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ENTENDA OS IMPACTOS

Gasolina com 32% de etanol: quais carros merecem mais atenção?

Ministros vão se reunir para tratar sobre o assunto

Edvaldo Sales
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| Atualizada em
Ministros vão se reunir para tratar sobre o assunto
Ministros vão se reunir para tratar sobre o assunto - Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

O ministro da Defesa, José Múcio, deve se reunir em breve com o ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União (TCU), para tratar do questionamento sobre a legitimidade das medidas obrigatórias para a aprovação da elevação da mistura do etanol na gasolina de 30% para 32%.

O aumento foi aprovado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em julho. Em análise no TCU, a representação questiona se foram observados todos os requisitos técnicos e regulatórios previstos para a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina.

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Entre os pontos levantados estão a suficiência dos testes realizados e os potenciais impactos da medida sobre motores e equipamentos. Múcio disse que defenderá, perante a Corte, que o histórico de aumentos graduais da participação de biocombustíveis na matriz de combustíveis do País demonstra a segurança e a eficácia da medida.

O ministro da Defesa pontuou que “estamos discutindo por que houve o questionamento na Corte. O biocombustível é um produto brasileiro, desenvolvido por brasileiros e nós ficamos criando problemas. Já houve experiências. Quando isso vai pra rua, porque já fizeram experiência, quando a coisa funcionou. Tem muitos técnicos envolvendo isso e isso não é uma coisa recente”.

Além disso, Múcio disse ainda que há a “boa vontade” do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em manter a mistura: “O ministro de Minas e Energia tem uma boa vontade para que essa mistura aumente e possa ficar até o final do ano aumentando mais.”

A mudança reacendeu o debate entre especialistas e fabricantes sobre os efeitos do aumento da participação do biocombustível na gasolina. Para esclarecer algumas dúvidas, o portal A TARDE conversou com o engenheiro especialista em eletrificação e professor do Senai Camaçari, David William Dias, que explicou os efeitos da mudança sob o ponto de vista da engenharia automotiva.

Gasolina rende mais, etanol entrega mais potência

Antes de entender os impactos da nova mistura, é preciso compreender uma diferença básica entre os dois combustíveis. Enquanto a gasolina possui maior densidade energética e, por isso, consegue percorrer distâncias maiores com um mesmo volume, o etanol se destaca por proporcionar uma combustão mais eficiente em termos de potência.

Essa diferença continuará existindo mesmo com o aumento da participação do etanol na gasolina e está diretamente ligada à quantidade de energia presente em cada combustível.

O especialista explicou que isso ocorre porque o motor precisa consumir uma quantidade maior de etanol para produzir o mesmo ciclo de funcionamento. “Só que, como você precisa de mais partes de etanol para fazer o mesmo ciclo, acaba que o etanol gera uma potência maior no motor. No fim do dia, os motores flex não estão muito bem preparados. Eles não são 100% eficientes nem com gasolina, nem com álcool”, disse.

Nos veículos flex, essa característica faz parte do próprio projeto do motor. “Eles ficam no meio-termo para conseguir trabalhar com a mistura dos dois, porque, geralmente, quando está com gasolina, ela não é pura, e sim uma mistura. Varia de uma gasolina com baixo teor de etanol até o etanol 100%, quando você abastece apenas com etanol”, explicou.

Na prática, isso significa que o motorista pode perceber pequenas diferenças no comportamento do veículo, mas elas tendem a ser discretas, principalmente nos modelos mais modernos, desenvolvidos para trabalhar com diferentes proporções de etanol na gasolina.

Autonomia deve continuar favorecendo a gasolina

Embora o aumento da mistura possa trazer um leve ganho de potência em determinadas situações, a autonomia continua sendo uma vantagem da gasolina. Como ela possui maior densidade energética, é capaz de percorrer uma distância maior com a mesma quantidade de combustível.

Já o etanol, apesar de oferecer respostas mais rápidas em acelerações e maior torque — que é a força que o motor produz para empurrar o carro para frente —, precisa ser consumido em maior volume para entregar a mesma quantidade de energia.

“Para quem roda pouco ou percorre distâncias curtas, em que o carro não aquece totalmente, a gasolina é o melhor combustível. Também é mais indicada para quem faz viagens longas e quer parar menos para abastecer, porque ela rende mais do que o etanol. Por outro lado, o etanol pode gerar mais potência nas arrancadas e mais torque, porém apresenta uma eficiência menor por ter uma densidade energética inferior à da gasolina”, detalhou.

Aumento de etanol pode reduzir a vida útil do motor?

