grade saiu, muitos dos clientes que costumavam alugar casas em Amargosa já tinham fechado contratos com outras cidades", relatou um comerciante local que preferiu anonimato.

Cronologia da crise

Para compreender como a principal festa do município chegou a este impasse em 2026, é preciso analisar o cronograma político e estratégico adotado pela gestão municipal ao longo dos últimos meses.

Início de abril de 2026

Cresce a ansiedade e a cobrança da população local e de redes de hotelaria pela divulgação das atrações, enquanto cidades rivais dão início às suas campanhas de marketing agressivas.

Protestos do setor econômico

09/04/2026

Ambulantes e microempresários protestam publicamente contra a falta de respostas da prefeitura, alegando que o atraso inviabiliza o planejamento e a captação de investimentos.

Lançamento e debate dos cachês

06/05/2026

A prefeitura lança oficialmente a festa em Salvador. O prefeito Getúlio Sampaio justifica a cautela e o formato da grade defendendo um teto de gastos e criticando cidades que "quebraram o protocolo" de responsabilidade fiscal com o Ministério Público para pagar cachês exorbitantes.

Abertura oficial

19/06/2026

O São João de Amargosa tem início celebrando também os 135 anos de emancipação do município, mas sob olhares atentos de analistas sobre a ocupação real da Praça do Bosque.

Responsabilidade fiscal x apelo popular

A justificativa da prefeitura para a composição da grade de 2026 — que trouxe nomes como Thiago Aquino, Tayrone, Santanna, o Cantador, Kátia e Aduílio e Fulô de Mandacaru — pautou-se na contenção de gastos e no cumprimento de metas fiscais em comum acordo com a União dos Municípios da Bahia (UPB) e o Ministério Público.

A estratégia da gestão municipal buscou balancear o orçamento, com um investimento estimado em R$ 9 milhões. A prefeitura optou por não competir em uma "guerra de cifras" com gestões que contrataram os artistas mais caros do mercado sertanejo e do piseiro no país.

Se por um lado a decisão preserva a saúde financeira do município e valoriza as vertentes tradicionais do forró, por outro, esbarrou na forte concorrência e na exigência de um público habituado a grandes produções de massa.

O ápice de público da festa concentrou-se na segunda-feira, dia 22 de junho, registrando cerca de 70 mil pessoas na Praça do Bosque.

Apesar do fôlego na reta final, o balanço geral do período acendeu o alerta vermelho na cidade, já que o planejamento antecipado deve ser peça-chave se Amargosa quiser reaver, em 2027, o protagonismo absoluto que historicamente ostenta no São João da Bahia.

Contraste

Um levantamento do Ministério Público apontou salto de 204% nos gastos com a festa junina em três anos, enquanto menos de 3% da população local, por exemplo, tem acesso à rede de esgoto.

De um lado, a prefeitura não tem poupado recursos para consolidar o município como um dos principais destinos juninos do estado. De outro, os indicadores sociais e de infraestrutura expõem carências históricas na qualidade de vida da população.

Enquanto a economia local se aquece com o turismo, a falta de serviços essenciais como água tratada e esgotamento sanitário acende o alerta das autoridades de controle.

Painel de Transparência

Dados do Painel de Transparência dos Festejos Juninos, mantido pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), revelam que o orçamento destinado ao São João de Amargosa saltou de 2 milhões de reais, em 2022, para 6,1 milhões de reais no último ano.

O crescimento expressivo de 204% no período, posicionou a cidade entre as 15 que mais gastaram com o evento em todo o estado. Desse montante milionário, a maior parte — cerca de 5,5 milhões de reais — saiu diretamente dos cofres do próprio município, sendo o restante complementado por verbas estaduais para o pagamento de 63 atrações.

Teto de gastos

O teto de gastos estipulado para este ano pela União dos Municípios da Bahia (UPB) e pelo MP-BA, fixado em 700 mil reais por contratação artística, joga luz sobre os altos cachês praticados na cidade.

No ano passado, a apresentação da cantora Simone Mendes custou 800 mil reais aos cofres públicos, valor que ultrapassaria o limite atual.

Outros investimentos expressivos incluíram as apresentações das bandas Calcinha Preta, por 490 mil reais, Iguinho e Lulinha, por 400 mil reais, além de Unha Pintada e Léo Foguete, que receberam 350 mil reais cada.

Para a edição de 2026, embora os valores ainda não tenham sido divulgados, a prefeitura já confirmou nomes de peso como João Gomes, Elba Ramalho, Santanna e Flávio Leandro, sinalizando a tendência de manutenção dos custos elevados.

