
"É angustiante não saber o que de fato tirou a vida dos meus filhos". A frase dita por Yasmin Conceição Fonseca resume os últimos 17 meses de sua vida.
Desde que perdeu Benjamim Fonseca de Souza, de 7 anos, e Maria Valentina Fonseca, de 5, encontrados mortos dentro de casa, no bairro de Valéria, em Salvador, ela afirma viver presa às perguntas que ainda não tiveram respostas. As crianças morreram em 6 de fevereiro de 2025. A causa da morte até hoje é indefinida.
Em entrevista exclusiva ao A TARDE - a primeira concedida à imprensa desde a tragédia - Yasmin Fonseca rompe o silêncio para falar sobre a dor de perder os dois filhos e a espera pela conclusão da investigação.
Mais do que o luto, Yasmin diz carregar a angústia de não saber o que aconteceu naquele dia que mudou completamente sua vida. "O sentimento é de indignação. A gente fica se perguntando o que aconteceu e, até hoje, não sabe a resposta", desabafa.
Yasmin conta que, ao longo desse período, voltou diversas vezes à 3ª Delegacia de Homicídios Baía de Todos-os-Santos (DH/ BTS), do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), unidade responsável pelo caso. Em todas elas, prestou novos depoimentos, entregou documentos e aguardou informações sobre a investigação.
Mas, a promessa ouvida sempre foi mesma: assim que os laudos fossem concluídos, seria procurada.
"Disseram que, quando o laudo saísse, entrariam em contato comigo. Até hoje, isso não aconteceu. Por telefone, não passam nenhuma informação. Eu fico sem resposta para tudo", relembra a mulher, revelando que tem sido impossível seguir em frente.
O sentimento é de indignação Yasmin Fonseca - mãe que perdeu dois filhos
Uma espera que não termina
Passados mais de 17 meses, Yasmin, que além dos filhos e do ex-marido, Jean Silva da Hora, também apresentou sintomas, lembra que, durante as investigações, realizou diversos exames e recebeu um diagnóstico que, para ela, nunca foi devidamente esclarecido.
"No meu exame apareceu uma bactéria, mas eu preciso dos exames deles para confirmar o que realmente aconteceu", reafirma.
À época, as suspeitas apontavam para três possíveis causas:
- envenenamento
- intoxicação alimentar (por consumo de comida ou gelatina)
- intoxicação por água contaminada.
"Eu fico só nos porquês. Não sei se foi a água, a gelatina ou a alimentação. Não sei de nada. Pela repercussão que o caso teve, esse resultado já deveria ter saído há muito tempo. E eu continuo sem resposta", diz.
Yasmim ficou seis dias internada no Hospital do Subúrbio, em Periperi, em estado grave. Ela teve alta médica no dia 12 de fevereiro. Já o seu marigo também recebeu atendimento no hospital e foi liberado no mesmo dia.
A vida parou
Depois da morte dos filhos, Yasmin deixou o apartamento onde vivia, em Valéria. Ela explica que permanecer no local se tornou impossível e doloroso.
"Mudei de bairro porque não consegui mais viver naquele lugar. Ainda continuo em Salvador porque preciso de respostas. Quando isso acontecer, pretendo ir embora da cidade. Todos os lugares lembram meus filhos, lugares que eu até evito passar", conta ela, em meio a emoção.
Diante da demora e por falta de condições financeiras para contratar um advogado para acompanhar o caso, Yasmin resolveu procurar ajuda na Defensoria Pública, mas não teve resposta positiva. "Eu procurei a Defensoria Pública para tentar conseguir um advogado, mas me disseram que não poderiam atender o caso", afirma.
Enquanto aguarda uma resposta oficial, ela diz que encontra forças apenas na fé e no tratamento psicológico. "O que me mantém de pé, além da terapia, é Deus", finaliza.
"Esperávamos mais atenção"
A dor também é compartilhada por Alexandra de Jesus Fonseca, mãe de Yasmin e avó de Benjamim e Maria Valentina. Ela afirma que a família se sente abandonada desde o início da investigação.
"Eu vejo como um descaso, uma falta de respeito. Eu esperava que, por serem crianças, o caso tivesse uma atenção melhor, mas não teve", desabafa.
