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DIA DA GESTANTE

Luto antecipatório: o desafio de gestar enquanto se enfrenta a possibilidade da perda

Psicóloga Laís Cabalero relata como é viver uma gravidez que não segue o roteiro do “final feliz”

Victoria Isabel
Por
Imagem ilustrativa da imagem Luto antecipatório: o desafio de gestar enquanto se enfrenta a possibilidade da perda
Foto: Maginific

Quando se fala em gravidez, a imagem mais comum é a de uma mulher preparando o enxoval, organizando o quarto e aguardando a chegada de um bebê saudável. Mas nem todas as gestações seguem esse roteiro.

Para algumas mulheres, a descoberta da gravidez vem acompanhada, ainda durante o pré-natal, de um diagnóstico grave ou de um prognóstico reservado para o bebê. A partir daí, a gestação passa a ser atravessada por sentimentos que podem parecer contraditórios: amor e medo, esperança e angústia, expectativa e luto.

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No mês da gestante, com data oficial celebrada em 15 de agosto, também é necessário olhar para as mães cujas histórias fogem do cenário idealizado da gravidez.

“O roteiro perfeito” foi interrompido

A psicóloga, autora e fundadora do Instituto Vida Maria, Laís Cabalero, viveu essa experiência. Na 12ª semana de gestação, recebeu um diagnóstico grave sobre a filha, Maria, que mudo completamente sua experiência.

“Receber o diagnóstico na 12ª semana foi como ver o "roteiro perfeito" ser rasgado. A neurociência explica que o cérebro entra em um estado de confusão neurobiológica: o corpo se prepara para nutrir, enquanto a mente precisa processar a despedida.”

Diante da possibilidade de perder a filha, Laís decidiu não reduzir Maria ao diagnóstico.

“Eu precisei escolher entre a "lente da biologia", que chamava minha filha de "inviável", e a lente da fé, que me mostrava que ela tinha uma missão na terra. Decidi que Maria não seria um diagnóstico, mas minha filha amada enquanto seu coração batesse e a sua voz ecoaria como um legado.”

Maria nasceu em 22 de março de 2020 e viveu por 20 minutos.

“E talvez uma das coisas mais importantes que eu tenha aprendido seja que vinte minutos não determinam o tamanho de uma maternidade.”

Para Laís, a maternidade começou ainda durante a gestação e não terminou com a morte da filha.

Eu fui mãe de Maria durante toda a gestação. Fui mãe enquanto esperava. Fui mãe enquanto tive medo e angústia. Fui mãe enquanto a segurava nos braços. E continuo sendo mãe dela depois de sua partida.

O luto antes mesmo da despedida

Segundo Laís, quando existe a possibilidade concreta de uma perda, a mulher pode começar a vivenciar o chamado luto antecipatório. Ela continua criando vínculo com o bebê, imaginando o futuro e vivendo a maternidade, mas simultaneamente precisa lidar com a possibilidade da despedida.

“Enquanto a vida crescia dentro de mim, eu precisava conviver com as possibilidade da morte, essa é a verdadeira dualidade entre a vida e a morte.”

Segundo Laís, é possível amar profundamente um bebê e, ao mesmo tempo, sentir medo de perdê-lo. Por isso, o acolhimento precisa permitir que sentimentos aparentemente contraditórios coexistam.

“Uma mulher pode amar profundamente seu bebê e sentir medo. Pode desejar acreditar que tudo ficará bem e, ao mesmo tempo, precisar falar sobre a possibilidade de que não fique. Acolher emocionalmente também é permitir essa ambivalência.”

Laís Cabalero
Laís Cabalero - Foto: Reprodução/Redes sociais

Principais impactos psicológicos:

  • Medo e ansiedade: a gestação passa a ser marcada pela incerteza e pelo medo constante da perda.
  • Luto antecipatório: a mulher começa a viver a possibilidade da despedida enquanto ainda gesta e ama seu bebê.
  • Culpa e impotência: podem surgir sentimentos de fracasso, autorresponsabilização e perda de controle.
  • Ruptura do futuro imaginado: não está ameaçada apenas a vida do bebê, mas todos os sonhos e projetos construídos para aquela família.
  • Impacto conjugal e familiar: cada pessoa vivencia a dor de uma forma; isso pode gerar dificuldades de comunicação, afastamento emocional, conflitos e, em alguns casos, contribuir para uma ruptura conjugal.

Quando a sociedade espera apenas felicidade

A expectativa de que toda gravidez seja necessariamente um período de felicidade pode aumentar ainda mais o sofrimento de mulheres que recebem diagnósticos difíceis.

“Esse talvez seja um dos maiores silêncios em torno da maternidade.”

Enquanto familiares e amigos podem falar sobre enxoval, quarto e chá de bebê, algumas mulheres estão lidando com perguntas muito diferentes:

Será que meu filho vai sobreviver?

Laís afirma que frases ditas com boa intenção, como “não pense negativo”, “você vai ter outro”, “vai dar tudo certo” ou “você precisa ter fé”, podem acabar silenciando a dor.

“Saúde mental não é obrigar alguém a sentir apenas emoções positivas. É oferecer segurança para que até as emoções mais difíceis possam ser nomeadas e acolhidas.”

Ela também chama atenção para outras experiências pouco discutidas, como mulheres internadas durante meses, gestações de alto risco e mães que acompanham os filhos em unidades neonatais.

Imagem ilustrativa da imagem Luto antecipatório: o desafio de gestar enquanto se enfrenta a possibilidade da perda
Foto: Maginific

Quem cuida emocionalmente da mãe?

Para Laís, o cuidado com a saúde mental precisa acompanhar a assistência médica desde o diagnóstico.

“Quem cuida emocionalmente da mulher enquanto todos estão cuidando do diagnóstico do bebê?”

Ela defende que, além da investigação e do tratamento médico, é necessário oferecer suporte psicológico à mulher e à família.

“Falta humanidade e dignidade nas condutas técnicas de acolhimento a perda gestacional e neonatal. Muitas vezes, a notícia é dada de forma fria em salas impessoais.”

A psicóloga também destaca a necessidade de capacitar profissionais que atuam nas maternidades para comunicar notícias difíceis e estabelecer protocolos de atendimento diante da perda gestacional e neonatal.

A forma como a mulher é acolhida, as palavras utilizadas, o respeito à existência do bebê, a possibilidade de despedida e o cuidado com as memórias podem influenciar a maneira como essa experiência será vivenciada no processo de luto.

“Humanizar a assistência não muda o desfecho de todas as histórias, mas pode mudar profundamente a maneira como uma mulher atravessa aquilo que viveu.”

Da experiência pessoal ao acolhimento de outras mulheres

A experiência com Maria também mudou a trajetória profissional de Laís. A psicóloga passou a atuar no acolhimento de mulheres que enfrentam perdas gestacionais e situações de vulnerabilidade.

“A psicologia me deu ferramentas para compreender o luto. A minha história me deu um propósito para transformar vidas e impactar mulheres e bebês.”

A experiência também deu origem ao livro “Além da Dor: transformando a perda em propósito” e ao Instituto Vida Maria.

Minha história não precisava terminar no lugar onde a dor me encontrou, ali começou meu maior propósito de vida.

O Instituto Vida Maria atua em Salvador e Brasília e busca atender gestantes em situação de risco e vulnerabilidade social, oferecendo atendimento multiprofissional e assistência ao pré-natal físico e emocional.

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