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Substituto de agrotóxico proibido na Europa já soma mortes no Brasil

Casos de intoxicação cresceram após avanço do uso do diquate no país

Isabela Cardoso
Por
Agrotóxicos
Agrotóxicos - Foto: MARCELO CURIA/PUBLIC EYE

Enquanto o paraquate foi retirado do mercado brasileiro por riscos à saúde, outro herbicida da mesma família química ganhou espaço nas lavouras. O aumento do uso do diquate coincide com a alta de casos de intoxicação no país.

O diquate, utilizado para eliminar plantas daninhas em culturas como soja, milho, algodão, feijão e batata, multiplicou seu consumo no Brasil desde a proibição do paraquate, em 2017.

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O crescimento da utilização também veio acompanhado de um aumento nas notificações de intoxicação registradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Entre 2018 e 2025, foram contabilizados 250 casos de intoxicação por diquate, incluindo 40 mortes, segundo levantamento da Repórter Brasil em parceria com a organização suíça Public Eye, com base em dados oficiais do SUS.

O tema ganhou destaque porque o produto segue autorizado no Brasil, embora esteja proibido na União Europeia, Inglaterra e Suíça.

Uso do diquate disparou após saída do paraquate

O paraquate foi banido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) após estudos associarem sua exposição a mutações genéticas e ao aumento do risco de desenvolver doença de Parkinson.

Desde então, o diquate passou a ocupar parte desse mercado. Dados do Ibama mostram que o volume comercializado aumentou cerca de dez vezes até 2024.

Hoje, grande parte do herbicida utilizado no país é importada. A marca mais conhecida é o Reglone, fabricado pela multinacional Syngenta, apontada pela investigação como responsável pela maioria dos casos de intoxicação registrados.

Casos de intoxicação cresceram mais de 1.000%

Os registros oficiais mostram uma escalada rápida. Em 2018, foram apenas seis notificações envolvendo diquate. Já em 2025, esse número chegou a 71 casos, crescimento superior a 1.000%.

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Embora represente uma parcela pequena do total de intoxicações por agrotóxicos notificadas no país, especialistas afirmam que a velocidade desse aumento preocupa.

A médica toxicologista Bruna Telles Scola, do Centro de Informação Toxicológica do Rio Grande do Sul (CIT-RS), afirma que somente nos primeiros meses de 2026 o estado já registrava quase a mesma quantidade de casos atendidos durante todo o ano anterior.

Acidentes, suicídios e mortes no campo

Dos 250 casos registrados entre 2018 e 2025, 34 foram classificados como suicídios, outros 77 como tentativas, além de seis mortes acidentais.

Mais da metade das notificações também foi registrada como acidente de trabalho, envolvendo principalmente agricultores durante o preparo ou aplicação do produto.

O Rio Grande do Sul concentrou o maior número de intoxicações recentes e também liderou as vendas do herbicida em 2024.

Um dos casos ocorreu em Guaporé (RS), quando o agricultor Nelson Castoldi, de 80 anos, ingeriu acidentalmente o produto após ele ser armazenado em uma garrafa de refrigerante.

Segundo familiares, o líquido foi confundido com uma bebida durante o trabalho na lavoura. Ele morreu dois dias depois por insuficiência respiratória.

Sintomas podem atingir rins, pulmões e cérebro

Especialistas explicam que o diquate pode provocar lesões graves em diversos órgãos. Entre os sintomas mais comuns estão:

  • náuseas e vômitos;
  • tontura e fraqueza intensa;
  • confusão mental;
  • alterações na fala;
  • convulsões;
  • insuficiência renal;
  • comprometimento pulmonar.

Segundo médicos que acompanham pacientes intoxicados, exposições repetidas também levantam preocupação com possíveis danos ao sistema nervoso central e sintomas semelhantes aos observados em quadros de parkinsonismo.

Europa proibiu o produto

O diquate deixou de ser autorizado na União Europeia após uma reavaliação realizada em 2018 concluir que havia risco elevado para trabalhadores rurais e moradores de áreas próximas às lavouras.

O herbicida também não pode mais ser utilizado na Inglaterra e na Suíça, país onde está localizada a sede global da Syngenta. No Brasil, porém, o registro continua válido.

Em nota enviada à investigação, a empresa afirmou que o produto é seguro quando utilizado conforme as orientações da bula e do receituário agronômico. Também declarou que diferenças entre legislações de países não significam, por si só, que um produto seja considerado inseguro.

Equipamentos de proteção também geram debate

Outro ponto discutido pelos especialistas é a eficácia dos equipamentos de proteção individual (EPIs).

Durante a reavaliação europeia, técnicos concluíram que, mesmo utilizando todos os equipamentos recomendados, a exposição dos trabalhadores ainda permanecia acima dos níveis considerados aceitáveis.

A discussão lembra o processo que levou ao banimento do paraquate no Brasil, quando a Anvisa também concluiu que os EPIs não eliminavam totalmente os riscos de intoxicação durante a aplicação do produto.

Especialistas defendem que, além do uso correto dos equipamentos, a responsabilidade pela redução dos riscos deve envolver fabricantes, órgãos reguladores e toda a cadeia produtiva.

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agricultura agrotóxicos Saúde

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