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Rita de Cássia, a 'Negona de Boa'

1.200 HORAS DE ESPERA

Do Natal ao Carnaval: a ambulante que faz do 'corre' sua maior alegria

Enquanto Salvador se prepara para a folia, a ambulante Rita de Cássia já completa 50 dias de vigília no circuito

Rita de Cássia, a 'Negona de Boa' - Foto Jair Mendonça Jr. / Ag A TARDE

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Jair Mendonça Jr

Por Jair Mendonça Jr

05/02/2026 - 13:54 h | Atualizada em 05/02/2026 - 16:39

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Para Rita de Cássia, a contagem regressiva para o Carnaval de Salvador não começa na abertura oficial, mas 50 dias antes.

Conhecida como 'Negona de Boa', a ambulante garantiu seu espaço no Circuito Dodô (Barra-Ondina) no dia 15 de dezembro, acumulando mais de 1.200 horas de permanência na rua antes mesmo do primeiro acorde de 2026.

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Rita de Cássia
Rita de Cássia | Foto: Jair Mendonça Jr. / Ag A TARDE

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A chegada precoce, anterior às festas de Ano Novo, é a única garantia de manter o ponto que ocupa há duas décadas no Morro do Gato, na Barra. "A gente, pra conseguir o espaço, tá sempre no mesmo lugar, tem que chegar cedo mesmo. Não é à toa que eu tô aqui desde o dia 15 de dezembro", pontua.

Pra mim vale a pena, sim. Não ganhei na Mega-Sena, não trabalho de carteira assinada...
Rita de Cássia, a "Negona de Boa" - ambulante

O sacrifício é a estratégia para enfrentar o aumento da concorrência: "Tem muito novato, muito desempregado. Muita gente querendo essa oportunidade de emprego que é dada nessa época", explica.

Condições precárias?

Morro do Gato
Morro do Gato | Foto: Jair Mendonça Jr. / Ag A TARDE

Questionada sobre as condições para dormir e se alimentar durante essa longa estadia, foi enfática.

Estou aqui porque eu quero, ninguém me obrigou. Todos os anos, prefeitura e patrocinador melhoram nossas condições, pedem pra gente não ficar, mas a maioria tá aqui porque quer, também pra garantir seu espaço, mas sem confusão, porque somos uma grande família”, explica.

Para Rita, os sete dias de folia representam a viabilidade de projetos domésticos e o alívio financeiro. Com uma meta de faturamento entre R$ 2 mil e R$ 4 mil, o dinheiro tem destino certo.

Morro do Gato
Morro do Gato | Foto: Jair Mendonça Jr. / Ag A TARDE

"É uma benção, uma oportunidade que a gente tem de pagar uma dívida, de conquistar um sonho, de arrumar a casa, trocar um telhado, pagar uma agiota ou fazer uma comprinha melhor pra dentro de casa", relata.

Ela, que revelou não trabalhar de carteira assinada, encara o esforço como essencial: "Olha, pra mim vale a pena sim. Não ganhei na Mega-Sena, não trabalho de carteira assinada…", justifica.

Avanços nas condições de trabalho

Diferente de anos anteriores, onde a vigília ininterrupta era a regra, Rita destaca avanços na logística oferecida pela prefeitura e Ambev, patrocinadora da festa. A introdução de barracas com sistema de trancamento mudou sua dinâmica de descanso.

"Este ano deram até a barraca com chave, com tampa, pra gente ir pra casa. Eles estão melhorando bastante pra gente", afirma. Além do equipamento, ela cita o suporte prévio.

"Dão palestra (treinamento) pra gente se aperfeiçoar e todo o material pra gente trabalhar, só precisamos comprar os produtos. Então, isso é maravilhoso", destaca.

Um dos pilares que sustentam a permanência de Rita no circuito do Carnaval é o acolhimento do neto através das creches 24 horas montadas para os filhos dos trabalhadores.

