CADERNO 2
Música Oito anos após a estreia, Mariene de Castro e Almério trazem, nesta sexta-feira
Espetáculo que deu origem a álbum indicado ao Latin Grammy


Há quem acredite em paixão à primeira vista, geralmente associada ao amor romântico. Mas esse tipo de conexão também pode surgir nas amizades. Foi assim com Mariene de Castro e Almério. A admiração foi imediata e recíproca. Em pouco tempo, tornou-se amizade e encontrou na música um espaço para se firmar. Dessa relação nasceu AcasoCasa, álbum e espetáculo construídos a partir de um afeto genuíno entre os dois artistas.
O público soteropolitano poderá testemunhar esse encontro de perto nesta sexta-feira (21), às 19h, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. O espetáculo reúne duas das vozes mais marcantes da música brasileira contemporânea em uma apresentação pautada pela emoção, pela cumplicidade e pela força da canção.
O projeto nasceu de um encontro musical promovido por Zé Maurício Machline, que aproximou os artistas e revelou uma afinidade que ultrapassava o palco. O resultado foi o álbum Acaso Casa (Ao Vivo), indicado ao Grammy Latino, categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. O espetáculo retorna agora aos palcos oito anos desde a estreia, preservando a intimidade que marcou sua origem e ampliando a experiência desse encontro.
No palco, Mariene e Almério revisitam esse repertório a partir da relação construída ao longo dos anos. Entre canções, trocas e memórias, a saudade também ganha espaço, sentimento que, como define Almério, é profundamente brasileiro e parece traduzir parte daquilo que os une.
“Para a gente estrear esse show tanto na Bahia quanto em Recife é muito simbólico, muito importante, porque a gente está partindo das nossas casas. E AcasoCasa não é só a simbologia de a gente ter se encontrado por acaso. É porque a gente fala da nossa casa mais profunda, dos nossos brejos, do chão do sertão de Almério, que é de Altinho e traz todo esse universo interiorano. Nós dois somos muito interioranos”, explica Mariene.
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Conexão espontânea
Nascida em Salvador, Mariene de Castro é uma das principais intérpretes da música brasileira, com uma trajetória marcada pela valorização das matrizes afro-brasileiras e da cultura popular baiana. Natural de Altinho, em Pernambuco, Almério se destaca entre as grandes vozes de sua geração pelo diálogo entre a tradição nordestina e a canção contemporânea.
Vindos de trajetórias diferentes, os dois se reconheceram nas próprias histórias de vida, marcadas pelas lutas, pelos desafios e a persistência para transformar sonhos em realidade. A identificação ultrapassou a música e se transformou em amizade.
A conexão é tão espontânea que surpreende até pessoas próximas a Mariene, como conta Almério ao lembrar de uma passagem dos dois por Castro Alves. “Eu fui gravar o novo projeto dela, ela me chamou, pegou no meu braço e saiu correndo na rua, em Castro Alves. Um amigo dela, que trabalha com ela há muitos anos, disse que nunca tinha visto Mariene fazer aquilo. Ela só vira criança com você”, relembra.
A imagem da criança aparece também na maneira como Almério enxerga a relação dos dois e o que ela leva para o palco. “Eu acho que a gente leva para o palco esse estado, esse carinho genuíno entre vocês. Tem coisa mais verdadeira do que uma criança? A criança fala, a criança sente e logo fala. Acho que esse show carrega essa energia da criança no palco, essa energia criativa, motora, febril”, afirma.

Cantando avessos
Mariene também recorre a uma imagem para definir a conexão. “Eu sinto que você é a pessoa mais parecida comigo que eu conheço, só que do lado do avesso”. A frase, além de sintetizar a relação, aparece logo no início do espetáculo, na música Avesso, de Ceumar e Alice Ruiz.
É com Avesso que Mariene e Almério apresentam ao público a chave para compreender o encontro. O verso “Eu sinto que você é a pessoa mais parecida comigo que eu conheço, só que do lado do avesso” estabelece a relação entre os dois e dá o tom de um espetáculo construído a partir das semelhanças, diferenças e histórias que compartilham.
