CONTRADIÇÃO
Licitação de R$ 30 mi para terceirização bate recorde em Itapetinga
Medida ocorre um mês após demissões da gestão sob pretexto de economia

Por Rodrigo Tardio

O cenário político e administrativo de Itapetinga, centro sul da Bahia, foi surpreendido na última sexta-feira, 16, com a publicação no Diário Oficial de um processo licitatório recorde. O prefeito Eduardo Hagge (MDB) autorizou a contratação de serviços de terceirização de mão de obra que, somados, podem atingir o montante de R$ 29.910.125,00 (vinte e nove milhões, novecentos e dez mil, cento e vinte e cinco reais).
Trata-se do maior contrato desta modalidade registrado nos mais de 70 anos de emancipação do município. A magnitude das cifras impressiona quando comparada a outras áreas essenciais.
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O valor total previsto no registro de preços é mais que o dobro da receita anual estimada da Câmara Municipal, que é de R$ 12 milhões e representa cerca de 40% de todo o orçamento planejado para a Secretaria de Saúde em 2026 (R$ 75,5 milhões).


Contradição administrativa
A decisão do Executivo gera questionamentos sobre a coerência da gestão. Em dezembro de 2025, o prefeito Eduardo Hagge assinou um decreto de demissões em massa de aliados e prestadores de serviço, justificando, na época, a necessidade imperiosa de "cortar gastos" e buscar "economicidade".
Entretanto, especialistas em gestão pública advertem que o modelo de terceirização faz o caminho inverso da economia. Enquanto na contratação direta o custo resume-se ao salário e encargos, na terceirização a prefeitura paga, além destes, uma taxa administrativa à empresa vencedora. Na prática, um posto de trabalho que custaria R$ 3 mil reais pode chegar a R$ 6 mil para os cofres públicos.
Recomposição
Nos bastidores da política local, a manobra é interpretada como um movimento estratégico de poder. Após o rompimento e a dispensa de quadros históricos ligados ao pai, o ex-prefeito Michel Hagge, Eduardo Hagge estaria utilizando a mega-licitação como ferramenta para consolidar um grupo político próprio.
A estrutura terceirizada permitiria o preenchimento de cargos por indicações de novos vereadores aliados e lideranças partidárias, porém sob um custo operacional significativamente mais elevado para o contribuinte de Itapetinga.
Empresa vencedora
Os termos de adjudicação indicam que os serviços se destinam ao apoio de atividades operacionais e administrativas em diversas secretarias. Até o momento, a empresa 'RG SOLUÇÕES LTDA', sediada em Barreiras (BA), já arrematou lotes que totalizam R$ 8.790.880,00 (oito milhões, setecentos e noventa mil, oitocentos e oitenta reais).
A empresa, de propriedade do empresário Renan Guimarães dos Anjos, possui capital social de R$ 5 milhões, valor bem abaixo do teto global da contratação pretendida pela prefeitura.
Sobre esse assunto, a reportagem procurou a Prefeitura de Itapetinga e anda aguarda resposta aos questionamentos.
Demissões
Mês passado, ao ser questionado sobre o desligamento de aliados e servidores, Hagge foi enfático: “Quanto às demissões, não vou me ater a coisas pequenas”.
A frase, no entanto, caiu como uma bomba nos bastidores da Câmara Municipal e entre os defensores do grupo político fundado pelo pai, o ex-prefeito Michel Hagge.
As exonerações, publicadas em edições extraordinárias, não pouparam cargos de segundo e terceiro escalões e atingiram diretamente as bases de apoio de vereadores aliados.
Fidelidade sob pressão
Diferente de um ajuste fiscal convencional, a movimentação é interpretada por analistas locais como um "filtro ideológico". A estratégia seria demitir para testar a lealdade: apenas os que declararem fidelidade irrestrita ao atual projeto do prefeito seriam recontratados.
Para membros da velha guarda do MDB, a manobra ignora décadas de construção política em troca de um isolamento perigoso.
"Eduardo está fritando o próprio grupo ao ouvir conselheiros erráticos. É um erro que custará caro nas urnas", afirmou um integrante histórico do partido, sob condição de anonimato.
Ruptura familiar
O isolamento de Eduardo Hagge é acentuado pelo racha com seu sobrinho, o ex-prefeito Rodrigo Hagge. Mentor da eleição do tio, Rodrigo hoje mantém uma postura de distanciamento público. Informações de bastidores indicam que ele já articula uma nova frente política ao lado da principal expoente da oposição, Cida Moura (PSD).
A expectativa é que, após o Carnaval, seja anunciado um "supergrupo" capaz de polarizar a disputa eleitoral, deixando o atual prefeito em uma situação de fragilidade política.
Caso a profecia dos aliados se confirme, o que o prefeito hoje chama de "coisas pequenas" pode se tornar o estopim de um desfecho histórico para o capital político em Itapetinga.
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