Com o São João se aproximando, período em que o forró ganha ainda mais força no Nordeste, cresce também a necessidade de dar visibilidade às mulheres que vêm ocupando e reivindicando espaço em um cenário historicamente dominado por homens.
De pioneiras como Marinês e Clemilda, passando por vozes como Elba Ramalho e Anastácia, até as novas sanfoneiras, cantoras e produtoras baianas, o protagonismo feminino no forró é marcado por resistência, legado e transformação.
Mais do que presença, as mulheres foram responsáveis por moldar os caminhos do gênero ao longo das décadas, ajudando a consolidar o forró mesmo diante de um mercado historicamente dominado por homens.
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Na Bahia, esse movimento ganha contornos próprios. Entre palcos, bastidores e produções independentes, mulheres seguem ampliando sua presença no forró pé de serra, ainda que enfrentem desigualdades. Nesse cenário, artistas, produtoras e coletivos femininos vêm fortalecendo redes de apoio e criando alternativas para garantir visibilidade e continuidade no gênero.
Em entrevista ao portal A TARDE, cantoras, instrumentistas e produtoras refletem sobre suas trajetórias, os desafios enfrentados no mercado e a construção de um espaço mais igualitário dentro do forró.
Inspiração e continuidade do legado feminino
O protagonismo feminino no forró atravessa gerações e se sustenta em um legado construído com coragem, talento e resistência.
Para a cantora Luana Ingry, esse legado não apenas inspira, mas orienta sua trajetória artística. Com um trabalho voltado ao forró pé de serra, a artista soteropolitana transita por ritmos como xote, baião, coco e arrasta-pé, buscando preservar a identidade do gênero ao mesmo tempo em que dialoga com as transformações do cenário musical contemporâneo.
Marinês e Clemilda são grandes inspirações para mim, principalmente pela coragem, pioneirismo, força, determinação e talento. Elas abriram caminhos em um cenário historicamente masculino, e isso me move profundamente.
A artista destaca que essa herança vai além da admiração e se traduz em prática. “Busco trazer esse legado para o meu trabalho, tanto na postura quanto na identidade artística”.
Essa construção de referências também está diretamente ligada à formação musical das artistas. Luana relembra que cresceu cercada por nomes fundamentais do gênero. “Venho de uma família muito musical, então cresci ouvindo grandes nomes como Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Elba Ramalho e Marinês”.
Ao aprofundar seus estudos, ampliou ainda mais esse repertório. “Mergulhei na obra de artistas fundamentais como Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, João Silva, Antônio Barros e Cecéu, Anastácia, Clemilda, Antônio José, entre tantos outros. São artistas que não apenas construíram o gênero, mas traduziram com sensibilidade a cultura nordestina”.
A mesma conexão com o passado também atravessa a trajetória da cantora baiana Emili Pinheiro, nascida em Jaguaquara, no interior do estado. Vice-campeã do FENFIT 2024 (Festival Nacional de Forró de Itaúnas), onde também foi premiada pela melhor letra, a artista encontrou no forró suas primeiras referências ainda na infância.
“Comecei a mergulhar nesse universo a partir dessas bandas que eu via na infância. Logo depois vieram os grandes clássicos: Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Trio Nordestino, Adelmario Coelho”, disse a cantora.

Para ela, o reconhecimento das mulheres na história do gênero é essencial. “Vieram também Elba Ramalho, Marinês, Anastácia, uma galera que muitas vezes fica à margem da história”.
Emili reforça que esse legado feminino é o que legitima a presença das novas gerações. “São mulheres icônicas que construíram e ainda constroem o forró, cujos legados permitiram que eu e outras mulheres ocupássemos os espaços que ocupamos hoje, uma cena majoritariamente masculina, mas na qual seguimos firmes, com muita força e garra, fincando a nossa bandeira”.
A artista também destaca a importância de revisitar essas trajetórias. “Comecei a fazer uma pesquisa mais focada na história das mulheres, para reconhecer esse legado e essa trajetória a partir das suas obras”.
Criada em 2013 pela cantora baiana Daisy Soares, da banda A Patroa, se consolidou como um dos nomes de destaque na cena do forró na Bahia. Com formação que inclui Paulinha na guitarra, o grupo constrói sua identidade a partir de uma proposta voltada ao empoderamento feminino.
Nesse contexto, Daisy Soares, vocalista da banda, destaca que o impacto de pioneiras como Marinês e Clemilda se traduz em motivação diária para permanecer no mercado. “Abrir caminhos nunca é uma tarefa fácil, e elas fizeram isso com uma coragem admirável. O legado que Marinês e Clemilda nos deixaram é fruto de muita raça”.

Para ela, conhecer essas histórias fortalece sua atuação. “Ouvir suas canções e conhecer as dificuldades que enfrentaram me dá o combustível necessário para não desistir. Elas provaram que o nosso lugar é no palco”.
Jornalista, produtora musical e pesquisadora de forró tradicional e música nordestina, DJ Preta é fundadora do projeto ForróSound e atua como DJ open format em Salvador, além de produzir edits e remixes de músicas nordestinas e trabalhar como produtora executiva na iniciativa.
A DJ também destaca a importância histórica dessas mulheres, especialmente a partir de um olhar de pesquisa e documentação. “Quando falamos de mulheres que cantam e fazem forró, cito como compositoras Rita de Cássia, Anastácia, Cecéu e Marinês”.

