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A alquimia de transformar a própria história

O passado tem uma característica incontornável: ele não pode ser reescrito

Sheila Maria Lima Santos
Por Sheila Maria Lima Santos
Imagem ilustrativa da imagem A alquimia de transformar a própria história
Foto: Ilustrativa/Maginific

Há partes da nossa história que gostaríamos de apagar: momentos que doeram, palavras que gostaríamos de não ter ouvido, escolhas que faríamos diferente, relações que deixaram marcas, perdas que mudaram nossa maneira de olhar a vida; mas o passado tem uma característica incontornável: ele não pode ser reescrito. O que pode mudar é o lugar que ele ocupa dentro de nós.

Durante séculos, os alquimistas se dedicaram aos mistérios da transformação da matéria. Carl Gustav Jung, muitos séculos depois, percebeu nas imagens da alquimia uma poderosa representação dos processos de transformação da própria psique. Aquilo que precisava ser dissolvido, separado, purificado e, novamente reunido, também poderia simbolizar movimentos que acontecem dentro de nós. Talvez amadurecer tenha algo de alquímico; não porque conseguimos transformar tudo o que foi doloroso em algo bonito; nem porque precisamos agradecer pelo que nos feriu; mas porque podemos transformar a maneira como aquilo que aconteceu continua vivendo em nós...

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Uma criança, por exemplo, pode ter se sentido abandonada; talvez tenha vivido uma ausência, uma separação ou simplesmente não tenha recebido o acolhimento de que precisava naquele momento; e, para aquela criança, a experiência foi real.

O problema é quando os anos passam, o corpo cresce, a vida muda, mas alguma parte daquela criança continua esperando que o abandono aconteça novamente. Então o adulto pode começar a viver suas relações a partir desse medo: pode se esforçar demais para não desagradar; aceitar o que não gostaria de aceitar; sofrer, excessivamente, diante de um afastamento; tentar controlar quem ama; ou até evitar vínculos profundos para não correr o risco de perder alguém outra vez. Aquilo que um dia foi uma tentativa de proteção pode, anos depois, transformar-se em uma prisão; pois o que foi necessário para sobreviver emocionalmente em determinado momento da vida não precisa se tornar uma forma permanente de viver.

É aí que começa uma importante transformação: não se trata de apagar a criança que se sentiu abandonada nem de convencê-la de que “não foi nada”. Trata-se de reconhecer sua experiência e, ao mesmo tempo, permitir que o adulto de hoje perceba: eu já não estou naquele lugar.

Isso vale para tantas outras histórias.

Quem cresceu precisando provar seu valor pode passar a vida buscando reconhecimento; quem aprendeu que precisava agradar para ser amado pode tornar-se um adulto incapaz de dizer não; quem foi constantemente criticado pode carregar uma voz interna que continua criticando mesmo quando aquelas pessoas já não estão por perto; quem sofreu uma grande rejeição pode interpretar qualquer afastamento como a confirmação de que nunca será escolhido. E, assim, sem perceber, podemos passar anos respondendo a situações presentes com defesas construídas no passado.

Talvez uma das perguntas mais importantes do amadurecimento seja:

Quanto do que faço hoje é realmente uma escolha, e, quanto ainda é uma reação ao que vivi ontem?

É justamente aqui que a imagem da alquimia se torna tão bonita: o alquimista não jogava fora a matéria bruta por considerá-la imperfeita; era, justamente, sobre ela que o trabalho começava; também não precisamos rejeitar nossa história para nos transformar: nossas feridas, perdas, erros, medos e contradições fazem parte da matéria da qual somos constituídos. Integrá-los não significa permitir que continuem governando nossa vida; significa reconhecê-los, compreender o lugar que ocuparam e escolher, conscientemente, o lugar que ocuparão daqui para frente.

Uma ferida pode continuar fazendo parte da nossa história sem continuar decidindo nossas escolhas; uma falta pode ser reconhecida sem se transformar em destino; um erro pode ser assumido sem se transformar em identidade; e, o passado pode ser lembrado sem precisar ser revivido todos os dias no presente. Talvez amadurecer seja justamente deixar de perguntar apenas:

“Por que isso aconteceu comigo?”

e começar, em algum momento, a perguntar:

“O que eu escolho fazer, hoje, com aquilo que me aconteceu?”

Não podemos voltar e oferecer à criança que fomos tudo aquilo que ela deveria ter recebido, mas, podemos começar a oferecer ao adulto que somos a possibilidade de não continuar vivendo aprisionado àquilo que faltou.

Não precisamos reescrever as páginas anteriores para escrever uma história diferente; precisamos, apenas, perceber quando são elas que ainda estão segurando a caneta.

Talvez essa seja uma das mais profundas alquimias humanas: não transformar o passado em ouro, mas transformar a nós mesmos a partir dele...

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alquimia passado

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