ARTIGOS
A Seleção Nutella
Seleção Brasileira enfrenta críticas severas por falta de identidade e desempenho


Acabou! Já era! O Brasil é mesmo um país de era uma vez. Era uma vez um país que exportava futebol como quem exportava commodities. O drible era identidade nacional, a ginga era DNA, a parceria o animava.
Tinha-se a nítida impressão de que nossos pés nasciam com uma bola de couro grudada. Ou seria uma extensão? Hoje, a bola parece ser feita de aço líquido que queima na aproximação, e todo jogador tira o pé ou deixa para o inimigo pegar sem medo e levá-la à frente. E nisso tome ferro. E a parceria virou uma matilha de parças.
Hoje, a seleção brasileira virou Nutella. Tem cara de seleção, jeito de seleção, rótulo de seleção, mas não tem gosto de seleção. É fake, como fake é a CBF e fake é a Fifa, onde quem manda é o presidente Donald Trump, que ameaçou dar vermelho ao presidente da entidade se não revertesse o cartão vermelho dado por um juiz ao jogador da Seleção dos EUA.
Não vamos dizer que o Brasil seja ruim, tecnicamente. Mas que virou um produto genérico, sem sabor marcante, virou. Daquele tipo que você compra no supermercado quando não há outras opções. Parece futebol, tem o formato de futebol, mas falta o gosto de futebol.
Nossa seleção é mais uma, como a Áustria, Chile, Angola, Austrália. Tenho certeza de que, se a Seleção Brasileira pega um Flamengo ou Palmeiras embalado, não ganha.
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Um time que vive de Vini Jr. e mais ninguém. Juro que tinha jogador na seleção de quem eu nunca tinha ouvido falar. O Brasil parece que engordou e perdeu a ginga, aquela malandragem que fazia o adversário olhar para o lado e a bola sumir. Saudade de Ronaldinho Gaúcho.
O drible, que era arte, virou risco desnecessário no PowerPoint de algum analista europeu. Saudade de Garrincha. A ousadia, que era nossa assinatura, agora é calculada, pasteurizada, ensaiada. Saudade de Rivaldo.
Nessa Copa 2026, jogamos como quem cumpre tabela. Passa, corre, cruza — tudo muito correto, muito previsível. Até o amarelo da camisa parece mais claro, mais diluído. Aguado. Meninos amarelos, netos de vó, e não era o goleiro Vozinha. Seleção de meninos cheios de lombrigas.
É futebol de shopping center. Bonito na prateleira, mas sem personalidade. Uma seleção que você esquece no meio do jogo, porque não tem aquele tempero que arde na língua e faz falta depois.
Um ou outro tinha coragem de dividir a bola. Disputar a bola na raça e no tapa, coisas que os argentinos, que eu acho que irão ganhar de novo a Copa, têm em até demasia.
A verdade é que a seleção brasileira virou mais uma. E o pior: todo mundo já percebeu. Até o torcedor, que agora assiste aos jogos com a mesma empolgação de quem vê uma partida de vôlei sentado — sabe que é importante, mas não sente o calafrio. Uma pesquisa antes da Copa mostrava a maioria do torcedor brasileiro sem a menor empatia com os jogadores.
O Brasil, que dava medo, agora dá pena. O futebol, que era feijoada pesada, com bastante tempero, virou um prato congelado, de regime, sem sabor. Aquece rápido, mata a fome, mas não alimenta a alma.
E pior é que, depois do jogo contra a Noruega, com os vikings botando para lenhar, nem tinha as imagens do Caboclo e da Cabocla, entes do imaginário baiano e protetores da Bahia, pois no dia anterior tinham sido levados de volta para suas habitações no bairro da Lapinha.
O jeito foi chorar nos bares e nas esquinas ou, como diria o doido do Donald Trump, usando o grande "clássico" do cancioneiro baiano: "chora na minha".
Pensar que bastava ter levado para a Copa Éverton Ribeiro, Juba, Jean Lucas e Mateuszinho que seria diferente. Ouvi um pai-de-santo vaticinar. E uma cigana também E um bêbado na Feira das Sete Portas e bebum não erra.
*Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista, autor de Cemitério de Cães Noturnos.


