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A Epidemia da Comparação

Redes sociais amplificam comparação entre vidas

Sheila Lima*
Por Sheila Lima*
Comparação
Comparação - Foto: Reprodução

Vivemos um tempo em que nunca foi tão fácil olhar para a vida dos outros. Com poucos movimentos na tela do celular, acompanhamos carreiras, viagens, corpos, relacionamentos, conquistas e sorrisos. Nunca tivemos tantas janelas abertas para o mundo e, paradoxalmente, nunca estivemos tão distantes de nós mesmos.

A comparação tornou-se uma epidemia silenciosa.

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Ela não nasce nas redes sociais. Apenas encontrou nelas um terreno fértil. Começa muito antes, quando ainda somos crianças e concluímos que alguém é mais bonito, mais inteligente, mais estudioso, mais amado ou mais capaz.

Crescemos acreditando que a felicidade mora sempre na vida de outra pessoa. Mas, existe um detalhe quase invisível: a comparação nunca enxerga o todo. Ela escolhe um recorte.

Comparamos nossa insegurança com a aparente confiança do outro. Nosso bastidor com o palco alheio. Nossa caminhada inteira com um único momento da vida de alguém.

Durante muitos anos, também vivi esse equívoco.

Admirei uma pessoa imaginando que ela se tornaria aquilo que eu desejava ser. Sem perceber, transformei essa imagem em medida para avaliar minha própria vida.

Décadas depois, quando nossos caminhos voltaram a se cruzar, descobri algo surpreendente: ela havia seguido outro rumo. E aquilo que eu projetara para ela havia acontecido comigo.

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A grande ironia é que eu não tinha percebido.

Passei tanto tempo olhando para fora que deixei de reconhecer quem eu estava me tornando.

Carl G. Jung afirma que aquilo que nos fascina no outro pode revelar aspectos ainda não reconhecidos em nós mesmos. Talvez seja por isso que algumas comparações doam tanto. Elas nem sempre falam sobre a vida do outro. Muitas vezes, falam sobre possibilidades que ainda não tivemos coragem de enxergar em nossa própria história.

Na perspectiva da Psicologia Analítica, existe em cada pessoa um movimento em direção à realização de sua singularidade. Em muitas tradições espirituais, encontramos uma compreensão semelhante: cada espírito percorre um caminho único de aprendizado e crescimento. As linguagens são diferentes, mas ambas nos lembram que a vida não nos convida a repetir a trajetória de alguém. Convida-nos a realizar a nossa.

Talvez o sofrimento comece quando deixamos de escutar esse chamado para perseguir o roteiro que imaginamos para os outros.

Há uma pergunta que tenho feito a mim mesma: e se, em vez de medir a distância entre mim e outra pessoa, eu observasse a distância entre quem fui e quem sou hoje?

Talvez essa seja a única comparação capaz de produzir consciência.

Porque ninguém floresce olhando para a árvore ao lado. Cada raiz encontra seu próprio solo. Cada estação tem seu tempo. E cada existência carrega uma forma única de revelar aquilo que nasceu para ser. Pois no fim, a vida não nos perguntará por que não fomos como alguém. Talvez ela nos pergunte, apenas, por que demoramos tanto para reconhecer quem já estávamos nos tornando.

*Sheila Lima é terapeuta e escritora - (@terapeuta.sheilamaria)

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