CRISE
O drama dos pacientes com desabastecimento global do Mounjaro
Fabricada pela Eli Lilly, produção mundial da medicação não tem conseguido acompanhar demanda

A falta do Mounjaro (tirzepatida) nas farmácias tornou-se um dos tópicos mais discutidos — e frustrantes — para pacientes que tratam diabetes tipo 2 e obesidade. A medicação, fabricada pela farmacêutica Eli Lilly, é um agonista duplo, que age nos receptores GLP-1 e GIP, o que o torna mais potente que o Ozempic.
O produto tornou-se o "padrão ouro" devido à eficácia superior, porém a procura foi tão grande que a produção global não conseguiu acompanhar o ritmo.
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Sumiço do Mounjaro
De acordo com a Dra. Flávia Coimbra, endocrinologista e diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o desabastecimento não é um problema exclusivo do Brasil, mas um fenômeno global.
"O desabastecimento já tem acontecido há algum tempo. É algo periódico, falta em um determinado momento e o mercado reabastece. Nesses últimos meses, observamos que algumas doses como a de 2,5 mg, porém as doses de 5; 7,5 e 10 mg não observamos essa falta", disse.
A procura tem sido explosiva, tanto para o tratamento de diabetes quanto para o uso off-label (emagrecimento).
Impacto
A interrupção brusca do tratamento pode causar o "efeito rebote", onde o paciente sente um aumento súbito do apetite e, no caso de diabéticos, uma descompensação nos níveis de glicose.
"As pessoas que têm diabetes, o grande problema é da interrupção abrupta é que pode haver um descontrole da glicose. A glicose vem controlada pelo uso do medicamento, e se suspende imediatamente, o paciente pode ter uma hiperglicemia, o que pode trazer uma descompensação do diabetes. Já as pessoas que têm obesidade, a interrupção momentânea não tem tanto problema, como dois ou três dias, porém a falta do medicamento acima de duas semanas, caso o paciente já esteja em uma dose maior, vai ter que voltar para dose menor e acostumar com o remédio", afirmou a Dra. Flávia Coimbra.
Canetas paraguaias
O alto custo dos medicamentos para o tratamento do diabetes e da obesidade no Brasil, bem como a falta do Mounjaro, têm provocado uma migração de consumidores para o mercado paraguaio. E é aí que mora o perigo.
Diante de preços que podem superar o salário mínimo nacional, brasileiros utilizam plataformas como Facebook, TikTok e grupos de WhatsApp para compartilhar estratégias de acesso a versões dos fármacos comercializadas no país vizinho, como o Lipoless (do laboratório Éticos) e o T.G. (da Indufar).
A disparidade de preços é o principal motor do fenômeno. No mercado brasileiro, o preço de tabela do medicamento Mounjaro, na dosagem de 2,5 mg, é de R$ 1.562,66, de acordo com a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).
Em contrapartida, em farmácias paraguaias, doses equivalentes do T.G. são encontradas por cerca de R$ 294, enquanto a versão de 15 mg do Lipoless custa a partir de R$ 770.
Comércio digital
Para além do turismo de saúde na fronteira, as redes sociais tornaram-se um balcão de negócios informal. Nos comentários de publicações que funcionam como tutoriais, vendedores oferecem o produto diretamente para quem não pode viajar. Nesses casos, os valores flutuam entre R$ 500 e R$ 1.500, dependendo da dosagem e da logística de entrega.
Embora as versões paraguaias sejam produzidas por laboratórios locais, o monitoramento das autoridades sanitárias brasileiras sobre a eficácia e o transporte adequado desses itens, que muitas vezes exigem refrigeração, permanece como um ponto de alerta para especialistas do setor.
A ansiedade de não encontrar a próxima dose tem levado muitos a percorrerem dezenas de farmácias ou buscarem alternativas arriscadas.
"O medicamento falso que costuma prometer substituir o Mounjaro, além de arriscado, tem vindo de fora do país transportado de forma incorreta, como em pneus de caminhão por exemplo, sem o adequado condicionamento e refrigeração", disse a especialista.
Escalonamento
O tratamento é desenhado como uma escada, subindo degrau por degrau para que o corpo não "se assuste" com o medicamento. A dose Inicial é de 2,5 mg uma vez por semana, geralmente mantida por 4 semanas.
Esta dose não foca na perda de peso imediata ou no controle glicêmico total, já que ela serve para ajustar o sistema digestivo à medicação e minimizar efeitos colaterais, como náuseas por exemplo.
O que acontece depois?
Após as primeiras 4 semanas, se a tolerância for boa, o médico geralmente prescreve o aumento para 5 mg. Os incrementos continuam de 2,5 mg em 2,5 mg, se necessário, até atingir a dose de manutenção ideal para cada paciente, podendo chegar ao máximo de 15 mg.
A aplicação é feita via subcutânea (barriga, coxa ou parte superior do braço), sempre no mesmo dia da semana. Beber muita água ajuda a reduzir possíveis desconfortos gástricos iniciais.
Especialistas alertam para que nunca altere a dose ou pule etapas sem o aval do endocrinologista, pois o risco de efeitos colaterais intensos aumenta muito, caso o escalonamento for ignorado.
Caso o paciente fique muito tempo sem a droga e tente voltar direto na dose alta, os efeitos colaterais (náuseas e vômitos) podem ser muito mais severos.
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