FOLIA ALTERNATIVA
MicroTrio de Ivan Huol comemora 30 anos e participa do Carnaval
Sem cordas, eles arrastam um público alternativo

Desde que os primeiros mega trios elétricos surgiram no carnaval de Salvador, na década de 1970, esses monumentais carros de som se reproduziram incessantemente. O sucesso foi tanto que hoje em dia há centenas deles, inclusive espalhados do Oiapoque ao Chuí. E apesar de estarem diretamente associados à festa soteropolitana, há tempos o trio deixou de ser uma exclusividade nossa.
Mas nem só de grandiosidades eletrificadas vive o festejo de Momo. Há exatos 30 anos, surgia o MicroTrio idealizado pelo músico Ivan Huol. Em cima de um simples carro de passeio, quatro músicos – Cinho Damatta (voz e violão), Ivan Bastos (baixo e vocal), Ivan Huol (bateria e voz) e Fred Neto (guitarra baiana) – saem tocando pelos circuitos oficiais da festa.
Sem cordas, eles arrastam um público alternativo com o propósito de criar uma relação – entre música, rua e folião – de proximidade, liberdade e inovação, reafirmando, assim, uma conexão com diferentes territórios simbólicos da festa.
“Temos um público fiel que segue o trio, com muitos artistas, músicos, dançarinos, atores, profissionais liberais e gente que nem conhece a gente e se junta a nós no desfile”, argumenta Huol.
A ideia é resgatar o espírito dos antigos bloquinhos de rua, agora com a potência eletrificada pela guitarra baiana – patrimônio da festa. No repertório, axé, ijexá, samba, frevo, forró, MPB e músicas internacionais, sempre com releituras criativas.
Segundo Huol, o MicroTrio mostrou que é possível tocar no carnaval com estruturas mais modestas e sustentáveis, sendo uma alternativa real aos trios elétricos tradicionais, caros e pesados.
“O desenho do MicroTrio, que é uma volta à ideia original de Dodô e Osmar, traz o folião novamente pra perto dos artistas. Sempre disse que imitações ao nosso triozinho seriam muito bem-vindas e o mais incrível é que hoje somos uma ‘categoria’, com muitas iniciativas como a nossa pipocando no carnaval e democratizando ainda mais nossa festa maior”, comenta Ivan.
O tema deste ano será ‘MicroTrio 3.0 – Três décadas de alegria em movimento’, uma celebração que revisita a própria história do projeto e reafirma seu papel na preservação e reinvenção do carnaval de Salvador.
E a agenda é a seguinte: amanhã (14), no Circuito Dodô (Barra/Ondina), no início da tarde; domingo (15), no Carnaval do Pelô (Largo Terreiro de Jesus), às 17h; e na segunda-feira (16), na tradicional Mudança do Garcia – bloco de resistência popular, irreverência política e forte mobilização social, que sai do bairro do Garcia em direção ao circuito Osmar (Campo Grande) –, pela manhã, com participação especial da sambista baiana Juliana Ribeiro.
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Moraes e Armandinho
Com uma estética própria, o MicroTrio nasceu em 1996 com o intuito de colocar músicos e foliões no mesmo nível, compartilhando chão, som e vibração na mesma intensidade, já que o carnaval caminhava para produzir música em escalas cada vez mais altas e maiores.
“Em três décadas nos firmamos no cenário do carnaval de Salvador tocando um repertório diferenciado, num volume saudável e com o primeiro e único (infelizmente) trio que não usa gerador de energia a explosão convencional”, destaca Huol.
E mesmo com tantos altos e baixos para conseguir participar da festa durante estas três décadas, Ivan garante que eles seguem tocando aquilo de que gostam, sem amarras e imposição do mercado. “Queremos levar nossa música sempre de maneira gratuita para o folião pipoca”.
“Vamos sentindo o clima e testando nosso repertório, que é muito grande e variado. Gostamos de abrir os trabalhos com frevos instrumentais, dando aquele sabor retrô dos antigos carnavais. Depois é só escolher entre axé, pop rock, galope, bolero, MPB, enfim, muito Moraes, Armandinho, Gerônimo e Luiz Caldas”, detalha o baterista.
E, claro, o samba, tema do carnaval soteropolitano em 2026, não poderia ficar de fora. “A saída com a participação de Juliana Ribeiro, na Mudança do Garcia, na segunda-feira, é muito focada no samba e sempre faz muito sucesso com o nosso público, que gosta de valorizar as raízes baianas ligadas a esse gênero musical”, esclarece Huol.
Visão humanista
Para o violonista Cinho Damatta, que é integrante do grupo há 20 anos, é muito gratificante fazer parte desta equipe, cantando e tocando. “O Microtrio representa um marco na minha trajetória como artista. Um ponto de referência dos mais importantes da minha carreira musical”.
Também no ‘triozinho’ – desde o final dos anos 1990 –, o baixista Ivan Bastos acredita que o pequeno carro de som “representa uma visão mais humanista da manifestação carnavalesca, promovendo uma proximidade maior com o folião”.
E justamente em um período de muita requisição de músicos para uma festa volumosa como o carnaval baiano, Bastos e Damatta garantem que vão tocar somente com o MicroTrio. “Raramente, faço uma apresentação com outro artista, pela questão da agenda e também por opção”, finaliza Ivan Bastos.
Sem dúvida, hoje, o MicroTrio é um símbolo do carnaval alternativo de Salvador, aquele que valoriza a rua como palco e o encontro como essência. Nesses 30 anos, o grupo reafirma que a grandeza da festa não está na escala, mas na intensidade da experiência.
O patrocínio é da Bahiagás e Governo do Estado (sábado e segunda), e do Edital Carnaval do Pelô, promovido pelo Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.
MicroTrio / dia 14, Circuito Dodô (Barra/Ondina), início da tarde / dia 15, Largo Terreiro de Jesus, 17h / dia 16, saída do Garcia em direção ao Campo Grande, pela manhã
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