TECNOLOGIA
Governo faz acordo e quer rival da Starlink no Brasil
Parceria em negociação prevê uso de tecnologia inédita de internet por satélite para conectar escolas públicas em áreas remotas

A estratégia do governo federal para levar internet a escolas públicas em áreas remotas entrou em uma nova fase e passa, cada vez mais, pelo espaço.
Em meio à meta de conectar 138 mil unidades de ensino até o fim de 2026, o Ministério das Comunicações trabalha para fechar um acordo entre a Telebras e a operadora europeia SES, de Luxemburgo, dona da única constelação ativa de satélites em média órbita no mundo.
A tecnologia, ainda inédita no Brasil, é vista como alternativa para superar limitações técnicas enfrentadas pela estatal brasileira. Embora o país já tenha alcançado cerca de 70% da meta de escolas conectadas, parte das instituições restantes está em locais onde redes de fibra óptica e cabos terrestres não chegam.
Nesses casos, a internet via satélite é considerada indispensável, mas a infraestrutura hoje disponível não garante desempenho suficiente para escolas com grande número de alunos.
Satélites de média órbita entram no radar do governo
A SES surge nesse cenário como uma peça-chave. Seus satélites de média órbita, conhecidos no setor como MEO, operam a cerca de 10 mil quilômetros da Terra e oferecem maior capacidade de transmissão, menor latência e mais estabilidade do que os satélites geoestacionários usados atualmente pela Telebras.
A expectativa dentro do governo é concluir o contrato ainda no primeiro trimestre de 2026.
Embora já exista uma relação comercial entre as duas empresas, ela se limita, até agora, à compra de capacidade em satélites geoestacionários da operadora europeia.
Esses equipamentos, posicionados a aproximadamente 35 mil quilômetros da superfície terrestre, têm dificuldade para atender escolas com mais de 100 alunos dentro dos parâmetros mínimos exigidos pelo governo. Contratos desse tipo costumam oferecer velocidades entre 20 Mbps e 60 Mbps, consideradas insuficientes em determinados contextos.

O avanço das negociações ganhou força a partir de encontros realizados durante a COP 30, em Belém. Após a assinatura de um memorando de entendimento em outubro, a Telebras e a SES realizaram testes de conexão durante a conferência da ONU, em novembro, quando duas antenas chegaram a receber sinais de até 500 Mbps.
Em janeiro, uma comitiva do Ministério das Comunicações e executivos da estatal visitaram a sede da empresa em Luxemburgo para conhecer a operação, o centro de suporte e o teleporto da companhia.
Enquanto o secretário de Telecomunicações, Hermano Tercius, retornou ao Brasil, o diretor técnico-operacional da Telebras, André Fonseca, permaneceu no país europeu para tratar diretamente dos termos do contrato. Procurada, a estatal informou que não comentaria o assunto.
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A busca por novas soluções marca uma mudança na política da Telebras. Até meados de 2023, a Viasat era a única fornecedora da estatal, cenário que começou a se alterar ainda na gestão de Frederico Siqueira, hoje ministro das Comunicações. Apesar da ampliação do número de parceiros, o foco permaneceu nos satélites geoestacionários — o que agora passa a ser revisto.
Segundo Hermano Tercius, a intenção é oferecer uma alternativa mais robusta para as escolas que ainda não foram conectadas. Além da melhora no desempenho, os satélites de média órbita também apresentam vantagens ambientais, como menor necessidade de lançamentos espaciais, maior vida útil e redução do lixo orbital.
O governo também acompanha a evolução das antenas necessárias para esse tipo de conexão, que hoje ainda são grandes, mas devem se tornar mais compactas nas próximas gerações, com tamanho semelhante às usadas pela Starlink.
China entra no tabuleiro da conectividade educacional
Paralelamente à frente europeia, o governo brasileiro mantém diálogo com a China. Desde novembro de 2024, Telebras e Ministério das Comunicações possuem um memorando de entendimento com a SpaceSail, empresa ligada ao governo de Xangai. A companhia planeja iniciar operações no Brasil no último trimestre de 2026 e poderá atender parte das escolas com seus satélites de baixa órbita.
No fim de 2025, a SpaceSail solicitou autorização à Anatel para operar 648 satélites no país por um período de 15 anos, com previsão de chegar a 15 mil unidades até 2030. Esses equipamentos operam entre 500 km e 1,5 mil km da Terra, na mesma faixa utilizada pela Starlink, líder atual do mercado brasileiro de internet via satélite.
Apesar da ampla presença da empresa de Elon Musk — que concentra cerca de 73% dos acessos desse tipo no país —, ela não é considerada uma alternativa direta para a conexão de escolas públicas. De acordo com o Ministério das Comunicações, o foco comercial da Starlink está no atendimento a pessoas físicas, o que limitaria sua capacidade de atender sozinha à demanda governamental.
Além da internet via satélite, a estratégia para alcançar a meta das 138 mil escolas conectadas inclui outras frentes. Entre elas estão os leilões coordenados pela Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (EACE), criada em 2022 para gerir recursos do leilão do 5G, e o financiamento de pequenos provedores regionais com recursos do FUST, que somaram R$ 3,2 bilhões em investimentos ao longo de 2025.
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