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ENDIVIDAMENTO E ANSIEDADE

O mecanismo do vício: por que o cérebro reage às bets como uma droga

Entenda o vício em jogos, os sinais de alerta e onde buscar ajuda

Priscila Dórea
Por Priscila Dórea
Endividamento e ansiedade: os bastidores sombrios das apostas online
Endividamento e ansiedade: os bastidores sombrios das apostas online - Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

O Brasil vive hoje uma contradição inquietante: enquanto as apostas esportivas se popularizam e ganham força com a Copa do Mundo, segue crescendo o número de pessoas viciadas em jogos. Estudos da Universidade de São Paulo (USP) apontam que mais de 2 milhões de brasileiros sofrem com o vício – conhecido como ludopatia – em grau severo.

A ludopatia endivida, abala relações e intensifica quadros de ansiedade e depressão. Na Bahia, grupos de apoio e profissionais de saúde relatam aumento da procura por tratamento, enquanto campanhas publicitárias estreladas por jogadores e influenciadores associam as famosas “bets” à diversão e lucro fácil.

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“Venho observando e os dados epidemiológicos da Bahia também apontam para idade entre 18 e 35 anos, com influência direta pela cultura digital e uso massivo de smartphones. Pacientes que antes chegavam ao consultório por queixas de ansiedade ou depressão, hoje revelam que o gatilho da crise foi o endividamento e a compulsão por apostas digitais”, explica a psicóloga clínica e hospitalar, Catarina Pina Camandaroba, que atende no Hospital Mater Dei Emec (Feira de Santana).

Desde a infância, Matheus transformava qualquer brincadeira em disputa. Ele começou a se envolver com apostas em dinheiro por volta dos 14 anos, quando fez amigos que apostavam em esportes em bancas de rua. Ele considerou a experiência fascinante, quis apostar mais e não via a hora de ter idade para acessar as apostas online.

“No dia seguinte ao meu aniversário de 18 anos, baixei a Bet365. Peguei os R$ 150 que ganhei de presente e coloquei tudo na plataforma. A partir daí, as apostas viraram parte da minha vida e o valor das apostas cresceu”, recorda.

A neurobiologia reconhece o funcionamento cerebral de um adicto por jogos funciona de forma idêntica à dependência química. “É o mecanismo da recompensa intermitente: o cérebro da pessoa que está dependente do jogo é movido pela liberação massiva de dopamina pela expectativa do ganho, e não pelo ganho em si”, explica Catarina.

No caso de Matheus, foi quando perdeu R$ 3 mil no cartão de crédito que o primeiro alerta surgiu e ele tentou parar, mas acabou voltando a apostar depois de recuperar o dinheiro. É um ciclo: você perde, para, recupera e aposta de novo.

A namorada foi a primeira a enxergar o problema, pois os pais não entendiam, de fato, o que estava acontecendo. “Quando perdi R$ 15 mil, ela terminou comigo. Depois perdi R$ 40 mil, dinheiro que havia pego emprestado com colegas de trabalho prometendo devolver a mais. Eu mentia muito, acreditando no dinheiro fácil”, conta Matheus.

Ele pediu ajuda à família para pagar e devolver o dinheiro aos poucos, mas voltou a apostar. "Então perdi cerca de R$ 200 mil, quando enganei mais de 40 pessoas e me envolvi com agiotas. Passei dois meses praticamente trancado no quarto, perdi mais de 20 quilos. Cheguei a cogitar tirar minha vida. Foi o fundo do poço", relata o jovem.

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Busca por ajuda

Os pais de Matheus precisaram vender um imóvel para pagar parte da dívida e ele começou a participar dos encontros do JA. “Foi no programa que encontrei uma saída e consegui reconstruir minha vida”, desabafa Matheus, que participa das reuniões a cerca de oito meses.

Os Jogadores Anônimos (JA) foi fundado nos EUA em 1957, inspirado em irmandades como dos Alcoólicos e Narcóticos Anônimos, com uma recuperação que se baseia em 12 passos. Jairo (nome fictício) frequenta o JA há 16 anos, após perder um emprego estável, se afastar da família e amigos, e cogitar suicídio ao entrar em um caos financeiro com o vício em bingos, jogo do bicho e loterias.

“O primeiro passo é o mais importante: reconhecer que a vida ficou ingovernável e se render. Sem isso, a pessoa corre risco de se autodestruir ou ser internada. Não existe cura definitiva para a ludopatia, mas existe controle. Esse controle vem do apoio coletivo, das reuniões e da troca de experiências. Vemos pessoas desesperadas, cogitando o suicídio. Nosso papel é mostrar que a vida tem jeito, desde que haja vontade de mudar e seguir o processo de recuperação”, afirma Jairo.

Apostas esportivas

Matheus sempre apostou em jogos de futebol e conta que não tem mais vontade de apostar, mas a vigilância emocional para conter a compulsão é diária. O que não é fácil, pois é comum atrelar à paixão por futebol às apostas. “E isso é potencializado por grandes eventos, como a Copa do Mundo. O marketing das bets e a publicidade massiva nesse período valida socialmente esse comportamento”, explica Catarina Pina Camandaroba.

O fato é que as apostas recreativas tendem a se tornar um transtorno quando deixam de ocupar um papel secundário na vida, aponta a psicóloga Bárbara Guimarães, docente da Uniruy.

“É perigoso quando elas se tornam uma das principais formas de lidar com emoções, frustrações ou expectativas. O problema não está apenas no ato de apostar, mas na relação que a pessoa estabelece com esse comportamento. E eventos como a Copa normalizam as apostas e aumentam a exposição de pessoas que já apresentam fatores de risco”, alerta Bárbara.