David William explicou que, do ponto de vista das propriedades químicas, a gasolina possui uma vantagem natural por apresentar maior capacidade de lubrificação.

Levando em consideração os motores dos veículos, a gasolina sai na frente porque é um componente derivado do petróleo. Ela tem uma capacidade lubrificante melhor do que a do álcool. Já o álcool tende a reter bastante umidade por conta da sua natureza. Como a gasolina é derivada do petróleo, ela tem propriedades lubrificantes que já vêm do seu processo de produção. David William Dias - engenheiro especialista em eletrificação

Segundo ele, essa característica beneficia componentes internos do sistema de alimentação e do motor. “Assim, a gasolina tende a preservar um pouco mais a lubrificação da bomba de combustível e da câmara de combustão. Ao passar por esses componentes, ela acaba formando uma fina película lubrificante. Enquanto isso, o etanol tem uma carga de água maior e menos impurezas do que a gasolina, porém peca nesse aspecto, pois não consegue oferecer essa mesma capacidade de lubrificação devido à sua composição”, acrescentou.

Apesar disso, o especialista não afirma que haverá danos imediatos aos motores por causa da mudança. A tendência é que os veículos mais modernos convivam melhor com a nova mistura, enquanto modelos mais antigos poderão sentir alguns efeitos com maior intensidade.

Carros movidos apenas a gasolina podem sentir mais a mudança

Os veículos mais antigos, desenvolvidos para utilizar exclusivamente gasolina, podem ser os que mais sentirão os efeitos do aumento da mistura de etanol. Isso ocorre principalmente nas partidas realizadas com o motor frio.

“Nos modelos mais antigos, que usam apenas gasolina, quanto maior o teor de álcool, maior a dificuldade para dar partida pela manhã, quando o motor está totalmente frio, principalmente se o clima estiver um pouco mais frio. Isso acontece porque o álcool demora mais para que o motor atinja a temperatura ideal de trabalho, na qual consegue queimar o etanol com o máximo de eficiência e extrair o máximo do combustível”, detalhou.

O especialista reforçou que esse comportamento está relacionado ao próprio funcionamento do etanol. “O motor precisa estar um pouco mais quente. Essas primeiras partidas do dia são muito mais críticas. Para os carros que usam apenas gasolina, aumentar o teor de etanol na gasolina, que é a gasolina tipo C que conhecemos hoje, acaba sendo prejudicial, querendo ou não”, falou.

Nos automóveis flex, a tendência é que os impactos sejam menores, já que esses motores foram desenvolvidos justamente para operar com diferentes proporções de gasolina e etanol.

E o bolso do consumidor?

Uma das justificativas do governo para ampliar a participação do etanol é a possibilidade de reduzir o preço da gasolina nas bombas. Ainda assim, para o consumidor, a escolha entre gasolina e etanol continuará dependendo da relação de preços encontrada nos postos.

Em relação ao preço, se continuar sendo usada a regra dos 70%, ou seja, se a gasolina custar até 70% do preço do etanol, ela continuará valendo mais a pena para o consumidor. Mas acredito que isso não vai continuar, porque o preço deve subir junto com o aumento da adição de etanol. Nesse caso, vai valer mais a pena fazer a conta na bomba. David William Dias - engenheiro especialista em eletrificação

O que esperar daqui para frente?

Na avaliação de David William Dias, a mudança deverá ser percebida principalmente pelos proprietários de veículos movidos apenas a gasolina e poderá influenciar o desenvolvimento das próximas gerações de automóveis comercializados no país.

“Em resumo, essa mudança vai afetar diretamente os consumidores. Eles podem perceber alguma dificuldade na partida a frio. Apesar de os carros atuais contarem com tecnologias que minimizam esses problemas, essa dificuldade tende a ser mais perceptível nos veículos movidos apenas a gasolina”, alertou.

Além disso, “também haverá um aumento da umidade presente no combustível, já que o etanol retém mais umidade. Como os motores flex são projetados para trabalhar em um meio-termo entre os dois combustíveis, eles também podem sentir esse impacto. Provavelmente, isso será considerado no desenvolvimento dos próximos veículos que chegarem ao mercado brasileiro”.

Para quem abastece frequentemente, a recomendação continua sendo observar o tipo de utilização do veículo e comparar os preços nos postos. “Para o bolso do consumidor, tudo depende do uso que ele faz do carro. A gasolina tipo C continuará entregando maior eficiência por conta da sua maior densidade energética. Já o etanol continuará oferecendo mais potência, porém será consumido mais rapidamente”, completou.

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biocombustível brasil etanol gasolina

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