Ao estudar o tema mais profundamente, encontrou conexões pessoais com essas trajetórias. “Enquanto escrevi o Dossiê das Mulheres do Forró encontrei várias histórias louváveis, e certamente a que mais me identifico é com Marinês, Rainha do Xaxado”.
Essa identificação vai além da música e toca questões de identidade e autonomia. “Marinês era uma mulher forte, de fibra e muita fé na espiritualidade, que teve vivências religiosas semelhantes às que eu tive e principalmente uma mulher que teve uma sabedoria gigantesca em se separar do marido e continuar trabalhando, seguindo sua identidade, compondo canções expondo suas ideias, e dando voz a composições de outras mulheres levantando a voz da independência e autosuficiencia feminina desde os anos 1970”.
Desigualdade estrutural e os desafios do mercado
Apesar do avanço da presença feminina no forró, o cenário ainda revela barreiras profundas que atravessam gerações. A desigualdade de oportunidades, especialmente nos circuitos de shows e festivais, segue como um dos principais entraves para artistas que buscam consolidar suas carreiras no gênero.
Para Luana Ingry, essa realidade é evidente e estrutural. “Ainda precisamos avançar bastante. O mercado do forró continua sendo predominantemente masculino, e isso se reflete diretamente nas oportunidades”.
A artista aponta que essa desigualdade se manifesta de forma concreta nas programações. “Basta observar a maioria das grades de festivais para perceber a predominância masculina. Para artistas independentes, esse cenário é ainda mais desafiador”.
Essa disparidade também se reflete em aspectos financeiros e estruturais da carreira. “Existe um desequilíbrio evidente. A maioria dos grandes festivais apresenta programações compostas majoritariamente por homens ou por bandas lideradas por homens”.
Luana ainda destaca que as dificuldades vão além da visibilidade. “Além da menor presença feminina, há também diferenças nos valores de cachês e maior dificuldade de acesso a investimentos e patrocínios. Isso impacta diretamente na estrutura dos shows, na qualidade das produções e na possibilidade de circulação dos projetos. É uma questão estrutural que precisa ser enfrentada com mais seriedade por todo o setor”.
Mesmo quando conseguem espaço, a pressão é significativa. “Fiquei extremamente feliz e honrada em integrar a programação de um festival no Sul da Bahia, esse ano, como a única mulher na grade. Ao mesmo tempo, encarei como um grande desafio e uma responsabilidade significativa representar tantas outras artistas talentosas do Forró da Bahia”.
A experiência de Daisy Soares revela que os desafios também se manifestam no cotidiano profissional e nas relações de trabalho.
A resistência aparece de várias formas: na exclusão das grades de grandes shows, no assédio persistente e até no preconceito quando percebem que sou eu quem comando as decisões e não um empresário por trás.
Ela relata ainda situações que evidenciam o controle sobre o corpo e a imagem das mulheres. “Já passei por situações absurdas, como ser orientada a usar calças em um show corporativo para não gerar 'distração' ou ciúmes”. Além disso, aponta a desconfiança em relação às mulheres instrumentistas. “A nossa guitarrista frequentemente é ‘fiscalizada’ se realmente está tocando ou dublando”.

Para Daisy, a desigualdade é visível e mensurável. “A desigualdade não é apenas uma percepção, ela é estatística e nítida. Se você observar as grades dos grandes festivais de forró, verá que o número de mulheres é assustadoramente baixo — em muitos eventos, simplesmente não existe nenhuma representatividade feminina”.
E completa: “É visível que o mercado ainda prioriza o protagonismo masculino, deixando as vozes femininas de fora dos horários de pico e dos palcos principais”.
A DJ Preta reforça esse diagnóstico a partir de sua vivência na cena cultural e nos bastidores. “Queria acreditar, mas a realidade não me permite esse devaneio. Salvador tem bandas formadas apenas por mulheres cantando forró, mas as artistas sempre ficarão presas ao circuito comercial, que é quem diz se a mulher está preparada para seguir carreira ou não”.