Compulsão

Jogador compulsivo – de ronda, bingo, caça-níqueis, cartas – desde os 14 anos, Clodoaldo (nome fictício) afirma que “vivia para jogar e jogava para viver”. No JA há 12 anos, 11 deles sem jogar, ele explica que as recaídas lhe ensinaram o que evitar.

“O programa me deu equilíbrio e esperança, e agora posso ajudar quem chega em sofrimento, mostrando que a vida tem jeito. Eu, por exemplo, havia parado de estudar na 5ª série e agora, com quase 60 anos, curso Direito na UNEB. O programa me ensinou que só com apoio e consciência é possível nos mudar diante do vício, mas essas bets ampliam ainda mais os riscos”, afirma Clodoaldo.

Atualmente, as plataformas de apostas no Brasil devem prevenir o jogo compulsivo, identificar usuários vulneráveis e oferecer ferramentas de controle financeiro e autoexclusão, seguindo o Código de Defesa do Consumidor, a Lei nº 14.790/2023 e normas do Ministério da Fazenda.

Essas plataformas podem ser responsabilizadas civilmente se omitirem medidas obrigatórias ou estimularem práticas nocivas. Já sobre o superendividamento, a Lei nº 14.181/2021 protege consumidores de boa-fé, mas dívidas diretamente ligadas a apostas não têm garantia automática de renegociação. Cada caso depende da análise judicial e da comprovação de ludopatia, explica o advogado Fábio Silva Freire, sócio do escritório Batista Silva Freire Advogados.

Bloqueio voluntário já foi feito por 574 mil pessoas

Lançada pelo Ministério da Fazenda no final de 2025, a ferramenta de autoexclusão - disponível no site da SPA mediante login com conta GOV.BR - já foi utilizada por 574 mil brasileiros para bloquear voluntariamente o acesso a casas de apostas online, reforçando a política de jogo responsável prevista na regulação do setor.

A medida integra o pacote de jogo responsável e complementa a restrição já existente para beneficiários do Bolsa Família e do BPC, conforme decisão do STF. O usuário pode programar o bloqueio para 1, 3, 6 ou 12 meses, além de prazo indeterminado. Durante o período escolhido, o usuário não poderá abrir contas, depositar, apostar ou receber publicidade segmentada.

“Juridicamente, essas ferramentas deixaram de ser meras recomendações e passaram a constituir obrigações regulatórias para as operadoras autorizadas. Hoje as empresas licenciadas devem implementar mecanismos de identificação dos usuários, controle de acesso, verificação de identidade, monitoramento de comportamento de risco e sistemas de autoexclusão. Também existe vedação expressa de alguns grupos, como menores de idade”, explica o advogado Fábio Silva Freire.

O problema está na sua efetividade prática, pois a fiscalização ainda enfrenta desafios relacionados à dimensão do mercado digital. Para além de novas regras e ferramentas, é preciso garantir que as que já existem sejam cumpridas.

“É preciso harmonizar dois interesses constitucionalmente relevantes: a liberdade de exploração de uma atividade econômica legalmente autorizada, e garantia de proteção da saúde e dignidade dos consumidores. É preciso construir um modelo regulatório que permita a exploração econômica da atividade sem tornar a arrecadação fiscal uma prioridade em detrimento da proteção da pessoa humana. A tendência é que o Poder Judiciário seja cada vez mais chamado a atuar na definição desses limites, especialmente em ações envolvendo danos causados pelo vício em apostas”, completa o advogado.

“A fiscalização ainda enfrenta desafios relacionados à dimensão do mercado digital, à velocidade das operações online e à existência de plataformas estrangeiras ou clandestinas que atuam à margem da regulamentação brasileira. As ferramentas são juridicamente impositivas e representam um avanço importante, mas sua eficácia ainda depende do fortalecimento da fiscalização estatal e da capacidade técnica dos órgãos reguladores de acompanhar um mercado altamente digitalizado”, afirma o advogado.

Luís Otávio (nome fictício), pai de Matheus, participa de todas as reuniões do JA ao lado do filho, vendo sua melhora de perto.

“Acaba sendo uma cura para mim também, pois é uma situação muito difícil, porque a família é sempre a última a saber. Só descobre quando a bomba estoura, quando já está no limite do limite. O vício em jogos não é falta de caráter, é doença. Participar do JA foi fundamental, pois entendi que não existe cura, mas existe tratamento. A recaída faz parte, e pedir ajuda já é um avanço. Venho toda semana para o encontro, porque quero ajudar outras pessoa. Essa corrente de apoio é o que mantém a gente de pé”, afirma.

Reconhecendo o vício:

  • Dedicação: Preocupação excessiva com apostas e resultados esportivos, além do aumento do tempo dedicado às plataformas.
  • Irritação: Irritabilidade quando não pode apostar e frequentes tentativas de esconder os gastos para que amigos ou familiares não descubram o quanto está gastando.
  • Oscilação: Alterações de humor relacionadas a ganhos e perdas e o afastamento de atividades que antes eram importantes.
  • Emocional: Muitas vezes, o sofrimento emocional – como ansiedade, pouca concentração, alterações no sono e isolamento social – pode aparecer antes das consequências financeiras mais graves.
  • Atenção na Copa: Grandes eventos esportivos podem contribuir para o surgimento de novos casos e recaída de pessoas vulneráveis, pois reúnem ampla cobertura midiática, forte apelo emocional e aumento significativo das propagandas dos sites de apostas, normalizando o comportamento de apostar.
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