OPINIÃO
Davos e o ‘Espírito de Diálogo’
Eduardo Athayde analisa os 55 anos do Fórum Econômico Mundial, o retorno de Trump e o relatório da Oxfam sobre o domínio recorde da elite financeira

Por Eduardo Athayde

O Fórum Econômico Mundial (WEF) acontece entre 19 e 23 de janeiro de 2026 no vilarejo alpino de Davos, com o tema "Um Espírito de Diálogo", focando no controle crescente da elite sobre a política e a mídia. Em janeiro de 2026 o WEF completa 55 anos enfrentando seu maior desafio histórico: a crise do multilateralismo, tentando mediar, de um lado, as tensões entre blocos econômicos liderados pelos EUA e China e, de outro, o controle da elite sobre a política global.
Fundado em 1971 pelo economista alemão Klaus Schwab para introduzir na Europa o "capitalismo de partes interessadas" (stakeholder capitalism), defende, como ideia central, que uma empresa não serve apenas aos acionistas, mas também aos funcionários, clientes, comunidades e ao meio ambiente.
A palavra elite deriva do latim eligere (escolher, eleger) ‘a nata’, aí incluídos os grupos dominantes de determinada sociedade, os mais qualificados de uma classe profissional, os líderes religiosos e os detentores do poder econômico e de partidos políticos.
Davos é um encontro de elite e, neste ano, com recordes de participação governamental, é marcado pelo retorno do presidente Trump aos Alpes suíços. “Enquanto a elite, inclusive a política, prospera em todo o mundo detendo o poder das decisões, quase metade da população mundial (48%) vive na pobreza e uma em cada quatro pessoas enfrenta insegurança alimentar regular”, reclama a Oxfam (Oxford Committee for Famine Relief), organização que evoluiu de um esforço de alívio da Segunda Guerra Mundial para uma rede global de defesa e desenvolvimento.
O presidente dos EUA, que chega sob críticas por ameaçar tarifas contra países europeus que se opõem à sua tentativa de controlar a Groenlândia, deve falar na quarta-feira (21 de janeiro), liderando a maior delegação americana da história de Davos, com mais de 300 pessoas.
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Lançado simultaneamente na abertura do fórum e intitulado "Resisting the Rule of the Rich" (Resistindo ao Domínio dos Ricos). O relatório da Oxfam revela que a riqueza dos bilionários atingiu o recorde histórico de US$ 18,3 trilhões. As fortunas dos bilionários cresceram 16% apenas em 2025, um ritmo três vezes maior que a média anual dos últimos cinco anos.
O relatório aponta ainda que um bilionário, que agora possui mais da metade das maiores empresas de mídia do mundo e controla todas as principais plataformas de redes sociais, têm 4.000 vezes mais chances de ocupar um cargo político do que um cidadão comum. Desde 2020, esse aumento acumulado é de 81%.
Em Davos 2026, os debates focam em geopolítica, inovação responsável em IA, transição energética e o colapso da confiança global, contando com as presenças destacadas Ursula von der Leyen (UE), Mark Carney (Canadá), Emmanuel Macron (França), Javier Milei (Argentina) e He Lifeng (China). O Brasil é representado pela ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck.
Estimulando o espírito do diálogo, o WEF debate a criação de barreiras mais rígidas entre o dinheiro e a política, limitando o lobby e o financiamento de campanhas, incluindo a inteligência artificial, o amadurecimento dos mercados de crédito de carbono e a desigualdade nas emissões; destacando o combate ao monopólio da informação para proteger a liberdade de expressão e a democracia, propondo uma arquitetura humanizada da geopolítica global.
*Eduardo Athayde é diretor do WWI no Brasil.
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