SAÚDE
Mamilo do corredor: sangramento comum ainda é tabu entre atletas
Problema é causado pelo atrito repetitivo entre pele e peças de roupa, especialmente corridas longas
Dores musculares, exposições ao sol e diminuição do pace [ritmo de corrida] são algumas das preocupações comuns enfrentadas por corredores de todo o mundo. Mas há outro desafio que ainda é pouco discutido entre os atletas: o "mamilo do corredor".
Por se tratar de uma região íntima, muitas pessoas convivem com o desconforto sem buscar orientação ou sequer comentar sobre o problema. Um estudo publicado em 2019 no Journal of Sports Science and Medicine mostrou que menos de 10% dos atletas que sofreram lesões mamárias acionaram treinadores ou profissionais de saúde.
Na contramão desse pensamento, a corredora Tássia Café nunca teve problema em falar sobre o assunto, já tendo relatado, inclusive, nas redes sociais. Após mais de 10 anos praticando corrida, ela já enfrentou diversos desafios nas pistas, inclusive essa condição. No entanto, em entrevista ao portal A TARDE, a atleta explicou que apesar de já ter vivenciado a situação algumas vezes, só descobriu recentemente do que se tratava.
"Não sabia que esse desconforto tinha essa nomenclatura. São mais de 10 anos e sempre aconteceu em determinadas situações, usando um top novo ou com a costura inadequada [...] As vezes em que aconteceu isso eu relatei para servir de alerta para outras pessoas que estão começando agora ou que já tem experiência para a gente trocar a figurinha [...] Eu não sei porque é pouco discutido, talvez seja pelo pela falta de informação mesmo, ou por vergonha das outras pessoas. Mas acho pouco debatido esse assunto e acredito que tenha muito mais pessoas nessa situação", disse a corredora.
Opinião profissional
Para a mastologista Larissa Bittencourt, o silêncio em torno do tema está ligado tanto ao constrangimento quanto à normalização dos sintomas, conforme disse à reportagem.
"A assadura nos mamilos é mais comum do que muita gente imagina, mas é pouco falada porque envolve o constrangimento, banalização. Muitos corredores sentem ardor, vermelhidão, fissura ou até pequeno sangramento, mas acham que isso faz parte da corrida ou tem vergonha de comentar", explicou a médica.
A especialista acredita que o tema deve ser normalizado no esporte, tratando a situação com naturalidade e informação, para reduzir o sofrimento e melhorar a experiência durante a corrida.
"A mama, o mamilo, a pele do tórax também fazem parte do corpo do atleta e assim como a gente fala de joelho, tornozelo, respiração, tênis, hidratação, também precisamos falar de saúde mamária e dermatológica no esporte", opinou Larissa.
O que é o mamilo do corredor?
Também conhecido como dermatose por fricção, o mamilo do corredor é causado pelo atrito repetitivo entre a pele e peças de roupa, como camisetas e tops esportivos, especialmente durante corridas de longa distância. O problema, que atinge homens e mulheres, pode provocar vermelhidão, ardência, fissuras e até sangramentos.
A mastologista Larissa Bittencourt explicou que a condição ocorre porque a pele do mamilo é fina e sensível, sendo diretamente atingida, sobretudo em corridas longas.
"O movimento repetitivo da camiseta, o uso de tops mal ajustados, camisetas de algodão encharcadas de suor, tecidos ásperos, roupas largas demais e costuras na região do mamilo podem causar lesões. Um outro erro comum é esquecer a proteção em treinos longos", disse.
A médica alerta que o frio também pode contribuir para o problema, pois o mamilo fica mais proeminente, aumentando o contato com tecido. Além disso, a pele previamente ressecada, sensibilizada com dermatite ou alergias, tolera menos o atrito.
Mais comum entre homens
Nos homens, a assadura costuma ser mais frequente porque o mamilo fica em contato direto com a camiseta durante a corrida.
Já nas mulheres, o mecanismo costuma envolver top ou sutiã esportivo, de tamanho inadequado, compressão insuficiente, costuras, alça ou tecido abrasivo, atingindo principalmente mulheres com mamas maiores.
Corredores iniciantes também podem estar mais vulneráveis, porque ainda não estão habituados e costumam não entender os riscos.
Leia Também:
Quais os riscos do mamilo do corredor?
Na maioria das vezes, a assadura causada pela corrida se trata de uma lesão benigna e superficial. Entretanto, ignorar os sintomas pode piorar o quadro.
O que começa com uma simples vermelhidão pode evoluir para fissuras, crostas, dor intensa e até sangramento local. A mastologista explicou o risco de tratamentos feitos de maneira inadequada.
"Usar produtos irritantes ou medicamentos sem indicação profissional pode atrasar a cicatrização ou mascarar possíveis diagnósticos. Nem toda a alteração do mamilo é apenas assadura", explicou.
Além disso, a ferida pode ser sinal inicial de uma doença da mama pré-existente e precisa ser avaliada por um especialista, especialmente quando há:
- Lesões persistentes e unilaterais;
- descamação;
- secreção;
- retração do mamilo.
Para Larissa, o maior erro do atleta é subestimar o atrito, sobretudo quando a exposição é longa, ou quando há presença de chuva e suor intenso.
Segundo Larissa, o caso deixa de ser apenas uma assadura quando não melhora em cerca de uma semana com os cuidados adequados, quando volta repetidamente ou quando aparece de forma diferente do padrão de atrito.
"A assadura por fricção costuma melhorar quando removemos o atrito e protegemos bem a pele. Se isso não acontece, é preciso a avaliação do mastologista", disse.
Como evitar o mamilo do corredor?
Como a condição está principalmente ligado ao uso de roupas inadequadas, ela costuma ser facilmente evitada. O objetivo é reduzir o atrito e proteger a pele, porque a prevenção é mais fácil do que o tratamento da fissura.
Então, os cuidados são simples:
- Usar tecidos adequados para prática de esporte, leves e de secagem rápida.
- evitar costuras ou etiquetas na área de atrito;
- escolher um top esportivo adequado;
- aplicar barreiras como geleia de vaselina, lanolina ou produtos anti-assadura;
- usar protetores adesivos nos mamilos.
Com a experiência, Tássia começou a adotar as devidas precauções, principalmente utilizando uma estratégia que começou a fazer diferença durante as maratonas.
"O ponto chave principal de medida que eu adoto é não usar o top novo em prova. Teste antes, use antes para não causar nenhuma surpresa [...] A gente que é mulher, que adora comprar um look novo e aí às vezes quer estrear no dia da prova, não faça isso. Compre antes, use no treino para você ver se vai gerar um desconforto", orientou a corredora.