O Carnaval de Salvador não começa quando o trio liga o som — ele começa muito antes, nos tambores que ecoam resistência, nas cores que carregam memória e nos corpos que ocupam a rua como afirmação. Falar dos blocos afros de Salvador é falar de um movimento que transformou a maior festa de rua do planeta em território de identidade, ancestralidade e disputa simbólica.
Criados à margem de um Carnaval historicamente excludente, os blocos afros romperam cercas sociais, políticas e culturais. Levaram para o centro da festa aquilo que antes era empurrado para a periferia: a cultura negra, os saberes africanos, a estética do povo preto e um discurso direto contra o racismo. Mais do que animar a folia, esses blocos ensinaram Salvador — e o Brasil — a se olhar no espelho.
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Quais são os blocos afros de Salvador e como surgiram?
Os blocos afros surgem nos anos 1970, em um contexto de forte segregação racial e repressão política, em plena ditadura militar. Até então, a presença negra no Carnaval era tolerada apenas à margem dos grandes circuitos, longe dos holofotes e do prestígio social.
O ponto de virada acontece em 1974, no bairro do Curuzu, quando nasce o Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil. Idealizado por Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, ao lado de moradores da Liberdade, o bloco surge como resposta direta à exclusão da população negra dos espaços centrais da festa.

Ao assumir, sem concessões, a negritude como tema, o Ilê Aiyê inaugura uma nova forma de ocupar o Carnaval: com estética africana, discurso político e música própria. O impacto foi imediato. A partir dele, outros grupos surgem com a mesma proposta de valorização da herança africana, como Olodum, Malê Debalê, Muzenza, Araketu e Cortejo Afro — cada um com identidade própria, mas unidos pela mesma raiz.

Do trio elétrico à rua: o que diferencia um bloco afro de outros blocos
O que diferencia um bloco afro não é apenas o ritmo ou o figurino — é a intenção. Enquanto muitos blocos nasceram com foco no entretenimento, os blocos afros surgem como movimentos culturais e políticos que utilizam a arte como ferramenta de enfrentamento.
Segundo o produtor cultural Edivaldo Bolagi, ex-coordenador do Programa Carnaval Ouro Negro, os blocos afros criaram uma nova lógica de desfile ao entender o Carnaval a partir das heranças africanas.
“Eles constroem uma verdadeira apoteose ao trazer para a rua a estética, a mitologia e a história dos reinos africanos, com uma carga política muito clara”, explica.
Musicalmente, os blocos afros criam uma sonoridade própria, marcada pelo ijexá, pelo samba afro e, mais tarde, pelo samba-reggae. Não é samba carioca, nem samba do recôncavo — é uma linguagem híbrida, urbana e ancestral ao mesmo tempo.

Momentos que fizeram dos blocos afros um símbolo do Carnaval de Salvador
Alguns acontecimentos foram decisivos para consolidar os blocos afros como símbolos centrais do Carnaval baiano:
- 1974 – Fundação do Ilê Aiyê: o marco inicial da revolução estética e política;
- 1975 – Primeiro desfile do Ilê: mesmo enfrentando vaias e preconceito, o bloco ocupa a rua com turbantes, black powers e temas africanos;
- 1979 – Surgimento do Olodum: o tambor ganha protagonismo e o Pelourinho se transforma em polo cultural;
- Anos 80 – Consolidação do samba-reggae: com a batida criada por Neguinho do Samba, o som dos blocos afros atravessa fronteiras;
- 1987 – “Faraó”, do Olodum: a música leva a temática africana para o mundo e internacionaliza o bloco;
- Ampliação da representatividade: surgem blocos femininos, como a Banda Didá, e novas narrativas dentro da folia.
Esses momentos não apenas mudaram o Carnaval, mas redefiniram a imagem de Salvador como cidade negra, criativa e politicamente ativa.

Música, estética e discurso: como os blocos afro influenciam a cultura da cidade
A influência dos blocos afros vai muito além da festa. Eles moldaram a música, a moda e o pensamento social da cidade.
Na música, os tambores reafirmam a centralidade da percussão afro-brasileira, conectando Salvador diretamente ao continente africano. Cada batida educa, ensina e reafirma pertencimento.
Na estética, os blocos popularizaram penteados, tecidos, cores e símbolos africanos, ressignificando a ideia de beleza negra. O que antes era alvo de discriminação passou a ser exaltado como identidade.
No discurso, os blocos afros enfrentam o racismo de forma direta. Criados em meio à ditadura, transformaram o Carnaval em espaço de denúncia, memória e educação, mantendo projetos sociais e culturais durante todo o ano.

Como acompanhar os blocos afros no Carnaval de 2026
Em 2026, os blocos afros seguem ocupando os principais circuitos da cidade, com destaque para o Circuito Batatinha (Pelourinho) e o Barra-Ondina, além do tradicional Campo Grande.
Destaques da Programação Afro 2026
- Sexta (13/02): Afoxé Laroyê Arriba, Os Negões, Netos de Ghandy
- Sábado (14/02): Filhos de Korin Efan, Ginga de Negro, Axé Dadá
- Domingo (15/02): Olodum, Filhos de Ghandy, Filhas de Ghandy, Cortejo Afro, A Mulherada
- Segunda (16/02): Olodum (Campo Grande), Dandara, Cortejo Afro
- Terça (17/02): Malê Debalê, Filhos de Ghandy, A Mulherada

O Pelourinho concentra desfiles mais intimistas, ideais para quem busca proximidade com a música e a história dos blocos, enquanto Campo Grande reúne grandes públicos e visibilidade turística.
Mais do que atrações carnavalescas, os blocos afros de Salvador são manifestações vivas de memória, resistência e futuro. Eles transformaram o Carnaval em palco político, cultural e afetivo, onde cada tambor carrega uma história e cada desfile reafirma o direito de existir, ocupar e celebrar.
Acompanhar esses blocos é entender Salvador para além do cartão-postal — é reconhecer que, na capital baiana, festa também é luta, e alegria nunca esteve dissociada da ancestralidade.

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