Para ela, o serviço é um divisor de águas na segurança das famílias. "Se hoje, a gente não vê mais as crianças expostas aqui na rua, dormindo, passando da hora de comer, é por conta das creches, lá tem médico, tem recreação, banho e refeição", pontua.

O suporte permite que ela foque nas vendas sem a preocupação com a vulnerabilidade do neto no circuito: "É uma benção".

Ajuda com a logística e com o social

Para além do comércio, Rita descreve o papel do ambulante como um suporte logístico e social para a maior festa de trio elétrico do mundo.

"O ambulante é quem arruma a cidade, é quem alegra a cidade também. Quando a gente vê um caído aqui no chão, a gente vai lá e chama a guarda municipal. Quando alguém está passando mal, a gente tenta ajudar também com a água, dá um banco, leva no posto", descreve.

Para ela, o trabalho informal é a base que sustenta a festa: "A gente sabe que a rua sem um ambulante não existiria Carnaval, porque os camarotes sozinhos não dão conta".

O cansaço de toda essa operação não impede a conexão com a festa. No posto de trabalho, Rita vive o privilégio de quem vê os ídolos de “camarote”, mas no nível do asfalto.

"Dá pra trabalhar e curtir também. Eu me divirto, é o melhor de tudo. Atendo cliente melhor, aí é maravilhoso", conta.

Entre um atendimento e outro, a expectativa é pelo encontro com os ídolos: "Tô ansiosa para ver Léo Santana, Igor Kannário, Ivete... que venham todos. A ‘De Boa’ tá aqui, no Morro do Gato, só esperando começar", finaliza dançando a ambulante Rita de Cássia.

Entregas da Ambev

Kit Ambulante

  • Barreira (novo modelo, fechado com cadeado)
  • 3 bonés
  • 3 coletes
  • 3 camisetas UV
  • 1 capa de chuva
  • 1 protetor solar
  • 1 banco
  • 1 guarda sol com precificador
  • 2 isopores pequenos
  • 1 isopor grande

Entregas da prefeitura de Salvador

  • Vale transporte: ambulantes credenciados que realizaram a capacitação obrigatória recebem um cartão de transporte público com 11 passagens (ida e volta) para uso durante os dias de festa. O benefício também é válido para um acompanhante.
  • Alimentação (restaurantes populares): serão instalados restaurantes populares exclusivos nos circuitos Campo Grande e Barra-Ondina para fornecer refeições gratuitas aos ambulantes ao longo da folia.
  • Centros de convivência e acolhimento: foram criados sete centros de convivência voltados aos trabalhadores. Esses espaços oferecem suporte para carregamento de celular, banho, pontos de recarga para maquininhas de cartão e áreas de descanso.
  • Programa Salvador Acolhe: oferece acolhimento 24 horas para filhos de ambulantes (de 0 a 17 anos) em espaços próximos aos circuitos. O programa visa garantir segurança e dignidade às crianças, fornecendo alimentação completa, atividades lúdicas e práticas esportivas enquanto os pais trabalham.

Ambulantes credenciados

Para este Carnaval, a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) autorizou o licenciamento de 4 mil vendedores ambulantes para atuarem nos circuitos oficiais (Dodô, Osmar e Batatinha).

Este número faz parte de um contingente maior de trabalhadores informais. Se somarmos os licenciados para os carnavais de bairro, as festas pré-carnavalescas (como Fuzuê e Furdunço) e os baleiros, o total de profissionais cadastrados pela prefeitura ultrapassa os 8 mil trabalhadores.

Distribuição e Estrutura

  • Circuitos principais: cerca de 4 mil vagas (isopor e barracas).
  • Baleiros: aproximadamente 1 mil licenciados.
  • Carnavais de bairro: cerca de 3 mil vagas distribuídas por locais como Itapuã, Cajazeiras, Periperi e outros.

Vale ressaltar que, para este ano, a gestão municipal intensificou o combate ao comércio irregular, garantindo que apenas os credenciados — como a Rita de Cássia — tenham acesso aos kits de infraestrutura, transporte gratuito e creches para seus dependentes.

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