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NOVA PEC

Mudanças no IPVA: dono de Ônix pagará mais caro que dono de Ferrari; entenda

Entenda detalhes da PEC que pode causar distorções no pagamento do imposto anual veícular

Jair Mendonça Jr
Por
Mudanças no IPVA dono de Ônix pagará mais caro que dono de Ferrari; entenda
Mudanças no IPVA dono de Ônix pagará mais caro que dono de Ferrari; entenda - Foto: Arte Portal A TARDE

A PEC 3/2026, que tramita na Câmara dos Deputados, propõe o fim da base de cálculo baseada no valor venal (tabela Fipe) para o IPVA, substituindo-a pelo peso bruto total (PBT) do veículo. Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, o autor da proposta, Kim Kataguiri, explica estes e outros pontos.

A medida, que já foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), promete um alívio tributário: o estabelecimento de um teto nacional de 1% do valor venal do veículo para a alíquota do imposto.

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Em linha geral, o rico pagaria menos e o pobre pagaria mais...

Antônio Carvalho - Especialistas em direito tributário e economia

Atualmente, o IPVA é cobrado pelos estados com base no valor de mercado do veículo (tabela Fipe), com alíquotas que variam entre 1%, 2,5 e 4%. Além disso, a PEC autoriza os estados a criarem descontos para veículos menos poluentes.

Não vai ter nenhuma penalização à classe média ou trabalhador do campo. Todo mundo vai pagar menos

Kim Kataguiri - deputado autor da PEC

IPVA proporcional mais caro para carros mais pesados

A modificação visa diminuir o pagamento do imposto para todos, mas a particularidade pode fazer o dono de um Ônix, por exemplo, carro popular e amplamente vendido, pagar mais caro do que o dono de uma Ferrari ou outros carros de luxo.

A distorção ganha contornos dramáticos quando analisamos a ficha técnica dos veículos. Um Chevrolet Onix 2026 na versão de entrada pesa 1.045 kg. Esse número é menor do que os 1.570 kg de peso seco de uma Ferrari SF90 Stradale, que custa, em média, R$ 7 milhões. Mas na prática, o dono do carro popular pagará mais, proporcionalmente.

Ou seja, a regulamentação irá estipular um valor (ainda não definido, porque o projeto encontra-se em tramitação) por quilo para veículos particulares. Em carros populares, é fácil considerar o cenário em que o valor a pagar do imposto chegue a 1% do veículo (tabela Fipe). Já em carros de luxo, por vezes de valor milionário, o cálculo somente por peso dificilmente chegará nesse 1%.

O Portal A TARDE fez uma análise envolvendo os dois carros citados e um valor estipulado de R$ 5 por quilo para veículos particulares.

O cálculo na prática (com valor hipotético de R$ 5 por quilo)

1. Chevrolet Onix Plus (1.045 kg)

Chevrolet Onix Plus
Chevrolet Onix Plus - Foto: Divulgação Chevrolet
  • Cálculo estrito pelo peso: 1.045 kg × R$ 5 = R$ 5.225 mil
  • Trava de segurança da PEC (teto de 1% do valor do carro): 1% de R$ 92 mil = R$ 920
  • IPVA final a pagar: R$ 920 (como o valor por peso estourou o limite, o dono do Onix é protegido pelo teto).
  • Alíquota efetiva do bolso: O dono do Onix pagará exatamente a alíquota máxima permitida pela nova regra (1% do valor do carro).

2. Ferrari SF90 Stradale (1.570 kg)

Ferrari SF90 Stradale
Ferrari SF90 Stradale - Foto: Divulgação Ferrari
  • Cálculo estrito pelo peso: 1.570 kg × R$ 5 = R$ 7.850
  • Trava de segurança da PEC (teto de 1% do valor do carro): 1% de R$ 7 milhões = R$ 70 mil
  • IPVA final a pagar: R$ 7.850 (Como o imposto bruto por peso ficou muito abaixo dos R$ 70 mil do teto, o dono do carro paga o valor seco do peso).
  • Alíquota efetiva do bolso: o dono da Ferrari pagará 0,11% em relação ao valor real do seu supercarro de luxo.

Por que especialistas chamam a PEC de "inexequível"

Enquanto a defesa da proposta aposta em uma redução generalizada de impostos, a avaliação do especialistas em direito tributário e economia, Antônio Carvalho, aponta para um cenário de fortes distorções e inviabilidade política.

