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A bomba que o Brasil pode jogar nos EUA

Num cenário de acirramento do conflito, os americanos tem muito a perder

Pedro Menezes*
Por Pedro Menezes*
| Atualizada em
Poder dos Estados Unidos, cada vez mais, depende de uma autoridade moral
Poder dos Estados Unidos, cada vez mais, depende de uma autoridade moral - Foto: Divulgação

Em sua campanha por sanções contra o Brasil, a família Bolsonaro tem insistido numa comparação: as sanções americanas podem chegar ao nível de destruição de uma bomba atômica. Todo o discurso presume que eles são fortes e nós temos que aceitar tudo calados. Felizmente, não é bem assim: o rei está nu.

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Quase todo o poder dos Estados Unidos vem da liderança de um bloco geopolítico. É por isso que as sanções contra Alexandre de Moraes tem impacto global, apesar de terem vindo de apenas um país. O mundo concorda com o status do dólar como moeda global e pouco incomoda certos oligopólios americanos.

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Como resultado, Moraes não poderá acessar o sistema financeiro e terá boa parte de seus recursos bloqueados. “O ministro tá ferrado de verde e amarelo”, me disse um especialista do setor. A repercussão inclui os bancos brasileiros que fazem negócios com empresas americanas como Visa e Mastercard.

Apesar disso tudo, quem disse que o problema é só nosso?

Ao sancionar um ministro do STF para interferir no julgamento de Bolsonaro, o presidente americano inaugura uma nova etapa no uso desse tipo de sanção. O instrumento era, até então, reservado a líderes do crime organizado e chefes de ditaduras brutais, ditaduras de verdade. Para a comunidade internacional, os alvos eram indefensáveis. Depois da sanção contra Alexandre de Moraes, o jogo mudou.

Todas as pessoas sensatas sabem que o regime de governo do Brasil está longe de ser como os de Cuba, Venezuela ou Irã. Da mesma forma, Moraes não é um megatraficante. Quando os americanos usam esse poder para se meter num assunto interno da democracia brasileira, o resto do mundo abre o olho.

Infelizmente, o homem mais poderoso do mundo está longe de ser sensato. Trump não liga pro que vai acontecer daqui a poucos anos, quando já estará morto. Ele só quer controlar as manchetes e os holofotes no momento presente. Os impactos de longo prazo importam ainda menos para o presidente, mas deveriam preocupar muito o povo americano.

Seja no curto ou no médio prazo, a política interna do Brasil dificilmente vai atender o pedido de Trump. Nenhum dos 3 poderes tem motivos pra livrar Bolsonaro da cadeia. Se muito, o Legislativo pode continuar usando o bolsonarismo para aumentar o poder de barganha ao negociar com os outros poderes. Quem pode suspender o pagamento de emendas é o STF, e não a Casa Branca.

Talvez a política interna dos EUA possa solucionar a questão. O presidente americano pode recuar ou topar outro acordo. Para insistir na defesa de Jair, Trump precisará comprar muitas brigas. Afinal, o Brasil não é irrelevante, ainda que alguns patriotas digam o contrário. As maiores empresas americanas lucram com o imenso mercado brasileiro. Os consumidores economizam comprando suco de laranja, café, carne e aviões brasileiros... Quantos americanos querem perder dinheiro para defender a liberdade de Jair Bolsonaro?

Caso Trump insista e enfrente a pressão interna, veremos o pior cenário. Brasil e EUA devem se afastar economicamente a curto prazo. A gente pode até se prejudicar num primeiro momento, mas os Estados Unidos tem mais a perder a longo prazo, por incrível que pareça.

Quando o presidente americano trata Alexandre de Moraes como se fosse Nicolás Maduro ou El Chapo Guzmán, ele passa um recado para autoridades de todo o mundo. O Brasil tem uma das 10 maiores populações e economias do planeta. Se Trump age assim conosco, o que ele pode fazer com países menores? Pode ter certeza que autoridades de todo o mundo estão pensando nisso.

Hoje, as sanções contra Moraes tem impacto global porque o dólar tem o status de moeda global e empresas americanas dominam setores como os de cartão de crédito. A supremacia americana é uma ilusão. Sem o consentimento de grande parte da comunidade internacional, os Estados Unidos seriam apenas uma grande potência num mundo multipolar.

O mundo mudou. Os americanos já não tem dinheiro ou população para manter o status doutrora. O poder dos Estados Unidos, cada vez mais, depende de uma autoridade moral. A sanção a Alexandre de Moraes só tem efeito global porque, até ontem, esse tipo instrumento era reservado a autoridades que os aliados dos Estados Unidos também queriam sancionar. Ao inovar para atender Bolsonaro, o presidente americano criou um problemão para o próprio país.

Num cenário de acirramento do conflito com autoridades brasileiras, os americanos tem muito a perder. Para piorar a situação deles, Trump também quer brigar com a China, a União Europeia, a África do Sul e meio mundo.

Há décadas, a perda de poder dos americanos é tratada pelos especialistas como tendência. Tal como na famosa fábula, todo mundo consegue ver que o rei está nu, mas todos fingem ver as roupas do rei por costume e medo. Cheio de soberba, o rei agora quer brigar com o Brasil, pois nos vê como um súdito mais fraco.

Quando o rei deles estava vestido, Michael Jackson já avisava que eles não ligam pra a gente. Agora, sem roupa, Trump quer se importar ainda menos. Assim como o súdito da fábula, o Brasil tem uma arma poderosa: se gritarmos que o rei está nu, ele é quem terá muitos motivos para se preocupar.

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