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Seu carro vai sentir a mudança? Entenda os impactos da gasolina com 32% de etanol

Especialista ouvido pelo A TARDE esclarece se a nova mistura pode alterar aspectos dos veículos

Luan Julião
Por
Mudança na composição da gasolina brasileira traz dúvidas para motoristas
Mudança na composição da gasolina brasileira traz dúvidas para motoristas - Foto: Luan Julião / Ag. A TARDE / Gemini

A gasolina brasileira vai passar a ter uma composição diferente a partir de agosto. Com a aprovação do aumento da mistura obrigatória de etanol anidro para 32%, muitos motoristas começaram a se fazer a mesma pergunta: na prática, o carro vai consumir mais combustível? Vai perder autonomia? O desempenho muda? E existe algum risco para a durabilidade do motor?

Embora o governo afirme que a nova mistura não deve provocar impactos relevantes no funcionamento dos veículos, a mudança reacendeu o debate entre especialistas e fabricantes sobre os efeitos do aumento da participação do biocombustível na gasolina.

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Mais do que discutir a política energética por trás da medida, a principal preocupação de quem está atrás do volante é entender como essa alteração pode ser percebida no dia a dia. Afinal, o comportamento de um carro flex é o mesmo de um veículo movido apenas a gasolina? O aumento do teor de etanol interfere no consumo? Vale continuar abastecendo da mesma forma?

Para esclarecer essas dúvidas, o portal A TARDE conversou com o engenheiro especialista em eletrificação e professor do Senai Camaçari, David William Dias, que explicou os efeitos da mudança sob o ponto de vista da engenharia automotiva.

Gasolina rende mais, etanol entrega mais potência

Antes de entender os impactos da nova mistura, é preciso compreender uma diferença básica entre os dois combustíveis. Enquanto a gasolina possui maior densidade energética e, por isso, consegue percorrer distâncias maiores com um mesmo volume, o etanol se destaca por proporcionar uma combustão mais eficiente em termos de potência.

Segundo ele, essa diferença continuará existindo mesmo com o aumento da participação do etanol na gasolina.

O etanol tende a gerar mais potência do que a gasolina, entendeu? Já a gasolina tende a ter um rendimento melhor. Você precisa de menos partes de gasolina porque ela tem uma densidade energética maior do que a do etanol David William Dias - engenheiro especialista em eletrificação

Essa diferença está diretamente ligada à quantidade de energia presente em cada combustível. Enquanto a gasolina possui maior densidade energética e, consequentemente, permite percorrer distâncias maiores utilizando menos combustível, o etanol entrega maior potência durante a combustão.

O especialista explica que isso ocorre porque o motor precisa consumir uma quantidade maior de etanol para produzir o mesmo ciclo de funcionamento.

"Só que, como você precisa de mais partes de etanol para fazer o mesmo ciclo, acaba que o etanol gera uma potência maior no motor, entendeu? Então, no fim do dia, os motores flex não estão muito bem preparados. Eles não são 100% eficientes nem com gasolina, nem com álcool."

Nos veículos flex, essa característica faz parte do próprio projeto do motor.

"Eles ficam no meio-termo para conseguir trabalhar com a mistura dos dois, porque, geralmente, quando está com gasolina, ela não é pura, e sim uma mistura. Então, varia de uma gasolina com baixo teor de etanol até o etanol 100%, quando você abastece apenas com etanol."

Na prática, isso significa que o motorista pode perceber pequenas diferenças no comportamento do veículo, mas elas tendem a ser discretas, principalmente nos modelos mais modernos, desenvolvidos para trabalhar com diferentes proporções de etanol na gasolina.

Autonomia deve continuar favorecendo a gasolina

Embora o aumento da mistura possa trazer um leve ganho de potência em determinadas situações, a autonomia continua sendo uma vantagem da gasolina.

Como ela possui maior densidade energética, é capaz de percorrer uma distância maior com a mesma quantidade de combustível. Já o etanol, apesar de oferecer respostas mais rápidas em acelerações e maior torque, precisa ser consumido em maior volume para entregar a mesma quantidade de energia.

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O especialista resume essa diferença.

"Então, para quem roda pouco ou percorre distâncias curtas, em que o carro não aquece totalmente, a gasolina é o melhor combustível. Também é mais indicada para quem faz viagens longas e quer parar menos para abastecer, porque ela rende mais do que o etanol. Por outro lado, o etanol pode gerar mais potência nas arrancadas e mais torque, porém apresenta uma eficiência menor por ter uma densidade energética inferior à da gasolina."

O aumento de etanol pode reduzir a vida útil do motor?

A durabilidade dos componentes é outro ponto que desperta preocupação entre motoristas.

David William Dias explica que, do ponto de vista das propriedades químicas, a gasolina possui uma vantagem natural por apresentar maior capacidade de lubrificação.

"Levando em consideração os motores dos veículos, a gasolina sai na frente porque é um componente derivado do petróleo. Então, ela tem uma capacidade lubrificante melhor do que a do álcool. Já o álcool tende a reter bastante umidade por conta da sua natureza. Como a gasolina é derivada do petróleo, ela tem propriedades lubrificantes que já vêm do seu processo de produção."

Segundo ele, essa característica beneficia componentes internos do sistema de alimentação e do motor.