1. O rico paga menos, o pobre paga mais

Para o especialista, ouvido pela reportagem do Portal A TARDE, a substituição da tabela Fipe pelo peso do veículo inverte completamente a lógica de justiça fiscal que rege o IPVA há décadas.

"O proprietário de veículo mais caro paga mais e o mais barato paga menos. Na proposta, os veículos de maior valor, produzidos com materiais mais leves e com maior tecnologia embarcada, seriam favorecidos em detrimento dos menos tecnológicos e mais baratos. Em linha geral, o rico pagaria menos e o pobre pagaria mais", constata Carvalho.

2. Efeito cascata na economia e no preço dos produtos

O argumento do desgaste viário também é desconstruído sob a ótica econômica. Veículos mais pesados — como utilitários e caminhões — são ferramentas de trabalho. Um aumento na carga tributária dessas categorias gera um impacto direto no bolso do consumidor final.

"Os veículos mais pesados são de carga e utilitários. Empresas de transporte repassarão o possível aumento de gastos com tributos para os produtos transportados ou serviços prestados, penalizando o consumidor e os motoristas autônomos", analisa o especialista.

3. O impasse político e o rombo nos estados

Sobre as fontes de compensação sugeridas pelo autor da PEC (cortes em publicidade e emendas parlamentares), o especialista é cético quanto à aprovação no Congresso e à eficácia fiscal.

"Cortar gastos de publicidade institucional e emendas são proposições bem difíceis de serem aprovadas por ferirem diretamente os interesses dos parlamentares. A aprovação disso resultaria na busca de criação ou aumento de outro tributo para compensação na esfera estadual", projeta Antônio Carvalho.

O deputado Helder Salomão (PT-ES) criticou a proposta justamente por considerar a distorção. “O cara que tem um caminhão velho, pesado, vai pagar um imposto maior do que o cara que tem uma Ferrari construída com fibra de carbono, levíssima. Não podemos promover aqui uma distorção e privilegiar os ricaços", disse.

"Todo mundo vai pagar menos", defende autor da PEC

Ao Portal A TARDE, o deputado federal Kim Kataguiri (UNIÃO/SP), autor da proposta, rebateu as críticas sobre um possível aumento de imposto para carros populares ou veículos de trabalho.

"Não vai ter nenhuma penalização à classe média ou trabalhador do campo. Todo mundo vai pagar menos. A alíquota vai passar a representar de 0 a 1% do valor venal. Se hoje há capacidade contributiva para o pagamento no modelo atual, haverá para todos no modelo em que todos pagam menos", garante o parlamentar.

Como funcionará o IPVA por peso?

Quem é proprietário de veículo pesado, como uma picape de médio porte, pode pagar mais imposto do que um superesportivo leve, como uma Ferrari ou Porsche.

Kataguiri esclarece que a proposta não tratará todos os modelos de forma idêntica:

  • Categorias distintas: veículos de passeio, transporte coletivo e veículos de carga terão alíquotas baseadas no peso, mas com critérios técnicos diferentes para cada modalidade;

  • Incentivo à tecnologia: segundo o deputado, o objetivo é alinhar o Brasil a uma tendência mundial de incentivo à renovação de frota e à fabricação de veículos mais leves e eficientes.

De onde sairá o dinheiro dos estados?

A grande problemática identificada por especialistas em economia é a perda de arrecadação, já que o IPVA é uma das fontes de receita mais importantes para os estados.

Para compensar o impacto estimado de R$ 38 bilhões, o autor da PEC aponta fontes alternativas para o Tesouro:

  • Corte de supersalários: revisão de vencimentos no Judiciário, Ministério Público e carreiras diplomáticas;

  • Publicidade institucional: limitação de gastos de todos os entes federativos a 0,1% da Receita Corrente Líquida;

  • Emendas e renúncias: redução de emendas parlamentares discricionárias e revisão de renúncias tributárias que somam cerca de R$ 200 bilhões.

O que o motorista deve observar?

  • Teto de 1%: se aprovado, estados que hoje cobram entre 3%, 2,5% e 4% (como São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro) terão que reduzir drasticamente a alíquota.}

  • Regressividade: o debate sobre quem paga mais — o carro popular pesado ou o luxuoso leve — continuará sendo o ponto central das discussões na Comissão Especial.

Próximos passos da PEC 3/2026

A PEC agora aguarda a criação de uma Comissão Especial na Câmara para discutir os detalhes técnicos.

O debate promete ser intenso, uma vez que a medida altera profundamente a dinâmica de arrecadação estadual e a forma como o cidadão enxerga o imposto sobre a propriedade.

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