“Cantando seus avessos”, os artistas conduzem o público por questões e lugares ligados à simplicidade da alma que, diante das urgências do mundo contemporâneo, acabam sendo esquecidos. É o caso de Eu me amo, de Flávio Leandro e Elmo Oliveira, que traz o verso “escrever um ‘Eu me amo’ cada vez que a voz do mundo me disser que não”. Entre afetos, memórias, inquietações e canções, AcasoCasa constrói um espaço de escuta, reconhecimento e encontro.
A pausa
AcasoCasa estreou no Rio de Janeiro em 2018, com duas apresentações no Teatro Jockey Club. Logo depois, o encontro ganhou registro em um álbum ao vivo, gravado na Casa do Choro, no Rio.
A decisão foi preservar no disco a espontaneidade daquele momento inicial, quando a parceria ainda estava em seu “estado febril”, como define Mariene.
“Quando a gente fez esses shows de estreia no Rio, foi logo gravar o álbum ao vivo, para pegar a gente ainda em estado febril, aquela espontaneidade. E foi tão verdadeiro que o álbum, um ano depois, foi indicado ao Grammy Latino, reafirmando o poder e a força do nosso encontro e da música brasileira”, conta.
A parceria, porém, precisou ser interrompida justamente quando começava a ganhar novos caminhos. Em 2020, Mariene e Almério ensaiavam para uma turnê nacional e internacional quando a pandemia de Covid-19 suspendeu os planos.
Com ingressos vendidos, passagens compradas e figurinos preparados, os dois precisaram cancelar a temporada. Almério retornou a Pernambuco nos últimos voos antes da interrupção das viagens.
O reencontro aconteceu de forma virtual. Durante a pandemia, os artistas realizaram uma live gravada na Chapada Diamantina, nos arredores de Igatu, em uma superprodução realizada especialmente para o público que já havia comprado ingressos e para quem quisesse acompanhar a apresentação.
Depois, cada um seguiu com seus próprios projetos até que o AcasoCasa voltasse a ganhar espaço na agenda.
O retorno aos palcos ganhou uma primeira amostra em uma apresentação no Teatro Atheneu, em São Paulo.
Agora, oito anos depois da estreia, AcasoCasa chega à Bahia com o repertório revisitado e atualizado, mas preservando a essência de um encontro que precisou atravessar uma longa pausa antes de voltar a acontecer diante do público.
Retorno da Casa
Entre solos e duetos, Mariene e Almério revisitam clássicos da música brasileira e apresentam canções que dialogam com suas identidades artísticas. O repertório reúne obras como Mudança, Anjo Querubim, Quero Você, Choro, Confidências, 13 de Maio, Sinhá, Bembé e Ponto de Nanã, além de outras surpresas que reforçam o caráter vivo e renovado da apresentação.
Com figurinos assinados por Thomas Azulay e direção artística construída a partir da sensibilidade dos próprios intérpretes, o espetáculo coloca as vozes e a presença dos artistas no centro da cena.
A nova temporada tem direção musical de Webster Santos, que também toca violão e viola, ao lado de Rubem França, no violão de oito cordas e cavaquinho; Gel Barbosa, na sanfona; e Fábio Cunha e Luan Badaró, na percussão.
Sob direção de Zé Maurício Machline, AcasoCasa transforma a relação entre Mariene e Almério em experiência compartilhada com o público.
Se o espetáculo começa com Avesso, apresentando dois artistas que se reconhecem um no outro, o restante da apresentação amplia esse encontro para falar de memória, afeto, identidade, fé e das pequenas coisas que a velocidade do mundo costuma deixar pelo caminho.
Depois de oito anos, a casa está novamente aberta. E, dessa vez, o encontro parte de duas origens que se reconhecem e se atravessam no palco, entre a Bahia e Pernambuco, entre a tradição e o presente, entre aquilo que os artistas mostram e aquilo que guardam do lado de dentro.
“Essa é a estreia oficial desse show. Parece que tudo foi ensaio antes. Mas tem uma parte no show que as pessoas vão precisar levar um lencinho. A gente vai cantar a saudade que mora dentro dos nossos peitos. Cantar a saudade de uma maneira muito profunda, muito doída”, conclui Almério.
MARIENE DE CASTRO E ALMÉRIO - ACASO CASA / Sexta-feira (21), 19h / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 120 e R$ 60 / Vendas: Bilheteria TCA ou Sympla / Classificação indicativa: 16 anos
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

