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Ondas de calor agravam casos de Dengue, aponta estudo

Pesquisa da Fiocruz aponta que o calor extremo não deve parar e casos da doença devem ser mais comuns

Publicado quarta-feira, 27 de março de 2024 às 18:28 h | Autor: Carla Melo
Somente neste ano, o Brasil atingiu a marca de mais de 2 milhões de casos prováveis da doença
Somente neste ano, o Brasil atingiu a marca de mais de 2 milhões de casos prováveis da doença -

Pisar os pés fora de casa tem se tornado uma dura rotina na vida da maioria dos brasileiros nos últimos meses. As temperaturas acima da média, que passam dos 40º graus, são também as responsáveis por agravar, preocupantemente, os casos de Dengue no Brasil, que somente neste ano atingiu a marca de mais de 2 milhões de casos prováveis da doença, segundo o Ministério da Saúde.

O estudo recente “Mudanças climáticas, anomalias térmicas e a recente progressão da Dengue no Brasil”, de autoria do pesquisador Christovam Barcellos, do Observatório de Clima e Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), ajuda a explicar o porquê das crescentes incidências da doença no país e em toda a América Latina nos últimos anos, em um período de aumento exorbitante da temperatura.

As ondas de calor foram observadas com maior preocupação pelo Observatório da Fiocruz no ano passado, quando atingiram altas temperaturas no inverno, acima do esperado. Logo, o grupo de pesquisa percebeu que as áreas mais atingidas pelo calor extremo também enfrentaram epidemias de Dengue.

“Colocamos isso dentro de mineração de dados para saber o que explicava essa progressão da doença, principalmente no interior do Brasil. A gente achou um indicador de anomalia de calor, em que as temperaturas estão subindo acima do normal. Além das temperaturas, estão associadas ao aumento de casos de Dengue a urbanização, o desmatamento nas áreas rurais e florestais”, explica Christovam Barcellos.

Christovam Barcellos, pesquisador do Observatório de Clima e Saúde, da Fiocruz
Christovam Barcellos, pesquisador do Observatório de Clima e Saúde, da Fiocruz |  Foto: Divulgação

Apesar de estar em maior incidência no verão, as arboviroses - doenças causadas pelos arbovírus e transmitidas por insetos, como a Dengue, chikungunya e zika - a tendência é de que os casos da doença também perseverem, já que as ondas de calor, segundo o pesquisador, podem estar mais presentes na maior parte do ano.

“Agora estamos passando por uma frente fria na Amazônia e parte do Sudeste, e isso fez com que caísse um pouco a temperatura e isso inibe também a atividade do mosquito Aedes Aegypti. Essa alternância de chuva e calor pode produzir novos surtos de Dengue. Com o solo molhado, com recipientes abandonadas com acúmulo de água, e se vier uma nova onda de calor, o mosquito pode aparecer e pode transmitir a doença”, alertou o pesquisador

Cenário

Dores fortes no corpo e nas articulações, febre alta, dor atrás dos olhos, mal-estar, dor de cabeça e manchas vermelhas no corpo são alguns dos sintomas característicos da doença. A psicóloga Daniela Anunciação dos Santos, 26, teve o azar de sentir todos esses sintomas duas vezes. A mais recente, e a mais dolorosa, segundo ela, se apresentou de forma rápida e mais agressiva, ainda durante o verão.

“Inicialmente tive febre e dor de cabeça, mas ao longo dos dias a febre se intensificou e dores no corpo. Sintomas se apresentaram em uma sexta-feira de março, procurei a unidade de saúde na terça-feira quando tive vômito e manchas no corpo. Na primeira vez que tive Dengue, os sintomas se manifestaram em poucos dias. Já agora, fiquei em torno de 10 dias sentindo os sintomas”, disse ela.

Daniela Anunciação dos Santos, 26
Daniela Anunciação dos Santos, 26 |  Foto: Arquivo Pessoal

A família de Daniela também já teve outras experiências dolorosas com arboviroses. Ela, por exemplo, foi infectada pelo vírus zika, em meio ao surto da doença no Brasil em 2022, e o seu pai com a chikungunya. Ambos acharam que estavam com Covid-19, devido alguns sintomas semelhantes.

Na Bahia, foram notificados 81.428 casos prováveis da doença até o dia 23 de março de 2024, registrando incidência de 575,8 de casos/100 mil habitantes. Vitória da Conquista, Salvador e Feira de Santana lideram o ranking de cidades com maior número de casos prováveis de Dengue na Bahia, segundo dados da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Divep) da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab)

Neste ano, até 23 de março, foram notificados 6.706 casos prováveis de Chikungunya e registrados dois óbitos, nos municípios de Teixeira de Freitas e Ipiaú. Os casos prováveis de Zika são 842. Nenhum óbito por Zika foi confirmado

O Governo da Bahia afirmou ter investido mais de R$ 19 milhões no combate à Dengue através da aquisição de novos carros de fumacê, distribuição de aproximadamente 12 mil kits para os agentes de Combate às Endemias, além de apoio para intensificação dos mutirões de limpeza, com o auxílio das forças de segurança e emergência, e aquisição de medicamentos e insumos.

Segundo Christovam Barcellos, as estratégicas usadas pelos órgão estaduais, municipais e federais ajudam na diminuição de casos, mas não são suficientes para eliminá-los.

“São importantes, mas suficientes não são. É importante que hajam medidas no saneamento, em melhores condições de habitação, na educação, acesso ao serviço de saúde, mas tudo isso não garante que isso vá parar a Dengue. Isso diminui o número de casos graves, de mortes, de hospitalizações e de quantidade de mosquito. A vacina também não vai resolver todo o problema. O que vai resolver será um conjunto de medidas do nível federal, estadual e municipal que diminuirá o impacto da Dengue”, aponta o pesquisador.

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