"Assim, a gasolina tende a preservar um pouco mais a lubrificação da bomba de combustível e da câmara de combustão. Ao passar por esses componentes, ela acaba formando uma fina película lubrificante. Enquanto isso, o etanol tem uma carga de água maior e menos impurezas do que a gasolina, porém peca nesse aspecto, pois não consegue oferecer essa mesma capacidade de lubrificação devido à sua composição."

Apesar disso, o especialista não afirma que haverá danos imediatos aos motores por causa da mudança. A tendência é que os veículos mais modernos convivam melhor com a nova mistura, enquanto modelos mais antigos poderão sentir alguns efeitos com maior intensidade.

Carros movidos apenas a gasolina podem sentir mais a mudança

Os veículos mais antigos, desenvolvidos para utilizar exclusivamente gasolina, podem ser os que mais perceberão os efeitos do aumento da mistura de etanol.

Isso ocorre principalmente nas partidas realizadas com o motor frio.

"Nos modelos mais antigos, que usam apenas gasolina, quanto maior o teor de álcool, maior a dificuldade para dar partida pela manhã, quando o motor está totalmente frio, principalmente se o clima estiver um pouco mais frio. Isso acontece porque o álcool demora mais para que o motor atinja a temperatura ideal de trabalho, na qual consegue queimar o etanol com o máximo de eficiência e extrair o máximo do combustível."

O especialista reforça que esse comportamento está relacionado ao próprio funcionamento do etanol.

"O motor precisa estar um pouco mais quente. Então, essas primeiras partidas do dia são muito mais críticas. Para os carros que usam apenas gasolina, aumentar o teor de etanol na gasolina, que é a gasolina tipo C que conhecemos hoje, acaba sendo prejudicial, querendo ou não."

Nos automóveis flex, a tendência é que os impactos sejam menores, já que esses motores foram desenvolvidos justamente para operar com diferentes proporções de gasolina e etanol.

E o bolso do consumidor?

Uma das justificativas do governo para ampliar a participação do etanol é a possibilidade de reduzir o preço da gasolina nas bombas.

Ainda assim, para o consumidor, a escolha entre gasolina e etanol continuará dependendo da relação de preços encontrada nos postos.

"Em relação ao preço, se continuar sendo usada a regra dos 70%, ou seja, se a gasolina custar até 70% do preço do etanol, ela continuará valendo mais a pena para o consumidor. Mas acredito que isso não vai continuar, porque o preço deve subir junto com o aumento da adição de etanol. Nesse caso, vai valer mais a pena fazer a conta na bomba."

A importância ambiental da medida

Além dos aspectos econômicos e técnicos, o aumento da mistura também tem um objetivo ambiental.

Segundo o especialista, o etanol contribui para elevar a octanagem da gasolina, melhora a resistência à detonação e reduz a emissão de poluentes.

"O que justifica a adição de etanol à gasolina é o aumento da octanagem, o que torna o combustível mais resistente à detonação e permite um melhor desempenho do motor. Além disso, há a redução das emissões de poluentes, que talvez seja o principal motivo para justificar o aumento da adição de etanol à gasolina tipo C."

Ele ressalta ainda que o Brasil possui uma vantagem competitiva por produzir um combustível renovável em larga escala.

"O ideal, em um cenário perfeito, seria existirem motores que trabalhassem apenas com gasolina, como ela sai da refinaria, sem a adição do oxigenante feita pelos distribuidores. Também seria ideal haver motores desenvolvidos exclusivamente para etanol, porque, assim, seria possível extrair o máximo da eficiência que o etanol pode oferecer e reduzir essa desvantagem que ele tem em relação à gasolina, já que o motor seria projetado especificamente para esse combustível."

"Além disso, a matriz energética do Brasil é, em sua maioria, limpa. O etanol é produzido aqui e é um combustível renovável. Então, o cenário ideal seria termos motores que funcionassem apenas com etanol, sem precisarem ficar nesse meio-termo da engenharia para operar com os dois combustíveis."

O que esperar daqui para frente?

Na avaliação de David William Dias, a mudança deverá ser percebida principalmente pelos proprietários de veículos movidos apenas a gasolina e poderá influenciar o desenvolvimento das próximas gerações de automóveis comercializados no país.

"Em resumo, essa mudança vai afetar diretamente os consumidores. Eles podem perceber alguma dificuldade na partida a frio. Apesar de os carros atuais contarem com tecnologias que minimizam esses problemas, essa dificuldade tende a ser mais perceptível nos veículos movidos apenas a gasolina."

"Também haverá um aumento da umidade presente no combustível, já que o etanol retém mais umidade. Como os motores flex são projetados para trabalhar em um meio-termo entre os dois combustíveis, eles também podem sentir esse impacto. Provavelmente, isso será considerado no desenvolvimento dos próximos veículos que chegarem ao mercado brasileiro."

Para quem abastece frequentemente, a recomendação continua sendo observar o tipo de utilização do veículo e comparar os preços nos postos.

"Para o bolso do consumidor, tudo depende do uso que ele faz do carro. A gasolina tipo C continuará entregando maior eficiência por conta da sua maior densidade energética. Já o etanol continuará oferecendo mais potência, porém será consumido mais rapidamente."

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Desempenho Automotivo Gasolina Brasileira Mistura de Etanol

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