Segundo Alexandra, o tempo passou sem que a família recebesse qualquer esclarecimento. "Um ano e cinco meses é muito tempo. A família está esperando uma resposta e, até hoje, nada. Perdi duas crianças. Vejo casos menos graves sendo solucionados rapidamente, e o delas continua sem resposta", lamenta a senhora.
Falha nas investigações?
Para a avó, a investigação perdeu força depois dos primeiros dias. Ela afirma que, após as diligências iniciais, ninguém voltou ao local. "Depois do começo das investigações, ninguém voltou lá [no apartamento]. Não fizeram mais nada", revela ela.
"A água foi recolhida de forma errada. Pelo que soube, usaram uma garrafa comum, quando deveria ser um recipiente próprio para esse tipo de coleta. As únicas coisas que recolheram foram as vasilhas da comida e da gelatina", aponta.
Apesar das suspeitas levantadas na época, Alexandra evita apontar qualquer causa para a morte dos netos. Ela diz que somente a conclusão dos exames poderá esclarecer o que realmente aconteceu. "Não sei dizer se foi a água ou outra coisa. Isso só os órgãos responsáveis podem responder", avalia.
A avó das crianças recordou que, na época em que Yasmin esteve internada foram realizados vários exames e possibilidade de envenenamento foi descartada. "No exame de Yasmin apareceu uma bactéria no estômago. Não deu envenenamento, mas deu essa bactéria", reforça.
Ao lembrar das condições do conjunto habitacional onde a família morava, Alexandra diz que o local apresentava problemas, mas reforça que cabe à perícia estabelecer qualquer relação.
"O lugar era muito sujo, muito largado. Mas eu não posso afirmar o que causou a morte. Só a investigação pode esclarecer", reafirmou.
O caso
Na manhã de 6 de fevereiro de 2025, Benjamim Fonseca de Souza, de 7 anos, e Maria Valentina Fonseca, de 5, foram encontrados mortos no apartamento onde moravam com a mãe, Yasmin Conceição Fonseca, e o padrasto, Jean Silva da Hora, no Residencial Lagoa da Paixão, em Valéria, Salvador.
Na ocasião, a principal linha investigativa trabalhava com a hipótese de envenenamento. Yasmin também passou mal, foi socorrida e permaneceu internada em estado grave.

A avó das crinças já havia concedido entrevista ao A TARDE e, na ocasião, disse não acreditar que a filha ou o genro tivessem qualquer participação na morte das crianças. De acordo com ela, todos família haviam apresentado sintomas como dores abdominais, diarreia, náuseas e vômitos.
À época, contou que Yasmin era extremamente cuidadosa com os filhos e havia deixado o trabalho para se dedicar às crianças, principalmente a Benjamim, que era diagnosticado com transtorno do espectro autista. Naquele período, a avó também relatou que Yasmin não pôde comparecer ao sepultamento dos filhos devido ao estado de saúde.
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Mais de um ano depois, a investigação ainda não apresentou uma resposta definitiva para a família. Enquanto aguarda a conclusão dos laudos e do inquérito, Yasmin diz continuar vivendo entre a saudade dos filhos e a esperança de finalmente descobrir o que aconteceu naquele dia 6 de fevereiro de 2025.
O que dizem os órgãos?
O Portal A TARDE questionou a Polícia Civil quanto ao andamento do processo. Em nota, o órgão respondeu informou que segue "no aguardo dos laudos periciais para o prosseguimento do inquérito policial. Oitivas e diligências são realizadas para a completa elucidação do caso".
A reportagem também acionou o Departamento de Polícia Técnica (DPT). Em resposta, a instituição afirmou que "os laudos das necropsias dos menores Benjamim e Maria Valentina foram concluídos e entregues em 13 de agosto de 2025" e que para a conclusão definitiva do laudo da causa da morte, foram solicitados exames complementares de maior complexidade, incluindo análises toxicológicas, que estão em fase final de processamento no Laboratório Central de Polícia Técnica.
A Defensoria Pública da Bahia foi procurada pelo A TARDE para informar o motivo pelo qual Yasmin não teve acesso ao acompanhamento de um profissional que pudesse orientá-la na busca por esclarecimentos sobre as mortes das crianças. Até a publicação dessa matéria, o órgão não havia enviado respostas.










