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Faces do racismo

O encanto pelos orixás e a triste face da intolerância materna

Gildeci de Oliveira Leite*
Por Gildeci de Oliveira Leite*
O medo do belo: o encanto pelos orixás e a triste face da intolerância materna
O medo do belo: o encanto pelos orixás e a triste face da intolerância materna - Foto: Ilustrativa | IA

Sob o pretexto de oportunizar um público em sua maioria de adolescentes, convidaram um especialista em mitologia afro-brasileira para apresentar aspectos do panteão negro. A palestra deveria ser em linguagem coloquial, com todos os cuidados para o bom entendimento do conteúdo, pois ali havia também mães, donas de casa com variadas visões sobre o mundo e a vida em comunidade.

De imediato, foi percebido que as presenças de algumas senhoras se justificavam não apenas pelas curiosidades, mas também por garantias de bom andamento em assunto considerado espinhoso, estavam vigilantes. O orador confessou a si mesmo, em silêncio, que aqueles olhares desconfiados possuíam igualmente o papel do testemunho de seu trabalho respeitoso e principalmente do belo em forma de axé. Teve a certeza de que alguns preconceitos seriam desfeitos e encantamentos surgiriam. Afinal, a imagem que o racismo constrói do mundo negro nunca foi convidativa e o enfrentamento pode ser com informação.

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Quando ainda explicava que Exu não é o diabo e que diabolizar Exu é um “fake news das antigas”, uma convidada adentra o ambiente, sorrindo e concordando, a cena deu a certeza de que nem tudo era desconfiança. Os olhares juvenis falavam sobre as surpresas no desmantelamento de falácias malévolas ensinadas contra Exu. A associação aos santos católicos era perguntada, sempre que o conferencista esquecia de informar. Ali todas eram católicas e algumas admitiam a afeição às rezadeiras, rezadores, e uma ou duas lembravam de relações familiares com orixás, inquices, voduns e caboclos.

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O fascínio se intensificou quando as descrições de feitos e conquistas de Iansã, Oxum, Iemanjá e Nanã foram comunicadas. Senhoras e mocinhas sentiram-se representadas, algumas pediram que o palestrante dissesse de qual orixá eram. Ouviram como resposta que ele não era sacerdote e que não estavam em ambiente e momento adequados. Tudo prosseguiu bem e principalmente as mais jovens declaram-se felizes com os novos aprendizados. O professor foi aplaudido!

A decepcionante descoberta estaria por vir! Uma das adolescentes, ao chegar em casa sorridente, relatou à sua mãe o que aprendeu na exposição! Triste Bahia! Preocupada, a genitora procurou uma das senhoras responsáveis pelo evento. Vejamos o diálogo:

— Vocês não deveriam levar as meninas menores de dezoito anos para esse tipo de palestra.

— Houve algum problema?

— Mais ou menos, pois minha filha gostou de saber sobre orixás e agora quer conhecer mais essa cultura, esse é o problema.

Na cabeça da racista, a complicação consiste na percepção do belo negro por sua filha. Ao saber que a pupila encontrou um caminho para a diversidade, condenou a iniciativa, a luta é árdua. O racismo mostrou sua face!

*Escritor, sócio do IGHB (Instituto Geográfico e Histórico da Bahia), professor do PPGEL — Uneb, autor de A Casa do Mistério ou A Casa do Renascimento e Babá Alapalá: caminhos e encantos | [email protected] / @gildeci.leite

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