Rota de colisão

Os investimentos no chamado "São João de luxo", contudo, colidem com a realidade da infraestrutura urbana relatada pelo Instituto Água e Saneamento. De acordo com a organização socioambiental, Amargosa ainda contabiliza 9.452 habitantes sem acesso à água potável.

O panorama do esgotamento sanitário se mostra ainda mais crítico: apenas 2,1% dos moradores são atendidos pela rede de coleta de esgoto.

O índice local fica drasticamente abaixo da média registrada na Bahia, que é de 41,4%, e da média nacional, de 59,7%. Na prática, os dejetos de mais de 36 mil cidadãos não recebem o tratamento adequado.

Crise

A crise na área de serviços básicos estende-se também à gestão ambiental de resíduos sólidos. Recentemente, a administração municipal foi obrigada a encerrar as atividades do lixão da cidade após uma rigorosa recomendação do Ministério Público.

Em vistorias anteriores, o promotor de Justiça Julimar Barreto constatou que a situação do local colocava em risco iminente a saúde da população e o meio ambiente, descrevendo o cenário como insalubre, marcado pela presença de vetores e frequentado por catadores de materiais recicláveis em condições degradantes.

Apesar de ter assinado Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) anteriores, fica nítido o descumprimento sistemático das obrigações legais em relação ao lixo.

Terceirização

Um contrato oficial, firmado no mês de maio, delegou à empresa 'Peixe Empreendimentos Artísticos Ltda' a missão de captar patrocínios no setor privado.

O serviço, contudo, vai ter um custo considerável aos cofres públicos: uma taxa de sucesso de 20% sobre cada centavo arrecadado. O acordo estabelece um teto ambicioso de R$ 5 milhões em captações. Caso a meta seja atingida, a empresa embolsará R$ 1 milhão apenas em comissões.

O arranjo causou estranheza nos bastidores políticos locais, já que o município possui estrutura administrativa própria, com secretarias e departamentos dedicados ao desenvolvimento e à cultura que, teoricamente, seriam aptos a gerir a marca do São João sem a necessidade de intermediários.

Fiscalização e blindagem jurídica

Para blindar o acordo de questionamentos jurídicos e órgãos de controle, o termo contratual exige a apresentação de relatórios periódicos por parte da contratada e veda expressamente cobranças acima dos valores praticados pelo mercado.

A fiscalização dos repasses vai caber à Secretaria de Administração e Finanças, que terá a tarefa de conferir se a comissão de 20% corresponde exatamente aos depósitos efetuados via Documento de Arrecadação Municipal (DAM). A empresa atuará sem vínculo empregatício, mantendo a autonomia do ente privado enquanto opera no centro da arrecadação pública junina.

O cenário consolida uma tendência que divide opiniões na região: a de que a viabilidade das grandes festas populares depende, cada vez mais, da lógica do comissionamento. Se a estratégia resultará em eficiência ou em desgaste político, os próximos relatórios financeiros dirão.

Escala de gastos

A escalada de 204% nos gastos com o São João de Amargosa entre 2022 e 2025, o qual passou de R$ 2 milhões para R$ 6,1 milhões, posicionou o município entre as 15 cidades baianas com maior volume de investimentos no período junino.

O dado que mais chama a atenção de especialistas em gestão pública é a origem dos recursos: do total investido no último ano, R$ 5,5 milhões (mais de 90%) saíram diretamente do tesouro municipal, com apenas R$ 600 mil oriundos de repasses estaduais.

Cachê acima do teto

O volume de recursos próprios injetados na festa — que contou com 63 atrações — levanta discussões sobre a priorização de políticas públicas.

Embora o São João seja um motor econômico inegável para o comércio e turismo locais, o montante é visto por críticos como desproporcional para uma cidade que ainda enfrenta gargalos estruturais em áreas essenciais, como saúde e infraestrutura.

Para completar, o planejamento financeiro ganhou um capítulo polêmico com a contratação da cantora Simone Mendes por R$ 800 mil. O valor supera o teto de R$ 700 mil estabelecido em um acordo recente entre o MP-BA e a União dos Municípios da Bahia (UPB), criado justamente para evitar o colapso das finanças municipais por conta de cachês astronômicos.

A reportagem procurou o prefeito de Amargosa, Getúlio Sampaio, o qual nega o esvaziamento da festa e garante que o município recebeu público superior ao ano passado.

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Amargosa Esvaziamento Getúlio Sampaio São João

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