ARTIGOS
"Mesa girante" dos 95 anos do Esporte Clube Bahia
Nestor Mendes Jr. reconta a fundação do Esquadrão

Por Nestor Mendes Junior*

Em um exercício do sobrenatural, pegando um pouco das "mesas girantes" do francês Allan Kardec, para estudar, nos anos 1850, os fenômenos e as comunicações com os espíritos — que Woody Allen, com bom humor, abordaria no filme "Magia ao Luar", de 2014. — fico imaginando o que estariam pensando, hoje, os fundadores do Esporte Clube Bahia, em 1° de janeiro de 1931.
Essa "mesa girante" estaria de volta à Rua Carlos Gomes, 57, onde funcionava a sede do Jóquei Clube e onde nasceu o Esquadrão de Aço — em tratativas ainda ocorridas em fins de 1930.
O Bahia foi fundado em meio ao efervescente rescaldo da Revolução de 1930 — golpe que depôs o presidente Washington Luís e sepultou de vez a República Velha. Em seu livro-biografia “Juracy Magalhães — O Último Tenente”, o próprio interventor da Bahia fala do clima de animosidade das forças políticas conservadoras contra a sua pessoa, quando veio comandar o Estado, a partir de 1932: “Eu era, de fato, um estranho no ninho, um tenente forasteiro que ousava pisar naquele solo sagrado há muito presidido por santos irredutíveis e ciumentos”.
Portanto, foi neste clima de “chute na canela” que floresceu o ECB — principalmente pela iniciativa de jogadores “desempregados” da Associação Atlética da Bahia e do Clube Bahiano de Tênis, cujos departamentos de futebol haviam sido encerrados em 1929.
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É desse tempo que o antigo Elevador da Conceição, que liga a Cidade Baixa à Cidade Alta de Salvador, é substituído por uma monumental construção de 72 metros, passando a receber o nome de seu criador, Antônio Lacerda. Jorge Amado lança “O País do Carnaval”; e Dorival Caymmi já havia composto a sua primeira canção: “No Sertão”.
Em seu livro “A Verdadeira História do Esporte Clube Bahia”, o escritor Aroldo Maia, um dos fundadores do Tricolor, assim descreve as primeiras reuniões preparatórias: “No dia 7 de dezembro, ‘O Diário da Bahia’ publicava a nota: ‘Corre com insistência nas nossas rodas esportivas que antigos elementos da Associação Atlética da Bahia e do Club Bahiano de Tênis pretendem fundar dentro de poucos dias o Atlético Bahiano Football Club, que representará, no Campeonato Bahiano de Futebol de 1931, os campeões de 1924 e 1927. Quanto às cores a serem adotadas, uns opinam pelo azul, branco e preto; e, outros, pelas da Bahia’”.
No dia seguinte, 8 de dezembro, dia dos festejos em Salvador de Nossa Senhora da Conceição da Praia, os amigos Carlos Koch de Carvalho, Eugênio Walter de Oliveira (Guarany), Fernando Tude, Júlio Almeida e Waldemar de Azevedo Costa encontram-se no Jockey e se definem pelo branco, do Bahiano; o azul, da Associação; e o vermelho da “Bahia, Bahia, Bahia”, grita Júlio Almeida.
Em sua edição de 11 de dezembro, o jornal ‘A Tarde’ noticia na sua seção de esportes: “Amanhã será fundado um clube bahiano, fusão de elementos da Associação Atlética e Bahiano com o nome e as cores da Bahia que será Bahia Foot-Ball Club ou Sport Club Bahia”.
No dia seguinte, 12 de dezembro, uma sexta-feira à noite, mais de 70 pessoas, inclusive ex-jogadores da Associação e do Bahiano, participam, na sede do Jockey, em reunião presidida pelo diretor interino de ‘O Diário da Bahia', Octavio Carvalho; e secretariada por Fernando Tude e Aroldo Maia, da fundação do ECB. Por unanimidade de votos, a assembleia decidiu escolher o nome e as cores da Bahia para as do clube.
Às 9h, de 1° de janeiro de 1931, na sede do Jockey, Aroldo Maia, Fernando Tude, Oscar Azevedo, Plínio Rizério de Carvalho, Carlos Koch, Waldemar Costa, Lourival Paranaguá, Juju Guimarães, Lemos Brito, Bráulio Nascimento, Eurípedes Drummond Bayma de Moraes, Alberto Gambarotta, João Barbosa, entre outros, cuidavam do alvorecer do Sport Club Bahia.
A "mesa girante" neste 1° de janeiro de 2026, seria com esses primeiros baluartes — e homens de sorte e visão de futuro — indagando a cada um deles se esperavam que o “Bahêa” chegaria a quase centenário, duas vezes campeão brasileiro, 51 títulos baianos, pentacampeão do Nordeste, primeiro clube do Brasil na primeira Libertadores das Américas, mas, sobretudo, amado e pronto para mais alguns milênios de vida?
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