Ela também chama atenção para a falta de reconhecimento e apoio.
Já vi muitas artistas excelentes desistindo da carreira enquanto homens artistas medianos e até medíocres seguem, com apoio político, com apoio de seus amigos. E as mulheres, mesmo que estejam em maior número, continuam ficando pra trás.
Além disso, aponta situações recorrentes que dificultam a permanência das mulheres no mercado. “Cachês baixos, técnicos prejudicando o som, produtores de palco interrompendo as performances, artistas de outras bandas assediando, tudo isso acaba afastando muitas mulheres da vida artística”. Para ela, a estrutura do setor ainda precisa mudar. “Isso me traz a reflexão do quanto precisamos de mais mulheres produzindo e trazendo as mulheres a frente”.
A cantora Emili Pinheiro também observa essa desigualdade, especialmente na cena mais comercial. “Ainda há muita dificuldade para as mulheres ocuparem certos espaços dentro da cena do forró, sobretudo na cena mais comercial”.
Ela destaca que essa disparidade é perceptível nos grandes eventos. “Nos shows e festivais, a gente percebe que esses espaços ainda são majoritariamente ocupados por homens”.
Para Emili, o cenário está em transformação, mas ainda de forma lenta. “Não acredito que haja igualdade de oportunidades entre homens e mulheres nos circuitos de shows e festivais. Acho que é um caminho que vem sendo construído, com portas e janelas se abrindo, mas ainda de forma um pouco tímida”.
E conclui: “A gente precisa melhorar mais as chances e oportunidades de atuação para as mulheres dentro desses espaços”.
Protagonismo, resistência e novos caminhos no gênero
Se o diagnóstico das desigualdades ainda é evidente, o movimento de transformação liderado por mulheres no forró também ganha cada vez mais força.
Entre estratégias de resistência, redes de apoio e novas formas de ocupação, artistas vêm construindo caminhos que reposicionam o papel feminino dentro do gênero, não apenas como intérpretes, mas como protagonistas em todas as etapas da produção musical.
Para Luana Ingry, esse avanço já pode ser percebido na prática, especialmente na diversidade de funções ocupadas por mulheres. “A cada ano conheço novas artistas - cantoras, instrumentistas, sanfoneiras - e percebo um crescimento consistente e potente desse movimento feminino dentro do forró”.
Esse fortalecimento também passa pela estrutura das equipes. “Procuro incentivar isso também dentro do meu próprio trabalho. Minha equipe é formada boa parte por mulheres talentosas: a direção musical é assinada pela multi-instrumentista Carol Peppa; na percussão, conto com Mary Santana; e na guitarra, Ayala São Luis, minha produção em sua maioria é formada por mulheres”.

Esse movimento coletivo dialoga diretamente com a criação de projetos que colocam a mulher no centro. Daisy Soares, à frente da banda A Patroa, transforma esse protagonismo em conceito artístico.
“A Patroa é a mulher que manda. É a figura empoderada que lidera seu próprio projeto, participando ativamente de cada etapa e carregando a representatividade feminina por onde passa”. A proposta vai além da estética e se posiciona como enfrentamento. “Mais do que um nome, é um símbolo de força e liderança”.
Para ela, ocupar esses espaços é também um gesto político.
Precisamos de mais espaço, mais respeito às nossas produções e menos barreiras para as mulheres que, assim como eu, decidiram assumir o comando de suas carreiras. A estrada, de fato, não é fácil, mas o amor pelo forró nos transporta para outra atmosfera e faz cada esforço valer a pena.
A DJ Preta amplia essa discussão ao destacar a importância das mulheres também nos bastidores e na produção cultural. “Isso me traz a reflexão do quanto precisamos de mais mulheres produzindo e trazendo as mulheres a frente. Eu vejo que o futuro do forró é feminino, e está alinhado às questões de gênero”.
Para ela, a construção desse novo cenário passa pela criação de ambientes mais seguros e colaborativos. “Daí a importância de se trabalhar com produtoras mulheres e que vão chegar junto para realizar a entrega da melhor forma possível, principalmente para as artistas”.
Além disso, ela observa mudanças no comportamento do público, que vêm impulsionando esse protagonismo. “As mulheres são maioria do forró. E temos uma mudança geracional que está colocando as frequentadoras dos bailes mais interessadas nos trabalhos femininos”. Esse movimento, segundo ela, fortalece iniciativas como pesquisas e projetos voltados à valorização das mulheres no gênero.
A cantora Emili Pinheiro também percebe esse impacto direto na relação com o público e na construção de novas referências.
O público tem sido muito receptivo e carinhoso com o trabalho das mulheres. É um trabalho que impacta outras mulheres de forma muito forte, fazendo com que elas se sintam representadas, legitimadas, vistas.

Esse retorno, segundo ela, evidencia a importância da presença feminina no palco. “Para além dessa receptividade, existe a importância de nós, mulheres, estarmos ali, fazendo o nosso trabalho na arte, no palco, onde quisermos estar”.
Emili ainda destaca o efeito multiplicador desse protagonismo. “Muitas mulheres vêm falar comigo e dizem: ‘Poxa, que massa, fico muito feliz, isso me inspira’. Algumas já me contaram que começaram a tocar ou cantar forró depois de me verem no palco”. Para ela, esse movimento é fundamental para o futuro do gênero.
A construção desse novo cenário também passa por mensagens de incentivo e continuidade. Luana Ingry reforça a importância da coletividade e da persistência. “Acreditem em vocês e não desistam. Busquem apoio, criem parcerias, troquem experiências e invistam constantemente em conhecimento e qualificação”. E completa: “Quando uma mulher avança, ela abre caminho para outras”.
Daisy Soares segue na mesma linha ao incentivar novas gerações a ocuparem seus espaços. “Sintam a música, experimentem o palco e validem sua trajetória ocupando seu espaço com garra. A batalha é diária, mas ver a força da mulher no forró é recompensador”.
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